Em entrevista à Lusa, a diretora para o futebol feminino da FPF, Sofia Teles, afirmou que o próximo ciclo estratégico representa uma mudança de foco, procurando consolidar a base da pirâmide competitiva para aumentar não apenas o número de praticantes, mas também a qualidade das futuras jogadoras.
"Precisamos que elas comecem a jogar mais cedo. Queremos aumentar a nossa base de recrutamento e aumentar a qualidade das jogadoras (…) e para isso temos que as formar, de as educar, de fazer com que elas façam e queiram fazer parte desta nossa modalidade", afirmou a dirigente que assumiu a direção do futebol feminino da FPF em março de 2025, aquando da eleição de Pedro Proença para a presidência, depois de passagens pelo SC Braga e pela Associação de Futebol do Porto.
Sofia Teles defendeu que, durante muitos anos, o futebol feminino em Portugal desenvolveu-se de forma inversa à evolução habitual, privilegiando as competições seniores antes da consolidação dos escalões de formação.
"Construímos a casa pelo telhado", sintetizou, explicando que a prioridade passa agora por criar um percurso competitivo mais consistente desde as idades mais jovens.
Essa estratégia está refletida no Plano Estratégico para o Futebol Feminino 2025-2029, apresentado pela FPF, que identifica a formação como um dos eixos centrais de intervenção e prevê um conjunto de 97 medidas, assentes em seis eixos estratégicos, destinadas a reforçar a transição das atletas para o futebol sénior, entre as quais a criação da primeira Liga Nacional feminina de sub-17, que arranca na próxima época 2026/27, com 12 equipas.
Segundo Sofia Teles, a nova prova deverá envolver cerca de 300 futebolistas, considerando plantéis entre 25 e 27 jogadoras por equipa, representando "um passo importante" na consolidação do percurso competitivo do futebol feminino.
Até 2029, a FPF pretende ainda elevar para 27 mil o número de praticantes femininas, contar com seis equipas profissionais na Liga principal, aumentar em 50% a assistência média, bem como alcançar o 20.º lugar do ranking FIFA e uma média de seis mil espetadores nos jogos da seleção AA.
Para Sofia Teles, o crescimento da modalidade deixou de depender exclusivamente da capacidade para atrair novas praticantes e passa, sobretudo, por conseguir que essas atletas permaneçam no futebol até atingirem o alto rendimento.
"É fácil falarmos da Liga, da seleção e da visibilidade. A formação feminina ficou um bocadinho mais esquecida e consideramos que está na hora de a agarrar", afirmou.
O Plano Estratégico reconhece que, apesar do crescimento sustentado dos escalões de formação, a transição para o futebol sénior continua a ser um dos principais desafios, propondo o estudo das causas do abandono da prática, a reavaliação das competições seniores e o reforço da profissionalização da Liga principal como instrumentos para melhorar a retenção das jogadoras.
Questionada sobre os principais entraves ao desenvolvimento da modalidade, Sofia Teles apontou a insuficiência de infraestruturas desportivas e a persistência de barreiras culturais.
"Há uma falta de infraestruturas desportivas em Portugal. Se juntarmos isso às barreiras culturais, ainda se torna mais difícil alimentarmos o número de praticantes", afirmou.
Apesar desses constrangimentos, considera que o contexto é hoje substancialmente diferente, com o futebol feminino a atravessar uma fase de expansão.
"Estamos num patamar de crescimento, de expansão. Estamos a tentar ultrapassar barreiras, como a cultural e a da visibilidade – que noutros países já estão mais esbatidas -, mas ainda temos de dar esse salto para conseguirmos aumentar o número de praticantes", afirmou,
No plano competitivo, a dirigente admitiu que a profissionalização continua a ser um dos principais desafios.
“Nos últimos anos, conseguimos perceber uma evolução do número de jogadoras que são profissionais em contrapartida com aquilo que eram anteriormente. Mas isto verifica-se, sobretudo, ao nível da Liga (em que 72% das atletas são profissionais), que é o nosso expoente máximo. Quando falamos da segunda, terceira ou quarta divisões, já não há tanto esta capacidade de termos as jogadoras profissionais ou condições profissionais para as jogadoras. Obviamente que esse é o objetivo, mas demora o seu tempo, há um processo que tem que ser seguido, como aconteceu com o masculino”, disse.
Embora a Liga feminina concentre um número crescente de jogadoras profissionais, Sofia Teles considera que a evolução depende também do reforço da visibilidade, da atração de parceiros comerciais e da melhoria das condições oferecidas pelos clubes.
A responsável destacou ainda a qualificação inédita da seleção nacional feminina de sub-20 para o Campeonato do Mundo, em setembro, como outro sinal da evolução em Portugal.
Questionada sobre a execução financeira do Plano Estratégico, Sofia Teles admitiu que “não há um valor global”, mas explicou que as medidas serão implementadas de forma faseada, de acordo com as prioridades definidas pela FPF, recordando que o investimento global previsto para o futebol, futsal e futebol de praia femininos aumenta na próxima época, de 22 para 23 milhões de euros.
