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Maria Baleia: "O Vitória SC é muito daquilo que eu sou na vida e no futebol"

Maria Baleia parte para a segunda temporada no Vitória SC
Maria Baleia parte para a segunda temporada no Vitória SCVitória SC, Flashscore

O Flash Feminino é a rubrica do Flashscore dedicada a destacar as principais protagonistas das Ligas Femininas em Portugal. Neste espaço, damos voz às jogadoras que brilham nos relvados nacionais. A nossa 43.ª convidada é Maria Baleia, avançada do Vitória SC.

Acompanhe o Vitória SC no Flashscore

Os primeiros anos no futebol: "Era pura diversão, pura felicidade..."

- Maria, quais são as suas primeiras memórias em relação ao futebol? 

Ser muito magrinha, ter umas canelas maiores do que as pernas e estar sempre no meio dos rapazes. Essa é a minha primeira memória.

- E quando é que percebe que o futebol poderia ser algo mais do que um simples passatempo?

Muito tarde. Já estava na faculdade quando comecei a ter a ideia de que, se calhar, podia usar o futebol como meio de rendimento e que podia ser algo em que me focasse mesmo.

- Até lá foi jogando, inclusive com a oportunidade de ganhar títulos, mas ainda noutros tempos do futebol feminino. Como foi esse processo até amadurecer essa ideia?

Ainda hoje estava a falar com o mister Marco e ele até me disse, a brincar: 'Tu deves ser das jogadoras no ativo que está há mais anos a jogar na primeira divisão.' E eu respondi: 'Olhe, possivelmente.' Comecei muito cedo e sempre joguei futebol. Tive apenas uma época parada, porque senti que, a nível mental, não estava bem para jogar futebol. Se nem aquilo de que mais gosto me dava vontade de estar ali, acho que também temos de saber parar e refletir sobre as decisões que temos de tomar.

Quando voltei, entrei na faculdade e, a partir daí, foi sempre um crescendo. No meu último ano de faculdade, recebi a proposta do Länk e, naquele momento, a minha vida parou. Pensei: 'Uau, vou estar só a jogar futebol. Como é possível estar apenas a jogar futebol? Isto é sequer viável?' Acho que era uma questão que muitas de nós fazíamos naquela altura: como é que vamos estar apenas a fazer isto e ter rendimentos que nos permitam ter uma vida estável e normal?

Maria Baleia mostra-se feliz com o presente no Vitória SC
Maria Baleia mostra-se feliz com o presente no Vitória SCOpta by Stats Perform, Vitória SC

- No seu círculo, e estamos a falar de há cerca de 15 anos, como era ser rapariga e jogar futebol? 

Para mim, sempre foi muito tranquilo. Em todas as equipas em que joguei com rapazes fui sempre muito bem recebida, até porque muitos deles já eram meus amigos na escola e havia essa ligação. Depois, sempre fui uma pessoa com uma postura muito certa nos jogos e nos treinos. Como também era capitã deles, nunca me disseram: 'Não estás aqui a fazer nada', nem faziam esse tipo de comentários. Esses comentários vinham mais de fora, nomeadamente dos pais, do que propriamente dos rapazes que jogavam comigo.

- Começa no Malveira da Serra?

O meu primeiro clube, ainda muito pequenina, foi o Soccer Cascais. Joguei lá até aos infantis, penso eu. Depois fui para o Malveira da Serra.

- E de que forma esses primeiros clubes foram importantes para definir aquilo que é hoje, não só como futebolista, mas também como pessoa? O que ainda guarda desses tempos?

Aquilo que guardo mais é mesmo a felicidade que tinha a jogar futebol. É indescritível essa felicidade comparada com aquilo que se sente agora. Sou feliz, obviamente, mas aquilo era uma felicidade pura, porque não existia a questão do alto rendimento, de ter de render ou de corresponder às expectativas que eu própria e o clube colocam sobre a jogadora.

Tinha as minhas responsabilidades, mas, acima de tudo, era muito feliz a jogar. Estava com amigos e divertia-me. Obviamente, quando se perdia, a derrota tinha sempre o seu peso, embora não fosse igual ao que tem neste momento. Foram dos melhores anos que tive a jogar futebol. Era pura diversão, pura felicidade.

- Acaba por passar pelo 1.º Dezembro, CAC, Atlético Ouriense, Futebol Benfica, A-dos-Francos, Länk e Valadares antes de chegar ao Vitória SC. Olhando para trás, como é que vê esse percurso? Certamente com altos e baixos, momentos de maior certeza e outros de maior incerteza.

Sinto que foi sempre um crescimento. Acho que, com a idade, também vem mais responsabilidade. No A-dos-Francos e no Ouriense, por exemplo, tinha sempre de conciliar o futebol com a faculdade e tinha outro tipo de responsabilidades. A partir do momento em que dou o primeiro passo para ficar exclusivamente a jogar futebol, acho que a pressão aumenta, porque já não tenho desculpa para o cansaço, para não render ou para o que quer que seja. A minha atenção passa a estar única e exclusivamente virada para o futebol.

Quando vou para o Valadares, já mais habituada a esse contexto profissional e a olhar apenas para o futebol, sinto que foram dois anos muito importantes para mim. Cresci como atleta, principalmente. O clube e a equipa técnica deram-me coisas que eu não sabia que me faltavam. Percebi que ainda tinha margem de progressão e isso fez com que, quando fui para o Vitória SC, estivesse consciente de que ainda podia evoluir.

Isso faz com que queira ter mais rendimento, que vá para o campo e queira absorver tudo aquilo que me estão a dar, porque sei que ainda consigo evoluir. Acho que, no momento em que sentir que já não consigo evoluir, o meu pensamento no jogo vai ser diferente. Acho que me vou retrair mais e vou ser apenas aquilo.

Maria Baleia conta com uma larga carreira na Liga
Maria Baleia conta com uma larga carreira na LigaMomento Certo Fotografia, Arquivo Pessoal

- Ainda antes de irmos ao Vitória SC, gostava de recordar a primeira vez que foi campeã nacional, creio que com 14 ou 15 anos. Na altura, jogava com nomes como Sílvia Brunheira, Carla Couto, Carolina Mendes, Filipa Patão, Mariana Cabral, Raquel Infante e Paula Cristina. Que memórias guarda dessa fase?

Tinha zero ideia do futebol feminino. Fui porque já não me deixavam jogar mais com rapazes e tive a sorte de ter o 1.º Dezembro perto de casa.  Aliás, se não tivesse um clube tão perto, provavelmente teria deixado de jogar. Acho que isso é importante para refletirmos e percebermos que, neste momento, há muito mais oferta. Há muito mais meninas a jogar porque há mais oferta para que possam continuar a jogar.

Acho que esses anos no 1.º de Dezembro, ainda tão miúda, se resumem à descoberta e a ter de lidar com pessoas muito mais velhas do que eu. Tive confiança por parte do professor Nuno Cristóvão, que sempre me transmitiu essa confiança, mas acho que o meu pior inimigo sempre fui eu própria, por não acreditar que podia estar ali. Acho que esse foi o meu maior problema quando era adolescente.

Tenho algumas coisas de que me lembro facilmente. Na primeira vez que joguei pelo 1.º de Dezembro, entrei para ponta de lança ao lado da Carla Couto. Eu estava só a olhar para ela e a pensar: 'Isto está mesmo a acontecer, não é?' Lembro-me também de um treino em que a Mariana Cabral estava a jogar contra mim. Eu estava a extremo, fui a correr, ela fez-me uma rasteira, caí e ela só me disse: 'Para a próxima, traz as caneleiras' E eu pensei: 'Certo, sem problema algum.'

Depois, é engraçado ver que jogadoras como a Mariana e a Patão fizeram parte do meu início no futebol feminino. Ainda apanhei a Patão no Futebol Benfica e, depois, quando ela começou a ser treinadora do Benfica, pensei: 'Fogo, já passou assim tanto tempo? Será que o meu fim está próximo também?'

Temos, se não me engano, oito anos de diferença, que ainda é bastante. Mas, naquela altura, como jogávamos juntas, vê-la tornar-se treinadora fez-me pensar: 'Ui, isto já está quase a acabar'. Mas não. Afinal, ainda não estava.

- E, nessa altura, qual era a sua perspetiva de futuro? Como imaginava a evolução do futebol feminino?

Não imaginava. Sinceramente, não tinha essa perspetiva. Para mim era aquela vida que toda a gente nos apresenta quando somos miúdos: escola, faculdade, trabalho e família. Ainda me lembro de ir de mota, pelo meio da serra, na minha motinha. A Madalena Marau também ia comigo. Era aquilo: no final do dia, íamos de mota para o treino e depois regressávamos a casa. Nunca perspetivei que, aos 30 anos, isto fosse ser a minha vida.

Maria Baleia não esconde o carinho pelo Vitória SC
Maria Baleia não esconde o carinho pelo Vitória SCVitória SC

"Ser do Vitória SC é ser completamente apaixonada pelo futebol"

- Chegando ao Vitória SC, como surgiu esta oportunidade de representar o clube e o que pesou na decisão de mudar para Guimarães?

O Vitória SC apareceu num momento um pouco incerto, porque eu tinha assinado pelo Famalicão e houve toda aquela história em que se falou se estaria na primeira ou na segunda divisão. Houve esse impasse. Nesse momento, fui sempre sincera e disse que ainda não estava preparada para ir para a segunda divisão. Sentia que tinha capacidade e potencial para continuar no mais alto nível do futebol em Portugal. Foi tudo muito rápido. Falaram comigo e tive de refletir, porque tenho um problema enquanto pessoa: ligo muito às pessoas. E liguei-me muito às pessoas do Famalicão.

Sentir que estava a sair num momento de dificuldade fez-me sentir quase como se as estivesse a deixar na mão. Aí tive de pensar única e exclusivamente como atleta. E o melhor para mim era ir para Guimarães. Nem fiz a pré-época com a equipa, porque a tinha feito com o Famalicão. Ia chegar a um contexto em que não sabia como jogavam nem quais eram as ideias que já estavam implementadas, porque elas tinham feito toda a pré-época juntas. Mas decidi arriscar e, quando cheguei, fui muito bem recebida. Senti que me queriam cá e acho que isso é muito importante.

Ao longo da época fui sentindo sempre isso e também fui retribuindo através da minha maneira de jogar e de lidar com todas as pessoas do clube, não apenas com o meu staff, mas com toda a envolvência. Passamos por muitas pessoas durante a manhã e acho que é sempre importante termos essa ligação e sermos educados, ao ponto de toda a gente saber que estamos ali e que vemos que essas pessoas também estão ali a trabalhar.

- Quando chega a Guimarães, percebe rapidamente a forma especial e diferente como o Vitória SC é vivido e a ligação que existe entre a cidade e o clube?

É algo que nunca vi noutro clube. Já fui ver jogos a outros estádios, mas aqui a maneira como se vive o futebol é crua. É paixão, é amor ao clube, e a própria cidade envolve-nos muito. Tudo se passa à volta do Vitória. É incrível. E o hino é de arrepiar. É uma coisa que não sei explicar. Só apelo às pessoas para que venham, mesmo que não sejam do Vitória, e ouçam toda a gente a cantar o hino. Esse é um dos momentos que vou levar para a minha vida.

Maria Baleia criou uma forte relação ao Vitória SC
Maria Baleia criou uma forte relação ao Vitória SCVitória SC, Arquivo Pessoal

- Na sua renovação disseste: 'É preciso aprender o que significa ser do Vitória.' Afinal, o que é ser do Vitória?

Ser do Vitória SC é ser completamente apaixonada pelo futebol. É sentir a relva. Mesmo que as coisas não corram bem, mesmo que não estejam no caminho que idealizámos desde o início, é não desistir e não sair desse caminho. É pensar: 'Tenho de fazer isto para o Vitória estar bem.' E falo mesmo enquanto jogadora. Acho que todas as jogadoras têm altos e baixos durante uma época. Mas o facto de representarmos o Vitória e de, sempre que entramos em campo, defendermos o Vitória é saber que, do lado de fora, estão pessoas que acreditam em nós e que querem o mesmo que nós ou, às vezes, até mais do que nós. Acho que isso é ser do Vitória.

- O projeto do futebol feminino do Vitória SC ainda é relativamente recente e está a dar os primeiros passos na primeira divisão. Sente a responsabilidade de estar a construir uma história que outras jogadoras vão continuar a escrever daqui a muitos anos?

Sinto que o Vitória tem tudo para ser um clube de primeira divisão durante muitos, muitos anos. Temos estrutura, condições, infraestruturas e, mais uma vez, o apoio da cidade, que é muito importante. Acho que estes primeiros anos, para além de serem anos em que temos de ir de pezinhos de lã, servem para perceber o que está a acontecer à nossa volta, perceber onde estamos e, especialmente, perceber para onde queremos ir.

Estar no início deste projeto, no início da história do Vitória, é muito importante para mim porque sei que, daqui a cinco ou seis anos, quando pendurar as minhas botinhas, vou lembrar-me disto. E aí vou estar a ver o Vitória onde sempre quis que ele estivesse. Acho que isso é importante.

- Que balanço faz da primeira época na Liga, tanto a nível coletivo como individual? Coletivamente, conseguiram a manutenção, que era o objetivo. E individualmente, como foi para si?

Acho que, coletivamente, superámos muito as expectativas de quem estava a olhar para nós. Fomos uma equipa que nem sempre foi muito consistente, mas, nos momentos-chave, conseguimos ir roubando pontos. Principalmente a jogar em casa, sentimos sempre um apoio muito importante dos nossos adeptos.

O facto de termos chegado à meia-final da Taça de Portugal também foi muito importante para nós. A maneira como a perdemos foi difícil, muito difícil. Mas acho que foi uma primeira época muito boa para aquilo que as pessoas podiam perspetivar.

Em termos individuais, foi uma época em que me senti como já não me sentia há algum tempo. Senti-me confiante, senti-me amparada e senti que confiavam muito naquilo que eu podia dar ao grupo. Portanto, para mim, acho que foi uma época muito positiva.

Maria Baleia prolongou ligação ao Vitória SC até 2028
Maria Baleia prolongou ligação ao Vitória SC até 2028Vitória SC

"Queremos dignificar o Vitória SC na primeira divisão"

- Renovou até 2028, por mais duas épocas. Que significado teve para si esse voto de confiança do clube? E como encara também a nova responsabilidade de ser uma das capitãs da equipa?

Para mim, foi muito importante receber este voto de confiança. Acho que qualquer pessoa, seja no trabalho ou na vida, quando sente que reconhecem a pessoa que é e aquilo que pode dar, e é recompensada por isso, sente um grande alívio e conforto.

Foi isso que senti. Foi um agradecimento pelo trabalho que fiz durante a época e o reconhecimento de que fui importante para o processo. Fiquei muito feliz com essa renovação. O facto de, esta época, ter também a responsabilidade de ser uma das capitãs foi um momento muito importante para mim, porque nunca achei que pudesse ter esse papel.

Acho que me dá muita responsabilidade porque descreve completamente a personalidade que sou. O Vitória é muito daquilo que eu sou na vida e no futebol, daquilo que tenho mostrado cada vez mais que quero ser. Esse voto de confiança foi recebido de braços abertos e com muito orgulho.

- Está aí à porta o início oficial da nova época e começam com um jogo diante do Sporting, um teste duro. O que podemos esperar deste novo Vitória SC já para esse primeiro encontro frente a um adversário tão forte?

Acho que, se olharmos para a Liga toda, muitos clubes tiveram várias mudanças este ano. E nós fomos também um desses clubes. Antes de me focar muito na primeira jornada, acho que vai ser um campeonato, principalmente na fase inicial, muito escondido, com as equipas a tentarem perceber como vão jogar e como é que as outras equipas estão a jogar, porque houve muitas mudanças em muitos plantéis. A pré-época foi muito importante, porque recebemos muitas jogadoras novas, o treinador é novo e as ideias são novas.

Mas sinto que a equipa está alinhada com o treinador, que os nossos modos de estar no jogo estão bem definidos e acho que vai ser um bom jogo para a primeira jornada, um bom embate. Visto que, no ano passado, tivemos dois empates contra o Sporting, acho que vai ser muito bom.

- E o que seria uma boa temporada para a Maria Baleia e para o Vitória SC?

Garantir o mais rapidamente possível a manutenção e conseguir fazer melhor do que no ano passado. Acho que podemos ser ambiciosos a esse ponto. Depois, as taças são um pouco um jogo de sorte. Às vezes calhamos com adversários mais acessíveis no início, outras vezes com adversários mais difíceis, mas o nosso objetivo nas taças será sempre chegar o mais longe possível em cada eliminatória.

- Sendo uma das jogadoras mais experientes do plantel, que responsabilidade sente também em transmitir às novas jogadoras aquilo que significa representar o Vitória SC? Como está o balneário?

Acho que o balneário está muito bom. São muitas pessoas novas, sim, mas acho que nós, que ficámos, conseguimos abrir os braços e receber toda a gente da mesma forma. Tentamos fazê-las perceber, aos poucos, o que é ser Vitória e, de jogo para jogo, ir incutindo cada vez mais essa maneira de estar no clube e no jogo.

Acho que elas têm recebido isso muito bem. Obviamente, temos muitas estrangeiras e, às vezes, é mais difícil transmitir esse tipo de sentimento a pessoas que não falam a nossa língua, porque há coisas que sentimos e queremos mostrar que não têm uma tradução à letra. Mas, aos poucos, temos passado muito tempo juntas e vamos fazendo algumas atividades. Acho que isso também é muito importante para o grupo estar mais coeso e para nos conhecermos melhor.

Passamos algum tempo juntas antes do treino, a ouvir música e a conversar. Acho que o ambiente está muito bom e isso vai ser um bom indicador para a maneira como vamos enfrentar o primeiro jogo.

- Que mensagem gostaria de deixar aos adeptos do Vitória SC para os cativar ainda mais para o projeto do futebol feminino?

Primeiramente, quero agradecer o apoio que nos deram na época passada, porque foi mesmo muito importante. Tínhamos sempre pessoas na Academia, sempre público a ver e a interagir com o jogo, como se estivéssemos num estádio como o do Vitória. Quero apelar a que continuem a vir ver os nossos jogos. Vamos fazer sempre o nosso melhor, especialmente para dignificar o Vitória na primeira divisão, porque é isso que mais queremos.

Acho que o facto de estarmos comprometidas com o clube vai ajudar-nos a ter melhores resultados. É uma coisa que posso garantir: nós, atletas, estamos mesmo convictas do trabalho que estamos a fazer e temos uma grande ligação ao clube. Só quero que os adeptos venham e vejam com os próprios olhos a maneira como estamos a jogar e como estamos a dignificar o Vitória na primeira divisão.

Maria Baleia no treino do Vitória SC
Maria Baleia no treino do Vitória SCVitória SC

"O caso da Diana Silva veio abrir portas para outras pessoas"

- Gostava de recuar até 2010 e olhar para a evolução da Liga até aos dias de hoje. A entrada de clubes com forte representatividade no futebol masculino foi um marco importante, primeiro com Sporting e SC Braga e, entretanto, também com Vitória SC e FC Porto. Sendo uma das jogadoras mais experientes da Liga, como viu este crescimento ao longo dos anos?

Houve uma evolução gritante desde 2010 até agora. Acho que, principalmente, o facto de termos clubes com grande representação no futebol masculino a começarem a chegar à primeira divisão faz diferença, porque esses clubes são capazes de proporcionar condições em termos de estruturas e salários.

Isso também faz aumentar a forma como nós, atletas, encaramos o jogo. Temos de encará-lo de maneira muito profissional e dedicar-nos a isto a 100%. O facto de o fazermos faz com que os clubes reconheçam essa dedicação e também queiram, obviamente, investir no futebol feminino.

Acho que ainda há muito por evoluir em Portugal, obviamente. Mas não foi apenas em termos estruturais que evoluímos. O próprio futebol praticado evoluiu, também porque o futebol praticado pelos homens evoluiu.

A maneira como as equipas masculinas jogam agora não é igual à forma como jogavam em 2010. É completamente diferente. Vemos modelos de jogo diferentes, táticas diferentes e pormenores aos quais antes não se ligava e aos quais agora se dá muita importância. Acho que nós, mulheres, ao vermos essa evolução, também retiramos isso para nós, porque, no fundo, o futebol é igual. São 22 pessoas, duas balizas e uma bola.

É à volta que tem de haver mais evolução: as estruturas, o financiamento, a maneira como abordam as mulheres e a forma como a mulher é exposta a determinadas coisas no futebol. É aí que ainda temos de evoluir mais. Porque, em termos de futebol, é igual. E isso consegue-se passar também para o futebol praticado por mulheres.

- Mais do que imaginar, o que espera que seja o futebol feminino daqui a 10 anos? Já evoluiu muito, mas continuam a existir algumas dificuldades. Como gostaria que estivesse o futebol feminino em Portugal em 2036?

Espero que todos os clubes, não apenas da primeira divisão, mas também da segunda, terceira e quarta divisões, invistam e tratem as coisas com seriedade. Obviamente, os requisitos estruturais serão sempre graduais. A primeira divisão terá sempre mais condições, mas é importante que as estruturas invistam e levem isto a sério, porque este é o nosso trabalho. Dedicamos muitas horas ao futebol e abdicamos de muita coisa para jogar futebol. Especialmente os direitos das mulheres têm de estar assentes naquilo que é um direito ou não. Não somos mais nem menos, somos seres humanos com os mesmos direitos. Só isso.

Acho que este caso da Diana (Silva) veio abrir portas para outras pessoas. É fundamental que as pessoas percebam que temos de bater palmas, sim, mas isto tem de ser o normal. Nós também queremos ter a nossa vida. Eu quero ser mãe e não quero deixar o futebol porque quero ser mãe. Acho que ainda há muito medo. Há o receio de pensar: 'Se engravidar agora, o que é que me vai acontecer?'

Acho que todas as pessoas têm de olhar para aquilo que aconteceu agora com a Diana. As estruturas e os clubes têm de se sentar e refletir: 'Isto é uma coisa que tem de ser normal.' E tem de estar tudo esclarecido para que as pessoas não tenham medo daquilo que podem fazer. Acho que isso é muito importante.

Maria Baleia projetou nova temporada
Maria Baleia projetou nova temporadaVitória SC

"Sinto orgulho, principalmente, na pessoa que sou"

- Aos 30 anos, pensa mais no futuro do que quando tinhas 20 ou continua a viver época a época, ano a ano? Como amadureceu mentalmente essa relação entre o futebol e a passagem do tempo?

Acho que agora vivo como se ainda tivesse 25 anos. Portanto, ainda vejo um futuro longínquo no futebol. Enquanto me sentir capaz e enquanto tiver o meu espaço, vou querer jogar. Acho que isso é fundamental. Mas penso um pouco mais no futuro agora do que quando era mais jovem.

- Sente orgulho naquilo que construiu?

Sinto. Sinto orgulho, principalmente, na pessoa que sou.

- O que é que o futebol lhe deu?

O futebol deu-me muitas pessoas e deu-me também muita capacidade para perceber que, às vezes, temos de deixar ir. Estamos sempre a mudar de sítio e, às vezes, temos de deixar ir. Tal como temos de deixar ir as más fases ou quando as coisas não estão a correr bem. Não posso pensar: 'Falhei aqui e agora vou ficar aqui a bater, a bater...' Não. É deixar ir. Acho que isso foi muito importante.

- E o que lhe tirou?

Por vezes, tira-me anos de vida. (risos) Mas acho que o futebol não me tirou muita coisa. Felizmente, não me tirou. Tirou-me tempo, às vezes. Experiências, às vezes. Mas acho que sempre fiz muito aquilo que queria. Acho que agora, mais velha, faço menos aquilo que quero. Quando era mais nova, fazia muito aquilo que queria.

Os próximos jogos do Vitória SC
Os próximos jogos do Vitória SCFlashscore

- A Maria é de Cascais, mas já está no Norte há algum tempo. O que é que já existe de Norte e de Sul em si?

Acho que o meu Norte está na maneira como me dou com as pessoas. Sou capaz de ir ao café e tratar toda a gente como se fossem meus amigos, mesmo sem os conhecer.

As pessoas do Norte são muito mais calorosas, muito mais dadas. As pessoas do Sul são muito simpáticas, sim, mas há aquela distância, não existe uma intimidade tão próxima. Aqui podemos não nos conhecer de lado nenhum, mas é logo: 'Precisas de alguma coisa? Como é que é?' Acho que isso é importante.

- Ainda há algum sonho no futebol que queira concretizar?

Sim. Ir à final da Taça de Portugal.

- Se o futebol fosse uma pessoa e tivesses a oportunidade de o encontrar na rua, o que lhe diria?

Essa pergunta é boa. Tenho de refletir um bocado. Se visse o futebol na rua, primeiro dava-lhe um abraço apertado.

- E chorava?

Chorava, sim. Dava-lhe um abraço apertado, chorava e dizia: 'Obrigada.'

- Quando chegar o dia em que decidires que está bom e pendurares as chuteiras, o que gostarias que alguém respondesse à pergunta: quem foi Maria Baleia?

'Que pessoa do caraças.' Gostava que dissessem mesmo que conheceram uma pessoa com um coração muito bom. Nem é pelo futebol. É pela pessoa. Eu olho muito para as pessoas e, para mim, o mundo são pessoas. Há pessoas a jogar futebol, há pessoas a fazer ballet, há pessoas por todo o mundo a fazer o que quer que seja, mas, no fundo, são só pessoas. E isso, para mim, é o que mais conta. Se eu pendurasse as botas e tu fosses entrevistar alguém e perguntasses: "Lembras-te da Maria?", gostava que a pessoa respondesse: 'É das pessoas com o coração mais bonito que já vi.' Era isso.

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