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"Enquanto adepto do Barça, vou sempre desejar o melhor ao clube"
- Quando saiu do Barcelona, disse que iria para Washington para evitar defrontar as suas antigas jogadoras. O que mudou para acabar no Olympique Lyon?
Não sei se esteve presente nesse dia, na minha despedida. Não disse exatamente essas palavras. Sei que circularam muitos títulos com a minha cara associados a frases que, sinceramente, foram retiradas do contexto. Fizeram-me uma pergunta sobre o meu próximo destino e, por questões de confidencialidade, limitei-me a dizer que não podia revelar o nome do clube. Para dar um pouco mais de contexto, acrescentei que seria uma equipa que não competiria diretamente com o Barça, algo importante para mim depois de tantos anos lá. Mas essa primeira parte acabou por desaparecer.
A partir daí surgiram títulos exclusivos e, diria até, manipulados. Cheguei a ouvir que eu não queria voltar a defrontar o Barça, mas isso nunca saiu da minha boca. É também vosso trabalho confirmar exatamente o que foi dito, em que contexto, e depois explicar isso corretamente. Ainda assim, agradeço a pergunta, porque me permite esclarecer a situação para quem possa ter entendido outra coisa. Fui para os Estados Unidos e depois para Lyon.
- O que representa para si enfrentar o Barcelona e reencontrar jogadoras que orientou durante tantos anos?
Sinto-me privilegiado e muito feliz por viver este momento. Enquanto adepto do Barça, vou sempre desejar o melhor ao clube e vou continuar feliz com os seus sucessos. Fui muito feliz lá, cresci muito a nível pessoal e profissional.
Vou sempre querer que lhes corra tudo bem, exceto obviamente nesta final, porque sou competitivo e gosto de ganhar, tal como elas. Mas, tirando isso, encaro este momento com tranquilidade e enorme motivação. Sabemos que teremos de fazer um jogo quase perfeito, porque o nível de futebol em campo será muito elevado. Guardarei sempre excelentes memórias do Barcelona. Tenho lá jogadoras, tenho amigos na equipa técnica e haverá sempre uma ligação especial.
- Como avalia o trabalho de Pere Romeu esta temporada no Barcelona?
Fizeram um trabalho perfeito. Ganharam todas as finais que disputaram e voltaram a chegar à final da Liga dos Campeões. Os resultados falam por si. É verdade que ainda falta um jogo e vamos fazer tudo para que não termine da forma que eles desejam. Mas aquilo que conseguiram fazer, sobretudo na integração de jovens jogadoras, na renovação geracional e no rendimento coletivo da equipa, foi extraordinário. Mereceram ganhar praticamente todos os jogos. O trabalho deles tem sido excelente.
- Considera que a forma como as suas palavras foram interpretadas foi injusta consigo? E acha que alguns adeptos do Barcelona podem ter ficado desiludidos com a sua decisão de rumar ao Olympique Lyon?
Não sei ao certo. O meu trabalho é treinar. É verdade que existe um departamento de comunicação que me ajuda a perceber aquilo que se diz e, nesse sentido, cabe-vos também a vocês fazer essa avaliação. Recebi muitas mensagens, inclusive de jornalistas, a tomarem posição sobre o assunto. Mas, como expliquei há pouco, uma coisa é aquilo que realmente disse e outra são as versões que depois acabaram por circular. Não sei se isso foi justo ou não. Talvez hoje tivesse feito algumas coisas de forma diferente, certamente. E neste caso, até não tomar posição acabou por ser uma forma de tomar posição.
É o mundo em que vivemos atualmente, muito diferente daquele de há cinco ou seis anos, quando o futebol feminino era um contexto mais simples e mais claro. Mas, sinceramente, isso não me afeta. O meu foco está em treinar, que é aquilo de que mais gosto. Sei que responder às vossas perguntas também faz parte do trabalho e tento sempre ser acessível, explicar as coisas do meu ponto de vista e falar de futebol. O resto cabe-vos também a vocês verificar e garantir que aquilo que é publicado corresponde realmente ao que foi dito.
- Treinou o Barcelona durante vários anos e agora orienta o Lyon. Quais são as principais diferenças entre as duas equipas?
Claro que temos jogadoras diferentes e isso faz com que as equipas também sejam diferentes. Mas penso que existem identidades muito semelhantes. O Barcelona tem uma forma de jogar muito marcada e eu fico satisfeito com a forma como conseguimos dominar os jogos esta época no Lyon.
Dominámos claramente muitos encontros, tanto na fase de qualificação como ao longo da competição. Isso é o mais importante para mim. Talvez o Barcelona tenha um perfil mais técnico, mais orientado para o jogo curto e para espaços reduzidos. Mas, no fundo, as ideias são semelhantes: dominar os jogos, atacar, partir da posse de bola e criar ocasiões.
Depois, claro, as características individuais das jogadoras levam a relações e dinâmicas diferentes dentro do jogo. Mas em termos de identidade vejo muitas semelhanças.
- Nos vídeos divulgados pelo clube vê-se muitas vezes a forma como procura desafiar o ego das jogadoras para as motivar. Essa é uma das suas formas de liderança? E como se motiva um grupo com atletas que já ganharam praticamente tudo?
Depende muito dos dias e daquilo que sinto em cada momento. Tento colocar as jogadoras nas melhores condições possíveis para renderem ao máximo. E, na verdade, não temos assim tantas jogadoras que já ganharam tudo. Talvez dez delas tenham conquistado muitos títulos, como a Wendie Renard ou a Ada Hegerberg, mas muitas outras vão disputar agora a primeira final da Liga dos Campeões.
Nesse sentido, apoiamo-nos muito na humildade e na motivação diária. A ideia passa sempre por tentar jogar melhor do que o adversário, apresentar um nível de futebol superior e merecer a vitória. Essa é a nossa receita. Trabalhamos e motivamo-nos sempre a partir do futebol, percebendo o que temos de fazer com e sem bola. Acredito que é isso que nos pode levar ao sucesso.
"Lindsey Horan é uma jogadora e uma pessoa extraordinária"
- A Liga dos Campeões é algo muito especial para muitos clubes europeus. Depois da experiência nos Estados Unidos com o Washington Spirit, até que ponto jogos desta dimensão influenciaram a sua decisão de regressar à Europa?
Para nós, é o jogo mais importante da temporada. Estamos muito felizes e orgulhosos por ter a oportunidade de disputar esta final. Mas, ao mesmo tempo, acredito que não devemos mudar nada na nossa forma de preparar os jogos.
Não gosto de alterar demasiado a abordagem só por ser uma semana especial, porque, no fundo, aquilo que temos de fazer continua a ser o mesmo dos jogos anteriores. Tudo gira à volta do futebol. Não é preciso mudar o ambiente em redor das jogadoras. O importante é percebermos bem o que temos de fazer ofensiva e defensivamente, falar a mesma linguagem dentro de campo e sermos melhores do que o adversário para merecermos vencer.
- Já conquistou esta competição e o Olympique Lyon tem um historial extraordinário na prova. Até que ponto a experiência do treinador e de algumas jogadoras pode ajudar quem nunca venceu este troféu?
É importante, porque nestas semanas as jogadoras ficam naturalmente muito entusiasmadas. Mas só há um jogo para disputar e ele acontece no sábado. Até lá, o foco tem de estar totalmente na preparação: recuperar bem, interpretar corretamente as sessões de treino e trabalhar tudo aquilo que podemos controlar.
Pela experiência que tenho deste tipo de jogos, acredito que o mais importante é descansar bem e preparar-se da melhor forma para chegar ao encontro nas melhores condições possíveis. Posso transmitir alguns conselhos, claro, mas também temos várias jogadoras muito experientes e com uma voz forte dentro do grupo, capazes de ajudar as mais jovens a perceber como se vive uma semana destas.

- Esta poderá ser, de certa forma, a última grande final de Lindsey Horan pelo Lyon. O que representa para a equipa?
É uma jogadora e uma pessoa extraordinária. Quer sempre mais. É uma líder pela forma como encara cada treino e eu gosto muito desse perfil de atleta, porque a energia que transmite é extremamente importante para o grupo.
Além disso, percebe muito bem o jogo. Uma das coisas em que mais evoluímos desde o início da temporada foi na capacidade de falarmos a mesma linguagem em campo, tanto ofensiva como defensivamente. Gosto muito de discutir questões táticas com ela precisamente por isso. Ajuda-nos bastante a garantir que toda a equipa está alinhada dentro de campo. Estou muito satisfeito com o rendimento dela esta temporada e, sinceramente, vai fazer-nos muita falta no futuro.
- Chegou a dar-lhe alguns conselhos sobre a próxima aventura na NWSL, uma liga que conhece bem?
Sim, falámos um pouco sobre isso, mas são conversas privadas. Não posso partilhar tudo o que discutimos. É verdade que se fala muito do crescimento da liga, das assistências e da evolução do futebol feminino nos Estados Unidos… mas, se começasse agora a contar tudo, esta conferência de imprensa ainda ia durar bastante tempo.
- Na final de 2024 entre o Barcelona e o Olympique Lyon, Melchie Dumornay jogava como ponta de lança. Esta época, consigo, tem atuado em posições mais recuadas e com maior liberdade. Foi essa versatilidade que motivou a mudança?
No fundo, não é apenas uma questão da Melchie, mas sim da equipa. Tudo depende do número de avançadas, médias e extremas que temos disponíveis e da melhor forma de organizar a equipa para jogar melhor. A Melchie entende muito bem o jogo. Sabe receber entre linhas, gosta de aparecer nos corredores, atuar como segunda avançada e baixar no terreno quando a equipa precisa de apoio na construção. E, defensivamente, é uma jogadora de topo: sabe pressionar alto, fechar por dentro ou recuar quando necessário.
Para mim, ela é uma peça-chave porque uma número 9 mais fixa consegue fazer coisas muito específicas, enquanto a Melchie oferece muito mais soluções. Trabalhámos isso desde o primeiro dia da pré-temporada. Acho que evoluiu muito esta época, mas ainda está longe do limite. É muito jovem e tem uma vontade enorme de continuar a crescer.
- Passou muitos anos no Barcelona, primeiro como adjunto e depois como treinador principal. Conhece perfeitamente as jogadoras e também o treinador adversário. Como viveu esta semana a preparar um jogo contra pessoas e ideias que conhece tão bem?
A semana decorreu exatamente como qualquer outra. Mudam os conteúdos, os vídeos e as reuniões, claro, mas os hábitos e a rotina mantêm-se iguais. Não altero a minha abordagem em função do adversário. Passei muito tempo a preparar o jogo, a pensar no que quero transmitir às jogadoras e naquilo que precisamos de fazer em campo. Isso é o mais importante. Mas, sinceramente, a preparação foi igual à de qualquer outro encontro.

- As bolas paradas têm sido uma das grandes forças do Lyon esta temporada, com muita variedade nas execuções. Considera que esse poderá ser um fator decisivo na final?
Se pensarmos que entre 30% a 40% dos golos no futebol surgem de bolas paradas, é natural que lhes demos uma atenção especial esta semana, seja em livres diretos, livres laterais ou cantos. Acho que esse aspeto pode ser muito importante nesta final. O Barcelona também é uma equipa fortíssima nas bolas paradas e apresenta muita variedade. Mas nós também evoluímos bastante nesse capítulo e terminámos a época numa sequência muito positiva, com golos importantes em momentos decisivos. Por isso, acredito que poderá ser um fator determinante.
- Continua a acompanhar o Barcelona de perto. Sente que a equipa mudou muito sob o comando de Pere Romeu, sobretudo a nível tático?
Têm jogadoras diferentes e isso muda inevitavelmente algumas coisas. Por exemplo, agora contam com Ewa Pajor. Quando eu estava lá, não tínhamos uma número 9 com essas características. Na minha última final, joguei com Mariona Caldentey na frente, mas com um perfil completamente diferente. Por isso, claro que algumas dinâmicas mudaram. No fundo, são sempre as jogadoras que acabam por definir a forma de jogar da equipa. Mas em termos de identidade, acho que o Barcelona continua igual: dominar os jogos, criar muitas ocasiões, procurar jogar bem para os adeptos e ser agressivo sem bola. Honestamente, não penso que tenham mudado muito. Apenas os perfis das jogadoras são diferentes.
- Depois da primeira mão frente ao Arsenal, disse que a equipa perdeu porque não conseguiu jogar os 90 minutos ao mesmo nível. Sentiu que essa mensagem foi assimilada desde então?
Sim, sem dúvida. Caso contrário, não se conseguem ganhar jogos deste nível. Na primeira mão frente ao Arsenal, estávamos em vantagem ao intervalo, mas sinceramente não merecíamos. Não jogámos a segunda parte. Já na segunda mão, fora de casa, aí sim, jogámos os 90 minutos completos e viu-se uma equipa totalmente diferente, capaz de marcar muitos golos. É essa versão da equipa que precisamos de apresentar.
Para disputar finais e conquistar títulos, é preciso ser praticamente perfeito, ou pelo menos aproximar-se o máximo possível disso. Só assim aumentamos verdadeiramente as probabilidades de vencer.
- Como encara o facto de muitas pessoas apontarem o Lyon como outsider nesta final?
Sinceramente, nem sei quem é considerado outsider, porque não acompanho muito os meios de comunicação. Para mim, esta final é completamente 50-50. As duas equipas têm uma qualidade enorme, plantéis extraordinários e estilos de jogo muito fortes. Não vejo uma favorita clara. Acho apenas que vai ser um grande espetáculo para quem gosta de futebol.
"Vamos fazer tudo para vencer esta final"
- Como sente que evoluiu enquanto treinador desde que saiu do Barcelona?
Aprendi muito e cresci bastante, tanto como profissional como enquanto pessoa. Viver em países diferentes, trabalhar com jogadoras, equipas técnicas e culturas diferentes, perceber formas distintas de apoiar as atletas, lidar com adeptos diferentes… tudo isso fez-me evoluir.
Tive de adaptar a forma de jogar, os exercícios de treino e até a maneira de abordar o futebol a contextos muito diferentes do Barcelona. Cresci verdadeiramente e essa foi uma das principais razões para sair: tornar-me um melhor profissional e uma melhor pessoa.
Sou sinceramente muito grato por esta experiência. Falar inglês com algumas jogadoras, francês com outras, perceber como pensam, como vivem o futebol e como as posso ajudar a render melhor… tudo isso é apaixonante para mim. O Barcelona é um contexto muito particular e o facto de ter passado pelos Estados Unidos e agora por França tornou-me mais experiente. E essa experiência tem muito valor para mim.
- Lily Yohannes foi decisiva frente ao Arsenal e parece evoluir de jogo para jogo na primeira temporada no clube. Como tem sido trabalhar com ela e até onde acredita que pode chegar?
É uma jogadora incrível, um verdadeiro talento. Teve algumas dificuldades no início, o que é perfeitamente normal, porque vinha de um contexto completamente diferente. Mas estou muito satisfeito com a forma como evoluiu e com aquilo que tem mostrado.
É muito humilde, procura sempre melhorar e nunca arranja desculpas. Adoro esse tipo de personalidade. Apesar da idade, já é uma jogadora de altíssimo nível. Ajuda-nos muito porque é extremamente forte com e sem bola. E o mais impressionante é que ainda tem uma enorme margem de progressão. No futuro, será certamente uma jogadora muito importante.
- Num clube como o Olympique Lyon, que venceu várias Ligas dos Campeões consecutivas, lutar por este título acaba por ser quase uma obrigação?
Aqui no Lyon, pela história que o clube tem nesta competição, lutar por jogos como este é quase uma obrigação. Desde o início da temporada, nas conversas individuais que tive com praticamente todas as jogadoras, a Liga dos Campeões surgia constantemente.
Aquilo que tentámos fazer foi focarmo-nos no presente, melhorar dia após dia, para aumentarmos as hipóteses de conquistar este troféu. Agora chegámos ao momento mais importante da época. A oportunidade está muito perto e vamos fazer tudo para vencer esta final.
