Reportagem: A rota das tempestades que podem paralisar jogos do Mundial-2026

Perigo que vem do céu: tempestades colocam jogos do Mundial nos EUA em alerta
Perigo que vem do céu: tempestades colocam jogos do Mundial nos EUA em alertaPaul ELLIS / AFP / AFP / Profimedia

Quem acompanha o futebol jogado na América do Sul ou na Europa está habituado a uma regra informal: se a chuva não alagar o relvado, a ponto de impedir a bola de rolar, o jogo continua. Nos Estados Unidos, a história é outra.

Com compromissos agendados para três estádios totalmente abertos e expostos à região litoral do Atlântico — MetLife Stadium, Lincoln Financial Field e Hard Rock Stadium —, o Brasil está, literalmente, na rota das chamadas summer thunderstorms (as tempestades tropicais de fim de tarde). E, já se sabe, a presença de eletricidade no céu paralisa qualquer evento desportivo ou espetáculo nos Estados Unidos.

O adepto de futebol não precisa de puxar muito pela memória para entender o tamanho do problema. No ano passado, durante o Mundial de Clubes, realizado em solo americano, o clima virou o centro das atenções.

Protocolo foi aplicado durante jogos do Mundial de Clubes, em Charlotte
Protocolo foi aplicado durante jogos do Mundial de Clubes, em CharlottePETER ZAY / ANADOLU / ANADOLU VIA AFP

Múltiplas partidas sofreram interrupções severas devido à proximidade de raios. O caso mais emblemático foi o duelo entre Chelsea e Benfica, nos oitavos de final, na cidade de Charlotte. O jogo foi paralisado pela arbitragem durante quase duas horas por questões de segurança, quando faltavam apenas cinco minutos para o fim do tempo regulamentar.

O confronto, somando o tempo regulamentar, os descontos e o enorme hiato climático, levou impressionantes 4 horas e 38 minutos do apito inicial ao fim da partida, gerando enorme frustração em atletas e adeptos.

Nuvens ameaçadoras durante jogo do Mundial de Clubes
Nuvens ameaçadoras durante jogo do Mundial de ClubesPAUL ELLIS / AFP Foto por PAUL ELLIS / AFP

Por que razão os jogos param após raios nos Estados Unidos?

Ao contrário do que acontece no Brasil, onde a decisão de parar um jogo por causa de uma tempestade costuma ficar a critério do bom senso do árbitro, nos Estados Unidos a regra é institucional, padronizada e matemática.

A FIFA é obrigada a submeter-se às normas de segurança das autoridades locais (baseadas nas diretrizes da NOAA, a agência oceânica e atmosférica do governo americano).

Mensagem no ecrã do MetLife Stadium informa sobre necessidade de evacuação da área descoberta
Mensagem no ecrã do MetLife Stadium informa sobre necessidade de evacuação da área descobertaFRANCK FIFE / AFP

O protocolo funciona sob uma lógica rígida de proteção civil: se um único raio ou atividade elétrica for detetado por sensores meteorológicos num raio de 8 milhas (cerca de 13 quilómetros) de distância do estádio, o jogo é interrompido imediatamente.

Jogadores, equipa técnica e árbitros recolhem aos balneários. O público é orientado a deixar as bancadas e procurar abrigo nos corredores cobertos, os chamados concourses da arena.

E não adianta dar uma de desentendido. Durante o Mundial de Clubes, a Polícia chegou a ser acionada na evacuação do público, especialmente no MetLife Stadium, palco da estreia do Brasil.

Mensagem de tempestade severa durante jogo do Fluminense
Mensagem de tempestade severa durante jogo do FluminenseALEX GRIMM / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Atenção ao cronómetro

A partir do último raio detectado, inicia-se uma contagem regressiva obrigatória de 30 minutos. Se um novo raio cair dentro do perímetro de 13 km aos 29 minutos de espera, o cronómetro volta ao zero. O jogo só pode ser retomado após meia hora completa sem raios, seguido por um breve aquecimento de 5 a 10 minutos para evitar lesões nos atletas.

A distância não é um capricho. Estudos científicos do serviço de meteorologia americano comprovam que os chamados "raios flutuantes" podem viajar horizontalmente por quilómetros a partir do núcleo de uma tempestade, atingindo áreas onde nem sequer começou a chover.

Jogo só pode ser retomado caso não haja nenhum raio em um intervalo de 30 minutos
Jogo só pode ser retomado caso não haja nenhum raio em um intervalo de 30 minutosCHARLY TRIBALLEAU / AFP

Como isso pode prejudicar os jogos?

Para uma seleção que busca consolidação tática e ritmo de jogo, esse tipo de interrupção é o pior cenário possível por três motivos:

1: Quebra de ritmo e concentração

Arrefecer o corpo no balneário por uma ou duas horas no meio do jogo quebra totalmente a estratégia de intensidade e a adrenalina dos atletas.

2: Preparação física em risco

Paragens longas aumentam drasticamente o risco de lesões musculares quando os jogadores voltam a dar piques de alta velocidade no relvado molhado.

3: Logística comprometida

Um jogo que deveria durar duas horas pode facilmente invadir até mesmo a madrugada. Isso anula o cronograma de recuperação pós-jogo, alimentação, exames e os voos fretados da delegação para a cidade seguinte.

Seleção nrasileira no jogo contra o Egito
Seleção nrasileira no jogo contra o EgitoIMAGN IMAGES via Reuters/Ken Blaze

Por que é que estas tempestades acontecem?

Na Costa Este, o calor sufocante do dia evapora a humidade do Atlântico e cria nuvens carregadas que desabam quase sempre ao final da tarde — justamente no horário nobre das transmissões de TV e dos jogos.

O Brasil está no meio disso tudo porque escolheu a região como a sua base e rota inicial. Resta saber se, além de driblar os adversários em campo, a seleção brasileira estará pronta para blindar a mente contra o imprevisível relógio do clima americano.

Protocolos são seguidos em todos os desportos americanos disputados em céu aberto
Protocolos são seguidos em todos os desportos americanos disputados em céu abertoČTK / AP / Chris Szagola

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