Reportagem: Brasileirão reforça estatuto de viveiro para seleções sul-americanas

Félix Torres, do Internacional, chegou a ser o capitão da seleção do Equador durante o particular contra a Arábia
Félix Torres, do Internacional, chegou a ser o capitão da seleção do Equador durante o particular contra a ArábiaWILLIAM VOLCOV / BRAZIL PHOTO PRESS / BRAZIL PHOTO PRESS VIA AFP

Harrison, Nova Jérsia (EUA) — Com o Mundial prestes a arrancar, há uma tendência que se destaca para além do habitual domínio das principais ligas europeias: a crescente importância do futebol brasileiro como plataforma de desenvolvimento e afirmação para muitos dos melhores jogadores sul-americanos. A composição das convocatórias mostra que o Brasil se consolidou não apenas como uma das maiores potências futebolísticas do continente, mas também como um autêntico viveiro de talento e uma referência competitiva para várias seleções da América do Sul.

Impulsionado por um poder financeiro sem paralelo no contexto sul-americano, o Brasileirão transformou-se na principal montra do continente para os jogadores que ambicionam disputar um Campeonato do Mundo.

A dimensão dessa influência reflete-se até na própria seleção brasileira. Dos convocados para o Mundial, sete atuam atualmente no campeonato brasileiro, um grupo de destaque liderado por Neymar, a principal figura do Santos. Mas o verdadeiro reflexo do impacto do mercado brasileiro está nas listas dos países vizinhos.

Disputa pelo topo: Paraguai, Uruguai e Equador dominam Brasileirão

A disputa para perceber qual será a seleção estrangeira com mais jogadores provenientes do Brasileirão promete ser uma das curiosidades deste Mundial. O Paraguai surge como um dos principais candidatos a liderar essa lista, contando com oito atletas da Série A brasileira na pré-convocatória.

Logo atrás aparecem o Uruguai, orientado por Marcelo Bielsa, e o Equador. A seleção uruguaia já confirmou a presença de sete jogadores que atuam no campeonato brasileiro, estabelecendo um novo máximo histórico nas convocatórias da Celeste para fases finais do Mundial.

Já o Equador poderá igualar esse número, reforçando ainda mais o peso crescente do futebol brasileiro na preparação e desenvolvimento de alguns dos principais talentos sul-americanos.

Arrascaeta, o camisola 10 da seleção uruguaia
Arrascaeta, o camisola 10 da seleção uruguaiaMARTIN SILVA COSENTINO / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

A Colômbia surge logo a seguir, com quatro jogadores de clubes brasileiros incluídos na convocatória final para o Mundial. Um número que reforça a crescente influência do Brasileirão no panorama sul-americano.

Até a Argentina, atual campeã do mundo, abriu espaço para um representante do futebol brasileiro. O selecionador Lionel Scaloni chamou o avançado Flaco López, do Palmeiras, para a lista definitiva, um feito de relevo tendo em conta a enorme concorrência existente no ataque da seleção argentina.

A ligação brasileira do Equador

Para perceber a influência do futebol brasileiro nesta realidade, basta olhar para o caso do Equador. Após a vitória por 2-1 sobre a Arábia Saudita, num jogo de preparação disputado no Sports Illustrated Stadium, em Harrison, Nova Jérsia, o selecionador Sebastián Beccacece optou por apresentar uma equipa alternativa, procurando esclarecer as últimas dúvidas antes da definição da lista final.

Segundo a imprensa equatoriana, apenas seis vagas permanecem em aberto na convocatória para o Mundial. E, nessa disputa, os jogadores que atuam na Série A brasileira surgem em posição privilegiada, refletindo o peso crescente que o Brasileirão tem vindo a assumir nas decisões das principais seleções sul-americanas.

Jogadores do Equador comemoram golo contra a Arábia Saudita
Jogadores do Equador comemoram golo contra a Arábia SauditaWILLIAM VOLCOV / BRAZIL PHOTO PRESS / BRAZIL PHOTO PRESS VIA AFP

Dos 34 jogadores chamados por Sebastián Beccacece para esta fase de preparação, sete atuam atualmente no futebol brasileiro. São eles o guarda-redes Cristhian Loor (Botafogo), os defesas Félix Torres (Internacional), Angelo Preciado (Atlético Mineiro) e José Andrés Hurtado (Red Bull Bragantino), o médio Alan Franco (Atlético Mineiro) e os avançados Gonzalo Plata (Flamengo) e Alan Minda (Atlético Mineiro).

Após a vitória sobre a Arábia Saudita, o Flashscore falou com Angelo Preciado na zona mista. O lateral do Atlético Mineiro destacou a qualidade do futebol brasileiro e revelou que jogar no Brasil era um objetivo antigo da sua carreira.

“Sempre foi um sonho poder jogar no Brasil. Antes de me transferir para a Europa, já tive essa possibilidade. Agora, de regresso à América do Sul, estou a desfrutar de cada momento”, afirmou o internacional equatoriano, que aguarda com expectativa a divulgação da lista final de 26 jogadores para o Mundial.

O jogador equatoriano Angelo Preciado comenta sobre o regresso à América do Sul e a escolha pelo futebol brasileiro.
Josias Pereira / Flashscore

O preço da competitividade

O nível competitivo do Brasileirão funciona, cada vez mais, como uma verdadeira prova de fogo para os jogadores sul-americanos. A intensidade do calendário, a exigência dos adeptos e a pressão constante por resultados criam um contexto muito próximo daquele que os atletas encontram num Campeonato do Mundo, algo que poucas ligas fora da Europa conseguem proporcionar.

No entanto, essa competitividade também tem o seu lado menos favorável. Angelo Preciado é um exemplo disso. Apesar de continuar a fazer parte dos planos de Sebastián Beccacece e de ter sido utilizado na segunda parte frente à Arábia Saudita, precisamente no lugar de José Andrés Hurtado, seu concorrente direto na seleção e no futebol brasileiro, o lateral ainda procura afirmar-se de forma consistente no Atlético Mineiro. Em 2026, soma 16 jogos, mas perdeu algum espaço nas escolhas recentes da equipa técnica.

"Está a ser um pouco complicado neste início, mas acredito que, com trabalho, a situação vai melhorar", afirmou Preciado sobre o momento que atravessa no clube.

O internacional equatoriano mostrou-se igualmente satisfeito com a oportunidade recebida na seleção. "O jogo de hoje serviu para continuarmos a evoluir. Trabalhámos bem e acredito que temos possibilidades de integrar a convocatória final. Foi uma equipa muito alternativa, todos aproveitaram a oportunidade e o mais importante foi a vitória e os minutos que conseguimos somar", explicou.

Com os últimos jogos de preparação concluídos e as convocatórias definitivas prestes a ser anunciadas, uma conclusão parece inevitável: para muitas seleções sul-americanas, o caminho mais direto para o Mundial passa atualmente pelos relvados do futebol brasileiro.

Minda em ação pela seleção do Equador
Minda em ação pela seleção do EquadorOMAR VEGA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP