Reportagem: Imigrantres receiam que Mundial-2026 se transforme numa rusga nos Estados Unidos

Alguns imigrantes receiam que o Mundial se transforme numa rusga
Alguns imigrantes receiam que o Mundial se transforme numa rusgaSELCUK ACAR / ANADOLU / ANADOLU VIA AFP

A primeira participação do Haiti num Mundial desde 1974 enche de orgulho Emile, um haitiano residente em Ohio, mas sente receio de ir apoiar a sua seleção devido à repressão migratória promovida pelo presidente norte-americano Donald Trump.

"Cantar o hino nacional do meu país num estádio, perante todo o mundo, é um momento histórico que ninguém gostaria de perder", afirmou à AFP este camionista de cerca de 40 anos, que preferiu não revelar o seu apelido.

"Mas, ao mesmo tempo, penso duas vezes. Não quero que o ICE me detenha", acrescentou, referindo-se aos agentes do Serviço de Imigração e Controlo de Alfândegas (ICE), cuja missão é deter e deportar cidadãos estrangeiros sem documentos.

"O meu advogado aconselhou-me a não viajar de avião para evitar ser intercetado no aeroporto", comentou.

As preocupações de Emile são partilhadas por muitos membros da comunidade migrante. Viram em primeira mão como atuam os agentes do ICE, que encapuzados e fortemente armados recorrem frequentemente a métodos brutais em várias cidades dos Estados Unidos.

O auge da indignação em relação ao ICE ocorreu em janeiro, quando agentes do serviço migratório mataram a tiro dois manifestantes norte-americanos em Mineápolis.

"Agora as pessoas estão muito atentas ao que (as autoridades) estão a fazer e já não se sentem seguras", declarou à AFP Mónica Sarmiento, da Coligação da Virgínia pelos Direitos dos Imigrantes.

"Têm medo. Observámos táticas muito agressivas por parte do ICE, dirigidas não só contra as comunidades sem documentos, mas também contra pessoas com estatuto de proteção", acrescentou.

Sarmiento referiu que "70% das pessoas detidas, presas e deportadas não têm antecedentes criminais".

"Muitos deles vivem aqui há décadas e pagam impostos", acrescentou, denunciando a existência de "um clima de medo e hostilidade em todo o país; uma situação que não se limita ao Mundial, mas que se vive diariamente".

Comunidade haitiana preocupada

Dos 104 jogos do Mundial, 78 vão ser disputados nos Estados Unidos, país coorganizador do torneio — agendado de 11 de junho a 19 de julho — juntamente com o Canadá e o México.

A possibilidade de o ICE intensificar a sua atividade, aproveitando os jogos em território norte-americano, despertou receios no seio da comunidade hispânica dos Estados Unidos, que representa 20% da população nacional e está sobretudo concentrada na Califórnia, Texas e Flórida.

A sua presença é especialmente significativa em grandes cidades como Miami, Los Angeles, Dallas e Nova Iorque, todas elas sedes do Mundial.

A comunidade haitiana — cerca de 850.000 pessoas em 2024, maioritariamente concentradas em Miami e Nova Iorque — também está sob ameaça devido à intenção da administração Trump de pôr fim ao Estatuto de Proteção Temporária (TPS), do qual beneficiam migrantes como Emile.

Este estatuto impede que sejam deportados para o seu país de origem, que no caso haitiano equivale a um bilhete para uma das nações mais pobres do mundo e um território assolado pela instabilidade política, crise económica e violência das gangues.

"Graves violações de direitos"

Os receios intensificaram-se após relatórios de organizações como a Human Rights Watch, que citou o caso de um requerente de asilo detido pelo ICE e deportado para o seu país de origem depois de assistir à final do Mundial de Clubes, no ano passado, em East Rutherford (Nova Jérsia).

Algumas organizações de defesa dos direitos humanos receiam que o ICE coloque turistas estrangeiros no centro das atenções, caso se encontrem nas imediações dos estádios ou nas numerosas Fan zones ou zonas para adeptos, onde se vão reunir milhares de seguidores.

Mais de 120 organizações de direitos civis dos Estados Unidos — entre elas a influente União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) — emitiram em abril um "aviso de viagem" alertando para o "risco de graves violações de direitos" para adeptos, jogadores, jornalistas e outros visitantes.

Segundo os signatários, "as pessoas que viajem para os Estados Unidos podem correr o risco de lhes ser recusada a entrada, de serem detidas, presas e/ou deportadas; de serem alvo de perfis raciais ou de receberem um 'tratamento cruel, desumano ou degradante — e até de morrerem — enquanto estiverem sob detenção ou custódia do ICE'".

O ICE, uma das várias agências que integram o Departamento de Segurança Interna (DHS), participa há muito tempo nos dispositivos de segurança dos grandes eventos desportivos, como o Super Bowl.

"Os visitantes internacionais que entrem legalmente nos Estados Unidos para assistir ao Mundial não têm nada a temer", declarou à AFP um porta-voz do DHS. "O que faz de uma pessoa alvo das autoridades de controlo migratório é o facto de se encontrar ou não nos Estados Unidos de forma ilegal", acrescentou.

A FIFA respondeu a uma pergunta da AFP afirmando que "está empenhada no respeito de todos os direitos humanos reconhecidos internacionalmente e esforça-se por promover a proteção desses direitos".

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