Contudo, ao pousar em solo mexicano, o cenário vira do avesso. A organização local montou uma receção impecável: uma fila exclusiva para quem possui a credencial da FIFA, uma imigração extremamente veloz e uma massa de voluntários dedicados a orientar turistas e jornalistas.
Confira a tabela do Mundial-2026 no Flashscore
Mas o tapete vermelho estendido pela entidade termina exatamente na porta de saída do terminal. Dali para a frente, o que se viu foi o retrato de uma metrópole sitiada.

Aeroporto sob cerco e policiais a almoçar em pé
A Cidade do México amanheceu tomada por fortes manifestações populares, lideradas por sindicatos de professores. Com o temor generalizado de que os manifestantes ocupassem o aeroporto internacional, o governo local montou um esquema policial reforçadíssimo.

A cena na saída do terminal era de pura apreensão. Praticamente todas as entradas do aeroporto foram bloqueadas, deixando apenas duas vias de acesso abertas. O metro foi fechado e as aplicações de mobilidade, como o Uber, simplesmente não conseguiam chegar aos terminais de embarque.

Apenas viaturas e veículos policiais autorizados circulavam. No meio desse clima tenso, a imagem dos polícias a almoçarem em pé, sem largar os postos, traduzia o tamanho do alerta de segurança na capital.
Sem Uber e com o transporte público travado, a deslocação transformou-se numa extorsão a céu aberto. Taxistas cobravam cifras abusivas entre 60 e 70 dólares por viagens curtas — que normalmente custariam cerca de 16 dólares via aplicação.
Após muita troca de argumentos, alguns motoristas aceitavam baixar para 40 dólares. A reportagem do Flashscore conseguiu romper o bloqueio ao negociar diretamente com um motorista de Uber, fora da plataforma, fechando a viagem por 20 dólares para o destino final: o icónico Estádio Azteca.

"Não vai ter Mundial" versão mexicana
A viagem até ao estádio foi marcada por inúmeros bloqueios viários. O clima de tensão e as confusões nas ruas trouxeram uma forte sensação de déjà-vu, remetendo imediatamente aos protestos que marcaram o Mundial de 2014, no Brasil. Se em solo brasileiro o slogan era o famoso "Não vai ter Copa", na Cidade do México o tom não é muito diferente.
Nos arredores do Azteca, as marcas do descontentamento social estão estampadas nos muros. Um enorme mural exibe a frase "Fora FIFA" em várias línguas, acompanhada de menções jocosas ao presidente norte-americano Donald Trump. A principal queixa, no entanto, é de cunho ecológico e comunitário.
Os manifestantes protestam contra as obras de modernização do estádio, que afetaram a rede fluvial da região. Faixas com os dizeres "Água é Vida" escancaram o debate que divide a vizinhança e o comité organizador na véspera da abertura. E a tendência é piorar: se na véspera o trânsito já estava parado, o cerco de segurança da FIFA amanhã fechará completamente todos os acessos.

O discurso da FIFA
Para completar o cenário de contrastes, o presidente da FIFA concedeu uma conferência de imprensa no próprio Estádio Azteca. Num pronunciamento que provocou a confusão e a pura esquiva política, Gianni Infantino blindou a entidade de qualquer responsabilidade sobre o caos urbano.
Evitando responder diretamente sobre as crises que cercam o evento, preferiu transferir o foco para as quatro linhas, assegurando que a abertura será "uma grande festa e um espetáculo inesquecível". Resta saber se o adepto nas ruas compartilha desse mesmo otimismo institucional.

Enquanto a FIFA se esquivava, a estrutura interna do Mundial-2026 batia com a cabeça. A sala da imprensa sofreu com picos e quedas de energia, gerando apreensão entre os jornalistas que corriam contra o relógio para enviar os seus materiais. A própria sala de imprensa, colada à zona de trabalho dos repórteres, operava sob forte barulho. Além disso, os fotógrafos que foram ao campo depararam-se com a falta de cabos de rede.
Até a logística de alimentação foi quase feita com improviso. Nos balcões internos, operadores de caixa batiam cabeça e não sabiam informar se o serviço para a imprensa credenciada era gratuito ou pago. Após minutos de consulta e indecisão, a cobrança foi efetuada: 20 dólares por uma refeição básica.
O México prepara-se para a festa nas bancadas com os seus 85 mil adeptos. Mas, fora delas, o Diário deste Mundial começa a fazer-se em tons de improviso, forte pressão social, respostas evasivas e a certeza de que os bastidores deste Mundial serão uma caótica e inesquecível prova de resistência.
