Feminino: Damaris Egurrola destaca ADN europeu do Lyon antes da final com o Barcelona

Damaris Egurrola em ação pelo Lyon
Damaris Egurrola em ação pelo LyonJEFF PACHOUD / AFP / AFP / Profimedia

Para Damaris Egurrola, conquistar a Liga dos Campeões vai muito além de uma simples ambição: trata-se de uma cultura profundamente enraizada no quotidiano do Olympique Lyon. Antes da viagem para Oslo, onde o conjunto francês irá defrontar o Barcelona na final europeia, a média abordou a exigência constante do clube, a resiliência demonstrada ao longo da campanha e a importância de viver estes momentos únicos apesar da pressão, durante uma videoconferência organizada pela UEFA, na qual o Flashscore esteve presente.

Acompanhe as incidências da partida

"Lily Yohannes é um talento incrível"

- Lily Yohannes é uma das novas jogadoras do Olympique Lyon esta temporada. O que trouxe de diferente ao grupo?

Acho que ela é um talento incrível. Desde o primeiro dia em que chegou, todas ficámos muito impressionadas com aquilo que consegue fazer tanto nos treinos como nos jogos. Temos muita sorte em tê-la connosco e sinto que isto é apenas o começo. Estou mesmo entusiasmada para ver aquilo que ainda pode trazer à equipa agora e no futuro. Tem sido extraordinária.

- Em momentos tão grandes como uma final da Liga dos Campeões, é realmente possível desfrutar da experiência apesar da pressão?

Acho que sim. Lembro-me da minha primeira final e de várias jogadoras mais experientes me dizerem para aproveitar bem a semana, porque no dia do jogo tudo gira em torno da preparação para o encontro. Mas durante a semana também é importante saborear o momento. É isso que estou a tentar fazer agora.

Também procuro transmitir isso às jogadoras mais jovens ou menos experientes, para que possam aproveitar esta experiência ao máximo. É algo único e muito bonito de viver: a forma como a semana começa, a viagem para Oslo, o tempo que passamos juntas até ao dia da final… tudo isso faz parte de algo muito especial.

- Como sente que o estilo de jogo do Lyon evoluiu esta temporada?

Acho que não mudou assim tanto. Tivemos a sorte de construir um plantel incrível este ano, com muitas jogadoras talentosas a chegarem, misturadas com atletas experientes que já estavam cá há muito tempo. Também chegou um novo treinador e uma nova equipa técnica, naturalmente com ideias diferentes.

Acho que foi uma combinação perfeita. Conseguimos entender-nos muito rapidamente no início da época e acredito que isso explica os resultados muito positivos que estamos a conseguir nesta fase final da temporada.

- Participou nas duas últimas finais entre o Olympique Lyon o Barcelona: venceu uma e perdeu outra. O que conseguiu o Lyon fazer em Turim que não conseguiu repetir em Bilbau?

Não gosto muito de falar das finais passadas. Mas penso que toda a gente viu que não estivemos ao nosso melhor nível em Bilbau. Não ganhámos os nossos duelos individuais, e é isso que define uma final: começa nessas batalhas espalhadas pelo campo. Não estivemos à altura. Elas fizeram a diferença em dois momentos-chave. Marcaram num momento muito complicado para nós e não conseguimos reagir. Mas isso já faz parte do passado. Agora estamos totalmente focadas nesta final.

- Num formato a duas mãos, teriam provavelmente de jogar no Camp Nou. Acha que pode ser mais fácil vencer o Barcelona num jogo único, como numa final?

Sinceramente, não sei, porque nunca tivemos realmente a oportunidade de disputar uma eliminatória a duas mãos contra elas. Mas acho que este também é um jogo muito bonito para os adeptos. Um Lyon-Barcelona numa final é um dos maiores encontros do futebol feminino. Uma final é sempre diferente de uma meia-final ou de um quarto de final. Temos de estar o mais preparadas possível e dar o nosso melhor, porque trabalhámos muito para chegar até aqui e queremos fazer uma grande final.

"Temos muita sorte em ter Jonatan Giráldez como treinador"

- Jonatan Giráldez está agora no Lyon, depois de ter orientado o Barcelona em 2024. O conhecimento que tem do adversário pode representar uma vantagem para vocês?

Sim, temos muita sorte em tê-lo como treinador. Todas nós aprendemos imenso com ele. Evoluímos muito enquanto equipa e ele trouxe ideias novas, sobretudo para jogos desta dimensão. Somos privilegiadas por poder contar com toda a experiência dele, mas também pelo facto de conhecer tão bem a equipa adversária. Conhece cada jogadora ao detalhe e isso pode naturalmente tornar-se uma vantagem importante para nós.

- O Olympique Lyon tem uma ligação muito forte à Liga dos Campeões. A BBC fez recentemente um documentário sobre o clube e percebe-se que esta competição faz quase parte do ADN da equipa. Como se vive a Liga dos Campeões no balneário e nos treinos? O que representa esta prova para o Lyon?

Posso dizer que, no primeiro dia em que cheguei a Lyon, foi a primeira coisa de que ouvi falar: a Liga dos Campeões. Isso sente-se em cada treino, mesmo num simples aquecimento ou num rondo. Toda a gente dá tudo a pensar nesse troféu, a imaginar o momento de o levantar.

Ainda há pouco tempo falávamos desses momentos que, com os anos, às vezes se tornam mais distantes na memória, mas a sensação de erguer um troféu destes continua a ser algo incrível. Temos a sorte de contar com muitas jogadoras que já venceram várias Ligas dos Campeões e sou-lhes muito grata, porque também me ensinaram a gerir as semanas antes de uma final e a aproveitar todo esse processo.

Esta é agora a minha terceira final e também sinto que é a minha vez de transmitir isso às jogadoras mais jovens ou menos experientes, para que desfrutem destes momentos. Porque isto não acontece todos os anos. Claro que gostaríamos que acontecesse, mas o nível da Liga dos Campeões é extraordinário e está cada vez mais competitivo. Temos muita sorte e sentimos que merecemos estar nesta final. Por isso, também é importante saborear tudo isto.

- Enquanto média, o que torna diferente jogar contra o Barcelona em comparação com outros grandes clubes europeus?

Para mim, independentemente do adversário, quem controla o meio-campo tem sempre mais possibilidades de ganhar. E isso é ainda mais importante num jogo deste nível, frente a uma equipa tão forte nessa zona do terreno, com jogadoras incríveis. Mas nós também temos um meio-campo excecional.

Conheço muitas delas muito bem, porque jogámos juntas nas seleções jovens de Espanha. Vai ser muito interessante. Elas jogam juntas há bastante tempo e isso nota-se muito nos movimentos e nos passes quase automáticos que fazem entre si. Sabem sempre onde encontrar a colega. Mas nós também temos muita qualidade para fazer crescer o nosso jogo e controlar a posse de bola. Sei que somos capazes disso. Acho sinceramente que o domínio do meio-campo pode ser decisivo nesta final.

- O Lyon tem vários perfis diferentes no meio-campo e consegue adaptar-se facilmente às exigências de cada jogo. Essa versatilidade foi importante na evolução da equipa esta temporada?

Sim, sem dúvida. Independentemente de quem joga, todas estão preparadas para dar o máximo assim que entram em campo ou começam um jogo. Acho que isso é precisamente o que nos leva a estes grandes momentos da temporada, às finais e à possibilidade de conquistar títulos. Quanto mais unidas estivermos enquanto grupo, maior é a diferença que conseguimos fazer. Estou muito feliz com esta equipa, porque acredito que construímos algo muito especial. Nem sempre é fácil para todas e é precisamente aí que nos apoiamos umas às outras.

Temos um grupo incrível, tanto a nível futebolístico como humano. Isso é essencial, porque não é simples manter um nível tão elevado ao longo de toda a época, continuar a competir em grandes jogos, rodar jogadoras e ainda assim manter o rendimento. Essa tem sido uma das nossas grandes forças.

- O Barcelona perdeu apenas um jogo nesta edição da Liga dos Campeões e empatou frente ao Bayern Munique e ao Chelsea. O que retiraram desses jogos? Encontraram aspetos táticos comuns que possam ser úteis para a preparação desta final?

Claro que analisámos muitos jogos delas e vimos muitos vídeos. Ainda temos alguns dias para continuar essa preparação. Acho que toda a gente percebeu que o nível da Liga dos Campeões esta época foi extraordinário. Viu-se isso nos quartos de final, nas meias-finais e também nos nossos próprios jogos.

Nos encontros frente ao Chelsea e ao Bayern percebeu-se que a qualidade era muito elevada e que qualquer uma das equipas podia vencer. Demos especial atenção ao jogo frente ao Bayern, por ter sido o mais recente delas na competição. E sim, concordo que a intensidade será um fator-chave num jogo desta dimensão.

Para mim, como já disse, a batalha no meio-campo será fundamental. Elas têm jogadoras muito fortes, mas nós também. Vai ser decisivo perceber quem consegue controlar melhor os momentos do jogo: quando manter a posse, quando acelerar, quando atacar em transição. Esses detalhes podem fazer toda a diferença.

- Como descreve o ambiente no balneário a poucos dias da final?

O ambiente é fantástico desde o início da temporada. Temos um grupo extraordinário. Claro que, em cada treino, estamos focadas naquilo que precisamos de trabalhar para chegarmos à final no nosso melhor nível. Mas também é importante aproveitar estes momentos. Os dias que antecedem uma final têm algo de especial: essa mistura de entusiasmo e ansiedade antes de um jogo tão grande. E ao mesmo tempo continuamos totalmente concentradas nos pequenos detalhes que podem decidir uma final desta dimensão.

- Como avalia os desafios enfrentados pela equipa nesta campanha europeia? E qual foi o maior desafio para ti, individualmente e enquanto grupo?

Acho que mostrámos desde o primeiro dia aquilo de que somos capazes na Liga dos Campeões. Tivemos jogos muito bons e outros menos conseguidos. Penso que a partida fora frente ao Wolfsburgo foi uma grande lição para toda a equipa: quando não estás ao teu melhor nível, podes perder na Liga dos Campeões, especialmente se o adversário estiver muito forte.

Foi aí que percebemos que já não havia espaço para relaxar ou baixar o nível. Quando jogas no Olympique Lyon, isso nem sequer pode ser uma opção. Depois também demonstrámos muito caráter, especialmente na reviravolta frente ao Arsenal, em casa. Acho que isso foi muito positivo para nós e deu-nos uma confiança importante para esta final.

Os números de Damaris
Os números de DamarisFlashscore

"Barcelona tem sido extraordinário nos últimos anos"

- Como gerem emocionalmente um jogo desta dimensão? E esperas uma final mais tática ou mais emocional?

É importante focarmo-nos em todo o trabalho que ainda temos pela frente até à final, a nível tático, físico e mental, para estarmos preparadas. Mas também aprendi, desde a minha primeira final, com as jogadoras mais experientes, que é preciso tentar aproveitar estes momentos. Não se chega todos os anos a uma final da Liga dos Campeões e isso torna tudo muito especial.

Por isso, também tento viver estes dias de uma forma diferente. Ao mesmo tempo, concentro-me em cada treino, em cada ação e em cada detalhe para chegarmos o mais preparadas possível. Essa é a beleza da Liga dos Campeões: estar numa final é algo raro, independentemente da competição. Claro que queremos estar aqui todos os anos, mas é importante focarmo-nos no presente, porque dentro de poucos dias teremos um jogo enorme pela frente.

- Nos quartos de final tiveram de ir a prolongamento e nas meias-finais recuperaram de uma desvantagem. O que é que esses momentos ensinaram à equipa, sobretudo em termos de resiliência?

Acho que tudo está relacionado com a mentalidade que demonstrámos. Houve momentos em alguns jogos em que não estivemos tão bem e foi aí que sofremos golos ou permitimos oportunidades perigosas ao adversário. O futebol depende muito desses momentos.

O que aprendemos enquanto equipa foi precisamente a resistir nessas fases e a tornarmo-nos mais fortes. Penso que, na segunda mão frente ao Arsenal, em casa, mostramos isso claramente. Depois de alguns momentos mais delicados, conseguimos assumir o controlo do jogo e ser bastante dominantes. Isso vem da experiência acumulada nos jogos anteriores da Liga dos Campeões.

Esperemos que não seja necessário voltar a passar por isso numa final, mas faz parte do futebol. Felizmente vencemos esses jogos e agora essa experiência pertence-nos.

- Acredita que esta final representa algo maior do que um simples jogo, quase uma disputa pela hegemonia do futebol europeu feminino nesta década?

Não penso muito nisso dessa forma. Acho que é, acima de tudo, um grande jogo para toda a gente. São duas equipas incríveis. Toda a gente conhece a história dos dois clubes. O Barcelona tem sido extraordinário nos últimos anos e toda a gente conhece também o historial do Olympique Lyon.

Cada pessoa pode ter a sua opinião sobre isso, mas eu foco-me sobretudo na final em si. Penso que é um dos melhores jogos que se pode ver no futebol feminino. Já foi assim há dois anos e também em Turim: encontros muito intensos, com enorme qualidade. A história existe, claro, mas para mim isto continua a ser, acima de tudo, um grande jogo de futebol.