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Opinião: Uma final vergonhosa expôs a ameaça existencial que Infantino representa para o Mundial

Madonna atuou no espetáculo do intervalo do Mundial-2026, acompanhada por Ronaldinho e Ronaldo
Madonna atuou no espetáculo do intervalo do Mundial-2026, acompanhada por Ronaldinho e RonaldoHu Xingyu / Xinhua News / Profimedia

Com pouquíssimas oportunidades e sem golos até bem perto do final do prolongamento, a final do Mundial-2026 não foi propriamente memorável, mas foram os acontecimentos fora das quatro linhas que traçaram um cenário sombrio para o futuro da competição sob a presidência de Gianni Infantino na FIFA.

O que gostaria de ver numa final do Mundial? Preferia um estádio icónico, com uma história rica e um ambiente vibrante? Ou um parque de estacionamento em Nova Jérsia? Gostaria de preços acessíveis para que as bancadas estivessem cheias de adeptos fervorosos? Ou bilhetes a 30.000 dólares?

Preferia uma preparação para o jogo repleta de cânticos e entusiasmo vindo das bancadas? Ou um discurso do Tom Cruise? Gostaria que o intervalo passasse o mais depressa possível para que o maior jogo do desporto pudesse recomeçar? Ou o Ted Lasso a trazer o Justin Bieber para cantar uma balada triste?

Preferia que os ecrãs gigantes mostrassem repetições dos momentos mais marcantes do jogo? Ou imagens de celebridades pouco conhecidas com ar profundamente desinteressado? Gostaria que a última imagem do torneio fosse a da melhor equipa do mundo a erguer o troféu e a concretizar o sonho de uma vida? Ou uma fotografia com um político extremamente divisivo mesmo no centro da cena?

Talvez eu esteja completamente fora da realidade, e a FIFA e Infantino tenham descoberto que muita gente queria a segunda opção quando estavam a planear a final do Mundial-2026.

Ou talvez simplesmente nunca tenham pensado no que as pessoas realmente queriam. Talvez, como fizeram durante todo o torneio, tenham apenas feito aquilo que lhes traria mais dinheiro.

Donald Trump e Gianni Infantino na final do Mundial-2026
Donald Trump e Gianni Infantino na final do Mundial-2026ČTK / imago sportfotodienst / Paul Terry

Aquilo que ficará para a história como uma das piores finais de sempre do Mundial não foi, sem dúvida, ajudado pela falta de emoção no relvado, mas está longe de ter sido a primeira final a desiludir nesse aspeto. Só nos últimos tempos, tivemos uma que esteve sem golos até ao minuto 116 (2010) e outra sem golos até ao 113'.

No entanto, essas finais ainda tinham, pelo menos, um verdadeiro sentido de ocasião. A sensação de que o evento mais importante do desporto estava a acontecer diante de nós. A perceção de que, tanto para quem estava nas bancadas como para quem estava em campo, seria um dos melhores dias das suas vidas, ou um dos piores.

A edição de 2026, por outro lado, graças em grande parte ao local escolhido, à quantidade absurda de música pop e à composição do público resultante dos preços dos bilhetes, teve o ambiente de um amigável de pré-época. Só que com a presença desconcertante de celebridades.

Pelo menos, foi um final adequado para o torneio como um todo, um torneio em que Gianni Infantino perseguiu dinheiro e favores da nação mais poderosa do mundo com a mesma intensidade com que os jogadores da Argentina perseguiram os seus adversários.

Havia esperança de que, satisfeito com os preços exorbitantes dos bilhetes, a sua busca não continuasse durante o torneio, mas depois vieram as pausas para hidratação, realizadas em condições em que os jogadores não precisavam minimamente de hidratar-se.

Anúncio publicitário exibido durante uma pausa para hidratação
Anúncio publicitário exibido durante uma pausa para hidrataçãoELSA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP / Profimedia

Ficou então claro que estávamos perante um homem com uma missão, e que não deixaria que as temperaturas amenas e os estádios climatizados o impedissem de dar aos canais televisivos mais intervalos publicitários. As incómodas leis do jogo também não seriam obstáculo. Se o presidente do país anfitrião quisesse que a suspensão da sua estrela fosse anulada, então assim seria. E, como último ato, ofereceu aos anfitriões uma má imitação do Super Bowl que ninguém pediu. Pelo menos ninguém verdadeiramente interessado no futebol que deveria ser o centro das atenções.

A preocupação para essas pessoas agora é que, ao despedirmo-nos do Mundial-2026 e ao olharmos para o próximo, Infantino não dá sinais de abrandar, mas sim de intensificar ainda mais a sua postura. Torna-se cada vez mais evidente que pretende tornar o torneio ainda mais desmesurado em 2030, alargando-o a impressionantes 64 equipas. Ora, isso são mais jogos para vender bilhetes a preços exorbitantes, por isso porque não o faria?

Numa decisão sem precedentes, três continentes vão acolher o torneio, com Marrocos a juntar-se à candidatura de Espanha e Portugal, e os jogos de abertura a serem atribuídos à Argentina, Paraguai e Uruguai, para assinalar o aniversário da primeira edição. Convenientemente, isso deixou a Ásia como o único continente disponível para acolher a edição de 2034, abrindo caminho à Arábia Saudita.

Se precisar de refrescar a memória, é a mesma Arábia Saudita que detém uma participação na DAZN, um canal que pagou milhares de milhões à FIFA pelos direitos televisivos do último Mundial de Clubes.

Mas chega de negativismo, vamos entusiasmar-nos com a próxima edição do maior espetáculo do planeta! Quem a vai vencer? Quem se importa? A grande questão é: Quem vai atuar no espetáculo do intervalo?