Opinião: Este Mundial empurra ainda mais o futebol para o abismo

Gianni Infantino é o presidente da FIFA
Gianni Infantino é o presidente da FIFAFREDERIC J. BROWN / AFP

O Mundial começou há duas semanas, mas ainda não arrancou verdadeiramente. Este enchimento forçado prejudica o futebol, mas somos vítimas consentidas deste turbilhão que nos arrasta para o delírio.

Sabe como se faz foie gras? Pega-se num pato ou numa oca, enfia-se-lhe um tubo de 20 a 30 centímetros pelo gargalo abaixo e enfarda-se o animal com milho até o fígado adoecer. Este Mundial a 48 equipas é igual. Demasiados jogos, demasiados grupos, demasiado aparato, demasiadas pausas para hidratação, demasiadas páginas de publicidade, demasiados tempos mortos. Demasiado, demasiado, demasiado, demasiado. O resultado deste empanturramento é a ageusia. Ou seja: a perda de sabor.

Os apaixonados pelo futebol querem umami: a FIFA responde com um buffet “all you can eat” indigesto, filmado à pá, com muitos planos de pormenor sobre os jogadores, os adeptos, os decotes e as crianças a chorar, mesmo quando a bola está em jogo. 48 equipas... e porque não 64, ou melhor ainda, 128, com 16 grupos de 8 equipas sem qualquer eliminado e uns 32 avos de final a duas mãos, já que todos querem uma fatia, já que a hipérbole favorece as reeleições, já que se está disposto a tudo, até empobrecer o espetáculo, para saciar a gula, ao ponto de fazer Mister Creosote parecer um asceta?

Rios de chantilly para disfarçar uma sobremesa industrial. Começa logo na entrada dos jogadores no relvado, com 52 jogadores, 4 árbitros, as crianças acompanhantes, os voluntários que seguram bandeiras gigantes. Deve dar umas 250 pessoas, no mínimo, para sobrevalorizar duelos que não o são, para transformar falsamente o banal num momento excecional, até tornar o excecional banal. Tudo isto ao som de uma música feita de onomatopeias, à qual só mudam o título antes de a enfiar nos ouvidos.

Depois dos hinos: publicidade. A meio da primeira parte: publicidade. Ao intervalo: publicidade, publicidade, publicidade. Dá vontade de perguntar o que faz o futebol no meio deste dilúvio de anúncios.

Nas bancadas, Gianni Infantino reina em todo o seu esplendor, com a sua pegada de carbono exponencial e a sua escoliose aguda provocada pelas vénias feitas a Donald Trump, cuja administração recusa um árbitro somali apenas pela nacionalidade, interroga durante horas o capitão iraquiano, impõe à equipa iraniana condições leoninas para permanecer o mínimo de tempo possível em solo norte-americano.

Ao lado dele, lendas do futebol assistem, extasiadas e subservientes, à destruição do desporto que lhes deu fama. E no estádio, como em frente aos ecrãs: nós, pouco mais espertos, empurrados a ver, ver, ver sempre, como Alex DeLarge em Laranja Mecânica, com a única diferença de que seremos nós próprios a manter os olhos bem abertos, prontos para receber uma orgia de golos, repetições berrantes, celebrações, gritos da multidão, polémicas, a comprar bilhetes e merchandising a preços exorbitantes. Futebol até à última gota, sem pausa nem para os jogadores nem para os adeptos. O carrossel não pode parar de girar, sem descanso para ninguém. E como ninguém é capaz de carregar no travão... O futebol desaparece, o prazer esgota-se, mas como há sempre mais, porque haveríamos de tirar a cabeça do tacho?

104 jogos por uma estrela, uma competição que nunca parece começar, mesmo duas semanas depois do pontapé de saída. Impossível saborear, pede-se que se consuma com o olho no relógio. O Mundial é um restaurante gourmet que, de edição para edição, se assemelha cada vez mais a um fast food. Demasiado gorduroso, demasiado doce, demasiado salgado, mas a margem é tão boa. Quando o empanturramento resulta, o animal torna-se dependente. O que ele não sabe é que isso o leva ao matadouro. Ora, por mais que o ser humano tenha consciência, mesmo perante o cadafalso, ainda pede mais, nunca saciado, ao seu carrasco. Podia revoltar-se, indignar-se, recusar contribuir para esta loucura, mas há as probabilidades dos melhores terceiros para calcular, por isso fica para outro dia.