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Naquele ano, o Haiti vivia um período de instabilidade extrema após a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide, e a missão de estabilização da ONU, liderada pelo Brasil, procurava restaurar a ordem.
A decisão de levar a seleção brasileira ao país teve aprovação da FIFA e do governo brasileiro, sendo vista como uma oportunidade de usar o desporto para promover a pacificação e aproximar a população do país de um momento de esperança.
A chegada da delegação brasileira ao Haiti foi marcada por grande comoção. Por questões de segurança, os jogadores desembarcaram apenas duas horas antes do jogo e deslocaram-se até ao Estádio Sylvio Cator em veículos blindados da ONU, enquanto milhares de haitianos aglomeravam-se nas ruas, telhados e postes para acompanhar a passagem de estrelas como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos. Alguns jogadores importantes, como Kaká, Dida, Cafu, Lúcio e Zé Roberto, não foram libertados por AC Milan e Bayern de Munique.

Dentro de campo, a seleção brasileira venceu por 0-6, com golos de Ronaldinho (hat-trick), Roger (dois) e Nilmar. O marcador, embora expressivo, não refletia toda a importância da partida, já que cada golo representava um momento de esperança e alegria para os haitianos, numa celebração que por alguns instantes suspendeu a violência que assolava Porto Príncipe. O próprio selecionador Carlos Alberto Parreira descreveu a experiência como uma das mais emocionantes da sua carreira.
O histórico do Jogo da Paz também envolveu ações inusitadas, como a oferta de prémios em dinheiro pelo primeiro-ministro haitiano Gerard Latortue para os autores dos golos, o que foi rejeitado posteriormente, mostrando a dimensão simbólica do evento. Além disso, a partida contou com o apoio da diplomacia brasileira e da MINUSTAH, a missão de paz da ONU, que reforçou a segurança e o impacto da ação.
Em 2026, o Haiti regressa ao Mundial após 52 anos, enfrentando novamente uma situação de instabilidade e violência. O país possui voos internacionais limitados para a capital, e o técnico Sébastien Migné praticamente convocou jogadores que atuam fora do Haiti, exceto Pierre Woodenski, que joga no Violette. Mesmo assim, a seleção conquistou uma qualificação histórica nas Eliminatórias da CONCACAF, superando Costa Rica e Honduras, mostrando resiliência diante dos grandes desafios.
A equipa haitiana contará com nomes conhecidos internacionalmente, como o avançado Duckens Nazon, principal artilheiro, e o médio Jean-Ricner Bellegarde, do Wolverhampton. Apesar de ser considerada uma das seleções mais frágeis do grupo, a simples participação já representa motivo de orgulho e celebração para um país que enfrenta uma grave crise humanitária, destacando a força simbólica do futebol como fator de união e visibilidade internacional.
Brasil e Haiti dividem agora o mesmo grupo, mas carregam histórias distintas que se cruzaram de forma marcante há mais de 20 anos. Em três duelos entre si, são três triunfos da canarinha, o mais antigo em 1974 (4-0) e o mais recente em 2016 (7-1). O encontro no Mundial-2026 representa não apenas um duelo desportivo, mas também a continuidade de uma relação histórica.
