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Ana Nogueira: "O Racing Power tem sido um dos pioneiros na procura de elevar as condições da Liga"

Ana Nogueira em destaque no Racing Power
Ana Nogueira em destaque no Racing PowerArquivo Pessoal, Flashscore

O Flash Feminino é a rubrica do Flashscore dedicada a destacar as principais protagonistas das Ligas Femininas em Portugal. Neste espaço, damos voz às jogadoras que brilham nos relvados nacionais. A nossa 44.ª convidada é Ana Nogueira, defesa do Racing Power.

Acompanhe o Racing Power no Flashscore

"Não sei se é destino ou não, mas este ano voltei a fazê-lo"

- Ana, começo inevitavelmente pelo último jogo. Fez 23 anos, marcou o único golo da partida e deu a primeira vitória da época ao Racing Power. Já teve algum aniversário melhor do que este?

Já tive um parecido. Na época passada, contra o Rio Ave. Não sei se foi exatamente no dia do meu aniversário ou na semana do meu aniversário, mas marquei o golo da vitória e dei os três pontos ao Racing Power. Não sei se é destino ou não, mas este ano voltei a fazê-lo (risos).

- Quando acordou na manhã desse jogo, pensou que podia decidir o jogo no dia do seu aniversário?

Sinceramente, não. Mas, quando cheguei ao clube, sim, porque toda a gente andava à minha volta a dizer: 'Então, um golinho para festejar o aniversário? Que tal?' E eu dizia: 'Não sei. Vou tentar, mas não prometo nada.' E assim aconteceu.

Ana Nogueira deixa rasgados elogios ao Racing Power
Ana Nogueira deixa rasgados elogios ao Racing PowerOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

- Recordando o golo, como explica esse lance? Foi uma situação de bola parada, em que aparece para desviar. É algo que trabalham durante a semana ou simplesmente surgiu naquele momento?

É algo que trabalhamos. Os cantos, os lançamentos e todas as situações de bola parada são coisas que trabalhamos nos treinos. Tínhamos trabalhado precisamente aquele tipo de canto. É uma zona em que me sinto confortável a aparecer, ao primeiro poste. Portanto, sim, foi tudo trabalhado. Nada aconteceu por acaso. Foi uma excelente bola da Joana e eu só tive de estar no sítio certo, à hora certa. Podia ter sido eu ou outra colega, mas, neste caso, fui eu. Felizmente, correu tudo bem e marquei o golo.

- É defesa, portanto, a sua principal obrigação não é propriamente marcar golos. Ainda assim, esta é a sua terceira época no Racing Power e marcou em todas elas. Tem um gosto especial por aparecer na área e decidir neste tipo de lances?

Não é o meu trabalho, mas, enquanto puder fazê-lo e da maneira que conseguir, seja num canto, num remate ou de outra forma qualquer, desde que esteja a ajudar a equipa, para mim está tudo ótimo. Pode ser um golo ou pode ser um corte em cima da linha de baliza. 

- E conquistaram os primeiros três pontos depois de uma entrada difícil no campeonato, frente ao hexacampeão nacional, o Benfica. Até que ponto era importante conseguir esta vitória? Sentiram algum alívio, sobretudo depois das muitas mudanças que o Racing Power teve esta temporada?

Claro que era importante. Tivemos um jogo dificílimo logo a abrir o campeonato. Sabíamos que seria complicado conquistar os três pontos, mas trabalhámos sempre com essa ideia, sem medo nenhum. Respeitamos todos os adversários, seja Benfica, Valadares, Marítimo ou qualquer outro. Entramos sempre para conquistar os três pontos. O primeiro jogo foi muito difícil e, felizmente, este último deu-nos algum alento e confiança para aquilo que aí vem.

Sabíamos que era fundamental conquistar estes três pontos para termos essa almofada de ar fresco. Também sabíamos, desde o início, que era possível. O Valadares é uma equipa muito boa e mostrou-o na época passada, mas era muito importante para nós conseguirmos estes três pontos. Trabalhámos muito durante a semana e, felizmente, tudo correu bem. Agora queremos mais, como é óbvio.

Ana Nogueira começou a jogar no Fiães
Ana Nogueira começou a jogar no FiãesArquivo Pessoal

"Tenho muito a agradecer ao Fiães e vou ter sempre um carinho gigante pelo clube"

- Antes de continuarmos a falar do Racing Power e do presente, queria recuar um pouco no seu percurso. É natural de Santa Maria da Feira e chega muito jovem ao futebol sénior, no Fiães. Como começou esta ligação e esta paixão pelo futebol?

Esta paixão começou desde muito cedo. Desde que me lembro que andava sempre agarrada a uma bola. Lembro-me de termos um jardim em casa e eu ter umas sete bolas espalhadas por lá. Em vez de flores, havia bolas por todo o lado (risos).

Passava praticamente todos os dias a jogar, acompanhada, sozinha ou com o meu pai. O meu pai sempre me incentivou e alimentou este bichinho pelo futebol. A minha mãe, ao início, torceu um pouco o nariz por causa da escola, das notas e dessas questões, mas o meu pai sempre me incentivou a continuar.

Passado algum tempo, a minha mãe percebeu que eu podia ser alguém no futebol, que podia fazer disto vida e, sobretudo, que era aquilo que eu queria. Agora não falha um jogo meu, não falha nada que seja meu. Entrevistas, está sempre lá. Inclusive, ligou-me logo depois deste último jogo contra o Valadares e disse-me que o aniversário tinha sido meu, mas que tinha sido eu a dar-lhe um presente, que foi o golo. Portanto, acho que, desde o primeiro dia em que pus os pés na Terra, já era futebol, futebol, futebol.

- Quando é que percebe que o futebol podia ser mais do que uma paixão e transformar-se realmente numa carreira? Quando começa, a perspetiva do futebol feminino ainda não era certamente aquela que existe atualmente.

Quando começas, é num futebol mais amador. Vais jogar sem aquela intenção de ser alguém no futebol. É sobretudo para te divertires, porque gostas daquilo e do ambiente. Acho que foi no meu primeiro ano como sénior no Fiães, a competir na Liga, que percebi: 'Eu quero fazer disto vida.' Gosto do sentimento de competir entre as melhores, gosto de estar neste ambiente de querer ganhar e de querer estar ali a competir. Acho que foi precisamente nesse ano que percebi: 'Não, calma. Eu quero isto e vou trabalhar para isto.'

- Chega muito nova ao futebol sénior. Acha que isso a obrigou a crescer mais depressa, dentro e fora do campo?

Claro, sem dúvida alguma. Estar num contexto sénior ainda sendo uma menina de 15 anos e ser colocada à prova traz imensas vantagens, tanto a nível competitivo como individual. Acho que cresci muito como jogadora e como pessoa nesse contexto sénior. É uma mais-valia quando se aposta em jogadoras de tenra idade e se colocam à prova em contextos seniores, que exigem mais delas. Essa exigência também nos faz crescer muitas vezes. Acho que cresci muito com esse contexto sénior, sem dúvida alguma.

- O que representou o Fiães na sua construção enquanto pessoa e jogadora? Foi o seu primeiro grande contexto no futebol e, normalmente, é também nestas fases que se criam amizades e se começa a olhar para o jogo de outra forma. Aos 23 anos, que significado tem para si esse período?

Foi incrível. Foi o meu primeiro balneário, a minha primeira equipa, o meu primeiro treinador e a minha primeira equipa técnica. Foi incrível! Fiz amizades que, ainda hoje, considero amizades. Obviamente, com o passar da vida vamos perdendo e ganhando pessoas, mas acho que ainda tenho muitas amizades que vieram do Fiães. Foi também o clube que me abriu as portas.

Depois, fui do Fiães para o SC Braga, que é um salto bastante grande, e foi graças ao Fiães que tive essa oportunidade. Foi, sem dúvida, o clube que me abriu as portas para hoje estar no Racing Power, ter passado pelo SC Braga e pela seleção nacional. Tenho muito a agradecer ao Fiães e vou ter sempre um carinho gigante pelo clube. Sei que já não existe a vertente de futebol feminino, mas será sempre um clube pelo qual terei um carinho especial.

- Ana, não começou a jogar como defesa, pois não?

Não, não...

- Então conte-nos essa história. Onde começou e por que razão mudou de posição?

Comecei como extremo. Acho que existe muito aquela ideia de que, quando começamos a jogar futebol, queremos fintar, marcar golos e essas coisas. Eu também tinha essa ideia de querer marcar golos e fintar. Mas, felizmente, alguém percebeu que eu tinha mais jeito cá atrás do que à frente. Sinceramente, já nem sei exatamente como aconteceu. Não sei se foi num jogo do campeonato ou num jogo de pré-época, mas fiz um jogo a central e, a partir daí, nunca mais saí dessa posição. Felizmente (risos).

Ana passou três temporadas no SC Braga
Ana passou três temporadas no SC BragaArquivo Pessoal

Do SC Braga ao Racing Power: "Três anos não são três dias"

- Em 2021, chega ao SC Braga, um projeto de uma dimensão diferente. Como surgiu essa oportunidade e que significado teve para si entrar numa estrutura dessa dimensão?

Obviamente, não estava nada à espera, porque, como disse anteriormente, é um salto gigante passar do Fiães para o SC Braga. Fiquei estupefacta. Talvez, naquela altura, ainda não tivesse tanta noção de como funcionava o mundo do futebol e, por isso, também não tive grande receio em aceitar a proposta. Mal soube da possibilidade, disse logo que sim. Queria muito ir. Na altura, penso que era o mister João Marques e ainda hoje lhe agradeço por me ter dado a oportunidade de representar um clube tão grande como o SC Braga. 

- A sua passagem pelo SC Braga durou alguns anos e não foi propriamente linear. Alternou bastante entre a equipa principal e a equipa B. Tinha apenas 18 ou 19 anos e queria naturalmente jogar. Como foi lidar com essa situação, sobretudo depois de sair da sua zona de conforto para Braga?

Foi um pouco difícil, não vou mentir. Quando somos tão novas, pelo menos naquela altura, aquilo que queremos é jogar, jogar e jogar. Não pensava propriamente na realidade do que significava representar um clube como o SC Braga nem nas jogadoras que tinha à minha volta. Lembro-me de ter a Andreia Norton e a Diana Gomes, que eram ícones do futebol português.

Ainda não tinha bem a noção desse contexto e também daquele de onde eu vinha. Claro que foi difícil porque... Mas, passado algum tempo, refleti sobre isso. Se não me engano, ainda tive algumas oportunidades com o professor João Marques, o que me fez crescer bastante. Estar num contexto como o SC Braga com aquela idade fez-me crescer muito.

As colegas que tinha, como a Dolores e a Norton, que já referi, também me fizeram crescer muito. Exigiam bastante de mim, mesmo tendo apenas 18 ou 19 anos. Acho que foi precisamente essa exigência que me fez crescer bastante como jogadora e ser, pelo menos, um terço da jogadora que sou hoje.

Racing Power ocupa a 6.ª posição
Racing Power ocupa a 6.ª posiçãoFlashscore

- Em 2024, muda-se o capítulo e troca o SC Braga pelo Racing Power, deixando o Norte para rumar a Sul. Na apresentação disse que era um projeto ambicioso e que se sentia preparada para essa responsabilidade. Era aquilo que procurava naquela fase da carreira?

Depois de passar três anos no SC Braga, três anos em que aprendi muito e pelos quais sou muito grata ao clube por me ter dado a oportunidade de crescer como atleta, senti que estava na altura de aceitar um novo projeto e de jogar mais. Já tinha 20 ou 21 anos e sentia que era a altura perfeita para embarcar numa nova experiência e, neste caso, vir para Lisboa.

Custou um bocadinho, porque três anos não são três dias... Já estava habituada às pessoas, à equipa técnica e tinha bastantes amizades. Mas, por vezes, temos de fazer sacrifícios na vida. Aceitei logo o projeto do Racing Power porque, na época anterior, se não me engano, a equipa tinha terminado em terceiro lugar. Era aquilo que procurava: poder jogar e fazer parte de uma equipa competitiva. Portanto, quando recebi a proposta, foi logo um sim. Um sim forte e positivo. Vim com o intuito de jogar e de continuar a ter competitividade.

- O que mudou mais na Ana desde que chegou ao Racing Power?

Muita coisa. Enquanto jogadora, mudou muita coisa, mas acho que, a nível pessoal, mudou ainda mais. São contextos diferentes. A competitividade pode ser parecida, mas são contextos muito diferentes. No SC Braga, era uma Ana mais resguardada, porque também não jogava tanto e talvez tivesse algum receio de assumir responsabilidades na defesa. No Racing Power, tive de me abrir ao máximo, assumir responsabilidades na defesa, crescer enquanto atleta e abrir-me mais perante a equipa. 

- É sempre difícil falarmos sobre nós próprios, mas qual considera ser hoje a sua principal qualidade enquanto defesa?

Acho que uma característica que evidencio desde que comecei a jogar até hoje é a liderança, sobretudo a nível vocal. Pegando também na questão anterior, acho que uma das coisas que mudou desde o SC Braga até aqui foi precisamente essa. Senti-me mais à vontade para ser mais vocal dentro de campo.

Enquanto defesa-central, vemos o jogo de frente e passamos 90 ou 95 minutos a falar. Estamos preocupadas com o nosso trabalho, obviamente, mas ser vocal perante a equipa é uma das nossas principais funções. Com o tempo, fui aprendendo isso e percebendo a importância de falar e de dar feedback ao meio-campo, às avançadas, a toda a equipa.

Foi uma característica que fui melhorando muito, também através da minha leitura do jogo. Hoje entendo melhor o jogo do que há dois anos ou até há um ano, e isso permite-me ser mais vocal com a minha equipa. Acho que essas foram, sem dúvida, as minhas maiores evoluções.

Ana Nogueira marcou golo que valeu a vitória ao Racing Power sobre o Valadares Gaia
Ana Nogueira marcou golo que valeu a vitória ao Racing Power sobre o Valadares GaiaArquivo Pessoal

"Racing Power tem um projeto que acredita no futebol feminino"

- O Racing Power é um projeto bastante particular. É um clube exclusivamente dedicado ao futebol feminino, criado há relativamente pouco tempo e que subiu rapidamente da terceira à primeira divisão. Para quem não conhece tão bem o projeto, como o apresenta? E como tem sido acompanhar por dentro este crescimento e a afirmação do clube na primeira divisão?

Já estou aqui há três anos e posso afirmar, com 100% de certeza, que o Racing Power de há três anos não é o mesmo de agora, no bom sentido. Temos crescido bastante enquanto instituição e acho que o Racing Power tem sido um dos pioneiros na procura de elevar as condições da Liga. Sem dúvida que é um projeto que acredita no futebol feminino e a prova está aí. Temos formação, mas tudo assente no feminino.

É um clube que se formou há seis anos, portanto ainda temos muito por onde crescer. Talvez ainda não tenhamos todas as condições que gostaríamos de ter, mas tenho a certeza de que todos os clubes procuram melhorar ano após ano e nós somos um deles. O Racing Power procura claramente melhorar todos os anos.

- Era precisamente isso que lhe ia perguntar: até onde pode chegar este projeto?

Acredito que este projeto tem muita margem de crescimento e, com apenas seis anos, é fácil perceber isso. Podemos olhar para trás e ver o quanto o Racing Power cresceu ao longo dos anos. A passagem da terceira para a primeira divisão foi muito rápida. Depois, estabelecemo-nos na primeira divisão, tivemos bons resultados, um terceiro lugar e, posteriormente, ficámos pelo quinto ou sexto lugar, a meio da tabela.  E quem trabalha diariamente no clube sabe que existe margem suficiente para, talvez um dia, conseguirmos voltar aos lugares de cima e juntarmo-nos ali a Benfica e Sporting. 

- O Racing Power tem sido também um clube bastante internacional, com uma aposta forte em jogadoras estrangeiras e na sua valorização. Esta época, o plantel reúne 11 nacionalidades. Como funciona toda esta diversidade? O que acrescenta ao balneário e como tem sido este processo inicial de adaptação?

Existe muita diversidade linguística. Às vezes, acho que até se ouve mais inglês do que português (risos). Mas é incrível termos este contacto com outras culturas, porque nós aprendemos com elas e elas aprendem connosco. Vieram de um futebol diferente, de um tipo de jogo diferente, e nós podemos retirar coisas delas, tal como elas podem retirar do nosso futebol.

É verdade que é necessário um processo de adaptação por várias razões, seja pela língua, pelas diferentes culturas ou por outros fatores. Mas acho que esse processo é muito mais rápido quando o plantel ajuda e acolhe as jogadoras de uma forma positiva. E acho que foi isso que aconteceu connosco.

- Apesar da sua tenra idade, já conhece bem a Liga. Temos mais um projeto que chega com força, o FC Porto, que, tal como o Racing Power, subiu rapidamente da terceira à primeira divisão. Temos também equipas portuguesas a competir na Europa, como Torreense, Benfica e Sporting. É uma Liga com apenas 10 equipas, mas sente que o futebol feminino português está a evoluir? 

Acho que quem acompanha o futebol feminino sabe que, há alguns anos, seria impensável termos um Torreense a lutar na Europa, ou um Benfica na Liga dos Campeões a vencer a Juventus. Acho que isso mostra a evolução que a Liga tem tido. Portugal é pequenino, mas nós somos bravos e conseguimos fazer as coisas. O futebol feminino tem crescido muito, mesmo muito, e ainda tem uma grande margem para crescer.

O Torreense ganhou 1-2 na Europa e tem feito uma campanha muito boa. O Benfica venceu por 2-1 em casa da Juventus, em Turim. Portanto, temos qualidade para mostrar lá fora e espero que, daqui a dois ou três anos, tenhamos mais oportunidades de ver mais equipas portuguesas nas competições europeias, como um Valadares ou um Racing Power. A verdade é que temos qualidade e estamos a prová-lo. 

- Perante esta competitividade e a qualidade dos adversários, qual é a ambição realista do Racing Power para esta temporada?

Claro que queremos limpar a imagem do ano passado e fazer melhor do que na época passada. Mas diria que este ano, as expectativas passam por ir jogo a jogo, trabalhar jogo a jogo e enfrentar cada partida com todo o respeito por todos os adversários. Seja Benfica, Marítimo, Valadares ou qualquer outra equipa, vamos respeitar todos os adversários e procurar conquistar os três pontos. É isso. Queremos fazer o melhor possível.

Ana Nogueira é internacional sub-23
Ana Nogueira é internacional sub-23Arquivo Pessoal

"Representar Portugal é uma das sensações mais bonitas que uma jogadora pode ter"

- Voltando ao seu percurso mais individual, já representou várias vezes as seleções jovens, nomeadamente a seleção Sub-23. O que significa para si vestir a camisola de Portugal e estar entre as escolhas das equipas nacionais?

Representar Portugal é, sem dúvida, uma das sensações mais bonitas que uma jogadora pode ter. Representar o nosso país é uma motivação acrescida, porque estamos a representar a nossa gente, a nossa família, os nossos pais e os nossos amigos. É um sentimento que não tem explicação. É orgulho, é paixão, é tudo de bom. Acho que todas nós temos o sonho de representar a seleção nacional A e é para isso que trabalhamos diariamente, com o intuito de um dia alcançarmos esse patamar tão alto, mas que é possível alcançar.

- A seleção A é um objetivo assumido para si? 

Quando escolhemos este caminho profissional, acho que temos sempre de ter uma ambição acrescida. A minha ambição é, obviamente, chegar à seleção nacional. Só me resta trabalhar. Sei que é difícil, porque temos muita qualidade na seleção nacional, tanto na minha posição como em todas as outras. É difícil, mas sei que, com trabalho e dedicação a este mundo que é o futebol, é possível. Requer muito esforço e muito trabalho, mas é possível.

- Olhando para as defesas-centrais portuguesas que costumam ser chamadas à seleção, como vê a concorrência e a qualidade que existe na posição? Há nomes já muito consolidados. Ainda assim, sente que existe espaço para sonhar com uma oportunidade a curto ou médio prazo?

Acho que sim. É verdade que temos nomes bastante consolidados na seleção nacional, como Diana Gomes e Carole Costa. Já estão lá há muito tempo e têm, obviamente, uma qualidade inegável. Mas também tivemos o exemplo da Daniela (Areia Santos), que, com a minha idade, conseguiu chegar lá e ter o seu espaço em um ou dois estágios.

Ana Nogueira sonha com a seleção principal
Ana Nogueira sonha com a seleção principalOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

Lembro-me também da (Carolina) Correia, que tem a minha idade ou talvez seja um ano mais velha, também conseguiu o seu espaço na seleção nacional. Acho que são esses pequenos exemplos a que nos temos de agarrar para perceber que é possível chegar lá. 

- Esteve três anos no Fiães, três anos no SC Braga e esta é a sua terceira época no Racing Power. Não quero mandar a Ana já embora do Racing, mas, olhando para o futuro, que ambições ainda tem? Gostava, por exemplo, de ter uma experiência no estrangeiro ou imagina-se a fazer toda a carreira em Portugal?

Claro que, com todo o respeito pelo Racing Power, é algo que quero vivenciar: ter uma experiência fora de Portugal. Acho que se aprende muito e se cresce muito. Temos o exemplo da Tatiana Pinto, que agora está na Juventus, em Itália. A evolução que teve é fenomenal. Acho que muitas jogadoras têm de passar por esse tipo de experiências para conseguirem dar passos em frente na carreira. É algo que também quero fazer. Quero ser alguém no futebol e, por isso, tenho de me aventurar noutros campeonatos, tenho de sofrer noutros campeonatos e passar por diferentes experiências para desenvolver a jogadora que serei daqui a quatro, cinco ou seis anos. Acho que isso é muito importante para uma jogadora.

Quem sabe, estar quatro ou cinco anos lá fora e depois regressar a Portugal, como fizeram muitas jogadoras. Temos o exemplo da Diana (Gomes), que foi para Espanha, para o Sevilha, e regressou a Portugal. A Ana Dias também teve experiências na Rússia e no México e voltou a Portugal. Portanto, sim, obviamente que quero sair, ter uma experiência no estrangeiro e crescer como atleta. Acho que só assim serei capaz de atingir o meu patamar e de vivenciar outras experiências.

Ana Nogueira cumpre 3.ª temporada no Racing Power
Ana Nogueira cumpre 3.ª temporada no Racing PowerArquivo Pessoal

"Sou a pessoa que sou hoje por causa do futebol"

- No dia em que decidir terminar a carreira, e esperamos que ainda faltem muitos anos, o que gostaria que dissessem sobre si? Se alguém perguntasse 'quem foi a Ana Nogueira?', o que gostaria de ouvir como resposta?

Acho que me daria imensa satisfação que as pessoas olhassem para mim e dissessem: 'Aquela jogadora deu tudo e viveu tudo aquilo que tinha para viver.' O único objetivo que tenho para quando terminar a carreira é poder parar, pensar e dizer: 'Eu vivi tudo o que tinha para viver, experienciei tudo aquilo que queria experienciar, cresci imenso, dei tudo pelo futebol e o futebol deu-me muito.'

Acho que é apenas isso que procuro para quando esse momento chegar, e espero que ainda falte muito tempo.Quero ter a consciência tranquila e poder dizer: 'Eu dei tudo e o futebol deu-me muito.' É só isso.

Os próximos jogos do Racing Power
Os próximos jogos do Racing PowerFlashscore

- Se o futebol fosse uma pessoa e o encontrasse na rua, o que lhe diria? Certamente já lhe deu dias bons, dias maus e outros assim-assim, mas, no fundo, o que gostaria de lhe dizer?

Acho que lhe diria um grande obrigada. O futebol moldou-me enquanto pessoa. Graças a Deus, sou a pessoa que sou hoje por causa do futebol. Houve dias maus, dias medianos e dias muito bons. Acho que todas essas experiências me fizeram crescer imenso como pessoa. Os dias maus transformaram-se em lições e os dias bons também trouxeram aprendizagens.

A única palavra que lhe diria seria 'obrigada', porque sou hoje a pessoa que sou, com os meus defeitos e qualidades, graças ao futebol. Sei enfrentar muitas coisas na vida também por causa do futebol, porque me ajudou a ser resiliente. Muitas vezes, o futebol ensina-nos a ser resilientes. Passamos por situações complicadas, mas conseguimos sempre dar a volta. E acho que isso fica como uma lição para o futebol, mas também para a vida e para tudo aquilo que vem depois.

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