Reportagem: México entre os mariachis e o cordão aos manifestantes

Dezenas de mexicanos à espera de entrar no Azteca
Dezenas de mexicanos à espera de entrar no AztecaReuters

O Mundial-2026 de futebol arranca esta quinta-feira numa Cidade do México cheia de contrastes, entre os grupos de mariachi que recebem os adeptos e a polícia a tentar encurralar os manifestantes que marcham para boicotar o primeiro encontro.

Siga o México - África do Sul com o Flashscore

Grupos de mariachi nas imediações do Estádio da Cidade do México (antigo Estádio Azteca) reuniram-se para receber os adeptos que pouco a pouco preenchem os lugares para assistir ao pontapé inicial do Campeonato do Mundo, que vai decorrer no México, nos Estados Unidos e no Canadá.

Grupos de Chinelos de Xochimilco (bailarinos desta povoação inserida na cidade) e até disfarces com imagens alusivas a Quetzalcóatl (principal divindade do panteão mexicano) apresentam um pouco da diversidade e herança cultural do México para os adeptos, não só mexicanos, que vão entrando no estádio, a menos de uma hora do encontro inaugural.

Mas o caminho para o estádio não se faz só de festa. A polícia e a Guarda Nacional montaram um enorme cordão para impedir a passagem dos manifestantes que chegam ao estádio de todas as frentes.

As centenas de “Madres Buscadoras” (grupo de cidadãos, maioritariamente mulheres, que buscam filhos que desapareceram às mãos do narcotráfico e que acusam o Estado de complacência) foram as que chegaram mais perto do estádio, ocupando as ruas e pontes com fotografias dos mais de 123 mil desaparecidos, enquanto tentavam forçar a passagem.

O protesto à porta do estádio
O protesto à porta do estádioReuters

Do outro lado, a cerca de um quilómetro, as dezenas de milhares de trabalhadores da educação convocados pela Coordenadora Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) foram bloqueados por barreiras de betão e ferro, mas tentam romper o cordão policial derrubando as barreiras.

Vários manifestantes ouvidos pela Lusa acusam o Governo de privilegiar as imposições da FIFA e de disponibilizar mais dinheiro para o campeonato do que a procurar os cidadãos desaparecidos, combater a especulação imobiliária ou atender às reivindicações salariais dos professores.

Alguns cidadãos que não estavam associados a estes coletivos também se juntaram sob a crítica de que os adeptos de futebol e os turistas foram privilegiados, por exemplo, no acesso a transportes públicos.

Vários vídeos difundidos nas redes sociais mostram a polícia a impedir o acesso a cidadãos ao comboio suburbano, permitindo apenas a passagem a pessoas com bilhete para o encontro inaugural entre as seleções mexicana e sul-africana.

Polícia tenta controlar a multidão
Polícia tenta controlar a multidãoReuters

Manifestantes também acusaram a Guarda Nacional de utilizar “falcões” - elementos descaracterizados que instigam conflitos dentro das manifestações para dispersá-las.

A menos de 10 minutos do arranque do primeiro jogo do Mundial, os manifestantes continuam a tentar chegar ao estádio, enquanto cresce o contingente militar e das forças de segurança.