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Entre a carga emocional do reencontro, a experiência acumulada e a influência de Jonatan Giráldez no banco da equipa francesa, a internacional norueguesa abordou aquele que poderá ser um dos momentos mais marcantes da carreira, numa videoconferência organizada pela UEFA, na qual o Flashscore esteve presente.
O reencontro com o Barcelona: "Vai ser especial"
- Jonatan Giráldez, o seu atual treinador no Olympique Lyon, orientava o Barcelona na final de 2024. Ficou surpreendida por vê-lo regressar tão rapidamente ao futebol europeu? E de que forma considera que a abordagem dele no Lyon difere da que tinha no Barcelona?
Jona tem ideias muito precisas sobre como quer jogar, e reconheço muitas coisas dos seus tempos de Barcelona. Mas é claro que ele se adapta às jogadoras que tem aqui. Ele faz com que joguemos o seu estilo de futebol, com as suas ideias, mas realçando os pontos fortes da nossa equipa e das nossas jogadoras.
- Defrontar o Barcelona, a sua antiga equipa, e reencontrar jogadoras que conhece tão bem pode ser uma vantagem do ponto de vista competitivo ou torna tudo mais emocional?
Acho que, no calor do jogo, é possível deixar tudo isso de lado. Nessa altura, o que importa é o futebol. Como disse, conheço-as bem e também sei o nível a que jogam e a qualidade que têm. Vai ser muito interessante e, obviamente, especial voltar a partilhar o campo com elas. Mas, durante o jogo, o mais importante para as duas equipas é ganhar.
- Esta será a sua terceira final da Liga dos Campeões ao serviço de três clubes diferentes - Wolfsburgo, Barcelona e Lyon. Quais são as principais diferenças entre essas experiências e o que torna esta final especial para si?
Antes de mais, sinto-me muito orgulhosa por ter chegado a tantas finais com as equipas que representei na Europa. Acho que isso diz muito sobre as minhas ambições e sobre as escolhas que fiz na carreira: quero sempre estar em clubes que lutem verdadeiramente por títulos. Tive a sorte de jogar em três das maiores equipas do futebol europeu.
O que muda desta vez? Pessoalmente, tenho mais experiência. Sei como me preparar e como abordar uma final desta dimensão. O que torna tudo mais especial é, claro, o facto de jogar contra a minha antiga equipa. Isso acrescenta algo diferente emocionalmente. Mas hoje sinto que sei lidar melhor com esses sentimentos e preparar-me da melhor forma possível para estar pronta no sábado.
- A final será disputada em Oslo, no seu país natal, a Noruega. Do outro lado estará Ada Hegerberg, entre outras jogadoras norueguesas. O que representa para si disputar esta final em casa? E já falou com Ada sobre isso?
Ao longo de toda a temporada, chegar a esta final foi algo muito importante para nós. Claro que, assim que o jogo começar, toda a concentração estará focada em conquistar o troféu. Mas estamos muito felizes por disputar esta final no nosso país, num estádio que conhecemos tão bem. Tudo nesta partida será muito familiar para mim e vou ter muitos amigos e familiares nas bancadas. Vai ser uma ocasião muito, muito especial.
- Em 2024, fazia parte da equipa do Barcelona que enfrentou o Lyon na final e teve a missão de marcar Melchie Dumornay. O que recorda desse duelo?
Sim, falei sobre isso com algumas colegas, porque é algo de que me lembro muito bem. Essa era a minha principal tarefa nesse jogo. Agora é muito especial estar na mesma equipa que ela. Tenho de admitir que é bem melhor tê-la como companheira! Ela é claramente uma jogadora muito perigosa, alguém que tentei controlar da melhor forma possível nessa final.
- Qual é o seu nível de confiança para esta final, sobretudo depois da prestação da equipa nas meias-finais frente ao Arsenal?
Acho que podemos retirar muitos aspetos positivos desses jogos, especialmente da segunda mão frente ao Arsenal. Estivemos muito bem ofensivamente e também sólidos do ponto de vista defensivo. Temos de aproveitar a confiança que ganhámos nesses encontros.
Ao longo de toda a campanha na Liga dos Campeões tivemos jogos complicados. Não fomos perfeitas, mas aprendemos muito em cada partida. Defrontar adversários diferentes acabou por enriquecer bastante a equipa. Sinto que chegamos a esta final confiantes.

"A Kika é uma pessoa fantástica"
- Conhece muito bem o Barcelona. Considera que isso lhe dá alguma vantagem? E há algum duelo individual que a entusiasme particularmente para esta final?
Vai ser um enorme desafio em todas as zonas do campo. O meu principal papel será tentar travar as melhores jogadoras delas. Vamos precisar de fazer um jogo perfeito e estar o mais preparadas possível para este desafio. Como já disse, conheço-as bem, mas também sei o quão difícil é pará-las. Vou dar o meu melhor.
- Quem considera ser a jogadora mais importante do Barcelona? E como definiria Patri Guijarro?
É muito difícil escolher apenas uma. No Barcelona, o mais importante é a equipa, a forma como trabalham juntas, os laços que criaram e o estilo de jogo que praticam. Mas, claro, quando falamos da Patri, é evidente: quando ela joga, o Barcelona joga futebol a um nível muito elevado. É, sem dúvida, uma das melhores jogadoras com quem já partilhei o campo. Será interessante perceber como me vou sair frente a ela no sábado.
- Sente que esta poderá ser uma das ocasiões mais especiais da sua carreira?
Espero que sim. Espero que, depois do jogo, possa olhar para este momento como um dos mais felizes da minha carreira. Tudo contribui para isso: é no meu país, é a minha primeira época no Lyon e será frente à minha antiga equipa. Há muitas emoções e sentimentos envolvidos, o que torna tudo ainda mais especial. E, como disse, espero que no final haja muita alegria. Estou muito ansiosa por esse dia. Também é importante aproveitar os momentos antes do jogo e viver tudo isto ao lado das pessoas de quem gosto.
- E o que pode dizer sobre Kika Nazareth?
A Kika é uma pessoa fantástica e uma jogadora extraordinária. Fico muito feliz por a ter conhecido e tornámo-nos bastante próximas desde que começámos a jogar juntas. É muito importante no balneário e, com bola, tem algo de mágico. É realmente uma pessoa incrível.

- Como esperam travar o Barcelona nesta final? A pressão alta do Barcelona pareceu criar muitos problemas ao Bayern Munique nas meias-finais...
Não posso entrar muito em detalhes táticos nem revelar os nossos planos. Mas, obviamente, estamos a analisar os jogos delas para perceber onde podem surgir fragilidades e também de que forma podemos aproveitar os nossos pontos fortes ofensivos.
- Jule Brand foi decisiva nas meias-finais frente ao Arsenal e também no campeonato contra o Nantes. Como avalia a temporada dela?
É muito impressionante ver a forma como a Jule se adaptou esta época. Nem sempre é fácil no início, mas ela mostrou qualidade desde a pré-temporada. Neste momento, talvez esteja a atravessar o melhor momento da época, o que é perfeito para nós. Gosto muito de jogar com ela. Quando está confiante, pode ser extremamente perigosa, e demonstrou isso tanto na meia-final como no último jogo. É fundamental no nosso processo ofensivo, mas também quero destacar o trabalho defensivo dela, que é extraordinário. Tem uma mentalidade muito forte nas duas fases do jogo.
- O que representa Wendie Renard para este grupo e como é jogar ao lado dela?
Acho que foi a jogadora que mais curiosidade me despertou quando cheguei ao Lyon, porque é claramente uma lenda do futebol feminino. E devo dizer que tem sido um enorme prazer. Ela torna tudo mais simples. É uma pessoa que coloca sempre a equipa em primeiro lugar. O que diz antes dos jogos sente-se verdadeiramente, mexe connosco. É uma das melhores líderes com quem já joguei. Sinto-me muito privilegiada por partilhar o campo com ela, não só pela jogadora incrível que é, mas também porque aprendo muito com a forma como lidera o grupo.
- Como lida com o facto de defrontar uma equipa que conhece tão bem? E no início da temporada imaginava que esta final contra o Barcelona pudesse acontecer?
Eu conheço-as bem, mas elas também me conhecem a mim e conhecem o nosso treinador, por isso funciona nos dois sentidos. Conheço os pontos fortes delas e sei o quão difícil é pará-las, mas estou focada em perceber como podemos contrariá-las. E esse também é o papel do treinador, que, como já disse, as conhece muito bem. Isso torna tudo ainda mais interessante.
Sinceramente, desde o início da época que senti que esta final podia acontecer. Claro que nunca se sabe, mas depois da fase de grupos, quando percebemos que terminaríamos em lados diferentes do quadro, comecei a pensar seriamente nessa possibilidade. Preparei-me mentalmente para esse cenário. E quando elas eliminaram o Bayern e nós eliminámos o Arsenal, tive mesmo a sensação de que esta final tinha de acontecer este ano.

"Temos muita sorte em ter Jonatan Giráldez como treinador"
- Esta semana esteve em contacto com as suas antigas colegas de equipa do Barcelona?
Como já disse recentemente num vídeo, não falamos sobre tática, futebol ou sobre quem está disponível ou não. Estamos habituadas a falar bastante umas com as outras, mas desta vez deixámos isso de lado. Tentamos manter as coisas normais fora do campo. Vai ser especial jogar contra elas e reencontrar as minhas antigas companheiras de equipa. Não tenho falado muito com elas, tirando coisas normais, como mensagens de aniversário, mas nada para além disso.
- Lily Yohannes, uma das novas jogadoras do plantel esta temporada, trouxe algo diferente ao grupo?
Acho que ela é um talento incrível. Desde que chegou, todas ficámos muito impressionadas com aquilo que tem mostrado nos treinos e nos jogos. Temos muita sorte em tê-la connosco e sinto que isto é apenas o começo. Estou muito entusiasmada com aquilo que ela pode trazer agora e no futuro. Está a fazer coisas realmente notáveis.
- É possível desfrutar de uma final com tanta pressão como esta?
Sim, acho que sim. Lembro-me da minha primeira final e de algumas jogadoras mais experientes me terem dito: ‘Aproveita esta semana, porque no dia do jogo estaremos totalmente focadas na preparação.’ É exatamente isso que estou a tentar fazer agora. Claro que nos preparamos da melhor forma, mas também tentamos aproveitar o momento. É isso que tento transmitir às jogadoras mais novas ou com menos experiência neste tipo de situações, porque é uma experiência única e muito bonita, desde o início da semana até à viagem para Oslo e ao próprio dia da final.”
- O que mudou no estilo de jogo do Olympique Lyonesta temporada, com a chegada de um novo treinador e de várias jogadoras?
Não houve mudanças radicais. Tivemos a sorte de construir um plantel extraordinário este ano, com uma mistura muito interessante entre jogadoras experientes e novas atletas muito talentosas. Também chegou uma nova equipa técnica, com ideias diferentes. Acho que foi uma combinação perfeita. Conseguimos criar rapidamente uma ligação muito forte no início da temporada e acredito que isso explica o nível que estamos a apresentar agora, nesta fase final da época.
- O Olympique Lyon venceu uma final da Liga dos Campeões frente ao Barcelona, em Turim, mas perdeu outra em Bilbao. O que considera que fez a diferença entre esses dois jogos?
Não gosto muito de olhar para finais passadas, mas acho que toda a gente percebeu que, em Bilbao, não estivemos ao nosso nível. Perdemos muitos duelos individuais e, numa final, isso acaba por fazer toda a diferença. Tudo começa nesses momentos de 50-50 espalhados pelo campo, e nós não conseguimos impor-nos. Depois, houve também momentos-chave que mudaram o jogo. O primeiro golo delas foi um momento muito duro para nós e não conseguimos reagir da forma certa. Mas isso já faz parte do passado. Agora estamos totalmente focadas nesta final.
- Jonatan Giráldez conhece o Barcelona por dentro e por fora. Isso pode representar uma vantagem para vocês?
Temos muita sorte em tê-lo como treinador. Todas nós aprendemos muito com ele enquanto equipa. Desde o início da temporada trouxe ideias novas e mudámos bastante coletivamente. Para um jogo desta dimensão, é obviamente importante contar com toda a experiência dele, mas também com o facto de conhecer muito bem o adversário. Ele conhece as jogadoras ao detalhe e isso pode naturalmente tornar-se uma vantagem importante para nós.

Champions no ADN do Lyon
- Como é vivida a Liga dos Campeões no dia a dia do Olympique Lyon? Diz-se muitas vezes que a competição faz parte do ADN do clube...
Desde o meu primeiro dia no Lyon, a primeira coisa de que ouvi falar foi da Liga dos Campeões. Isso sente-se em cada treino, até no aquecimento ou numa simples corrida: toda a gente dá o máximo a pensar nesse troféu e na possibilidade de o levantar. São momentos magníficos.
Ainda há dias falávamos sobre isso, sobre como, com o passar do tempo, às vezes não valorizamos suficientemente estes momentos. Levantar um troféu destes é algo incrível. E temos a sorte de contar no grupo com muitas jogadoras que já venceram várias Ligas dos Campeões. Sou muito grata por isso, porque também me ensinaram a gerir as semanas que antecedem uma final e a aproveitar ao máximo todo o processo. Esta é a minha terceira final e agora sinto que também é a minha vez de viver estes momentos plenamente e transmiti-los às jogadoras mais jovens ou menos experientes. Porque isto não acontece todos os anos. Claro que gostaríamos que acontecesse, mas o nível da Liga dos Campeões é extraordinário e torna-se mais difícil a cada época. Temos muita sorte e sentimos que merecemos estar nesta final.
- Como se encara mental e emocionalmente um jogo desta dimensão?
É importante concentrarmo-nos em todo o trabalho que precisa de ser feito até à final, a nível tático, físico e mental, para estarmos prontas. Mas também aprendi, com as jogadoras mais experientes da minha primeira final, que é preciso aproveitar ao máximo estes momentos. Não se chega a uma final da Liga dos Campeões todos os anos. É algo realmente especial.
Por isso, estou também a tentar viver estes dias de forma muito intensa, concentrando-me em cada treino e em cada detalhe, para que toda a equipa esteja o mais preparada possível. Essa é a beleza da Liga dos Campeões. Estamos na final, algo que não acontece frequentemente, independentemente da competição. Claro que queremos estar aqui todos os anos, mas temos de viver o presente. E daqui a poucos dias teremos um enorme desafio pela frente.
- O que aprenderam sobre vocês próprias enquanto equipa, especialmente em momentos difíceis como o prolongamento dos quartos de final ou a reviravolta nas meias-finais?
Acho que tudo passa pela mentalidade que demonstrámos. Tivemos momentos difíceis em alguns jogos e foi precisamente nesses períodos que sofremos golos ou permitimos que os adversários criassem perigo. O futebol é muito feito de ritmos, e aquilo que aprendemos enquanto equipa foi a resistir e a ser mais fortes quando as coisas se complicam.
Na segunda mão frente ao Arsenal, por exemplo, fomos muito dominantes depois de alguns momentos potencialmente perigosos. Conseguimos gerir bem essas situações e isso foi algo que fomos aprendendo ao longo da competição, jogo após jogo. Esperemos não ter de passar pelo mesmo na final, mas o futebol é assim. Felizmente, vencemos esses encontros e agora essa experiência pertence-nos.
- Como está o ambiente no balneário antes da final?
O ambiente é fantástico. Desde o início da temporada que temos um grupo realmente especial. Claro que, nos treinos, estamos totalmente focadas no trabalho necessário para atingirmos o nosso melhor nível para a final. Mas também é importante desfrutar destes momentos e destes dias que antecedem um jogo desta dimensão. Aproveitar a emoção e o ambiente, sem perder a concentração nos pequenos detalhes que podem decidir uma final.
- Qual foi o maior desafio desta campanha europeia, tanto para si como para a equipa?
Mostrámos a nossa qualidade desde o primeiro jogo da Liga dos Campeões, mas também tivemos partidas menos conseguidas. Acho que o jogo fora frente ao Wolfsburgo foi uma grande lição para todas nós: quando não estamos ao nosso melhor nível, podemos perder na Liga dos Campeões, especialmente contra adversários fortes.
Foi aí que percebemos verdadeiramente que não existe espaço para complacência. Quando se joga no Lyon, isso nem sequer é uma hipótese. Depois disso, mostrámos muita personalidade, sobretudo na segunda mão contra o Arsenal, e isso dá-nos confiança para esta final.
- Esta final representa também uma espécie de luta pela hegemonia do futebol europeu feminino entre Lyon e Barcelona?
Não penso muito nisso dessa forma. Vejo apenas um enorme jogo de futebol entre duas equipas extraordinárias. Toda a gente conhece a história dos dois clubes. O Barcelona fez coisas impressionantes nos últimos anos e o historial do Lyon também fala por si. Cada pessoa terá a sua opinião sobre quem domina ou não, mas eu estou totalmente focada nesta final.
As finais anteriores entre estas equipas foram jogos incríveis, muito intensos e com um nível altíssimo. Toda essa história existe, claro, mas para mim isto é, acima de tudo, um grande espetáculo de futebol.
- Viram os jogos em que o Barcelona teve mais dificuldades, nomeadamente frente ao Bayern e ao Chelsea?
Sim, claro. Vimos muitos jogos e muitos vídeos, e ainda temos alguns dias de preparação pela frente. O nível desta Liga dos Campeões foi muito elevado, como se viu nos quartos de final, nas meias-finais e também nos nossos próprios jogos.
Os encontros frente ao Chelsea e ao Bayern mostraram bem isso: qualquer uma das equipas podia ter vencido. Pensámos bastante nesses jogos, especialmente no duelo frente ao Bayern, que foi o mais recente na competição. A intensidade será decisiva numa final destas. E, para mim, o duelo no meio-campo será fundamental. Elas têm jogadoras de enorme qualidade, mas nós também. Será muito importante perceber quem consegue controlar os ritmos do jogo, quando manter a posse, quando acelerar em transição. Esses detalhes podem fazer toda a diferença.
