Do coração da Floresta Negra à Pedreira: conheça o Friburgo, o último obstáculo do SC Braga

Friburgo visita a Pedreira esta quinta-feira para a primeira mão da Liga Europa
Friburgo visita a Pedreira esta quinta-feira para a primeira mão da Liga EuropaREUTERS/Heiko Becker

A final de Istambul está apenas a dois jogos de distância. O SC Braga conseguiu uma reviravolta em Sevilha e eliminou o Betis para marcar encontro com o Friburgo nas meias-finais da Liga Europa. Um duelo surpreendente numa fase tão avançada da competição que começa na Pedreira e que pode apurar os arsenalistas para a segunda final europeia da sua história.

Acompanhe as incidências e o relato do encontro

Ao contrário dos bracarenses, os alemães já fizeram história. Fundado em 1904, o Friburgo nunca tinha chegado tão longe nas provas europeias. Ao contrário de vários históricos germânicos, não é uma equipa com tradição na Bundesliga, onde o melhor que conseguiu foi terminar em 3.º lugar, em 1994/95, mas as últimas temporadas têm sido de crescimento para este clube localizado no coração da Floresta Negra.

Desde que voltou ao primeiro escalão do futebol alemão, na temporada 2016/17, o Friburgo encontrou estabilidade e tem atingido alguns dos maiores feitos da sua história. Recentemente, falhou o acesso à final da Taça da Alemanha, ao perder com o rival Estugarda, naquela que seria a sua segunda presença no jogo decisivo da prova.

Na Bundesliga, o Friburgo é, hoje, uma equipa que disputa os lugares europeus. Um crescimento sustentado, a fazer lembrar o SC Braga, que tem dois grandes responsáveis: Christian Streich e Julian Schuster. Da história recente aos pontos fortes e fracos, o Flashscore, com a ajuda do jornalista Claas Becker, faz o raio-x ao adversário da equipa portuguesa.

Um alerta para Vicens: "O Friburgo gosta de cruzamentos"

A campanha do Friburgo na fase de liga foi, acima de tudo, regular. A equipa alemã acabou em 7.º lugar, com os mesmos 17 pontos do SC Braga, e destacou-se pelo registo defensivo - quatro golos sofridos, segundo melhor dessa fase -, mas, ao bom estilo germânico, é uma equipa perigosa no processo ofensivo.

Depois da saída do histórico Christian Streich, que deixou o clube após 29 anos de ligação, foi o seu adjunto, o alemão Julian Schuster, a assumir a responsabilidade de um novo ciclo para o clube. O cenário esperava-se complicado, mas a verdade é que o Friburgo deu o salto competitivo com o novo treinador, especialmente na forma como aborda o momento de ataque.

"O Friburgo é conhecido pela continuidade no cargo de treinador. Streich não foi exceção e treinou a equipa durante 12 anos. Tornou-se o rosto do clube e gozava de confiança total em todo o lado, desde a Bundesliga 2 até à Liga Europa. Ele ainda vive e respira o clube. O Friburgo nunca foi o clube mais rico, mas ele recebia os jogadores de que precisava e extraía o máximo de cada um", recorda Claas Becker, jornalista do Flashscore.

Resultados do Friburgo
Resultados do FriburgoFlashscore

"Schuster assumiu um papel de grande responsabilidade, pois sabia que todos o iriam comparar com Streich. No entanto, com o seu passado como jogador e capitão, e seis anos como adjunto de Streich, já contava com uma enorme confiança por parte de todos. A grande diferença, diria eu, reside nas mudanças táticas. Nos seus últimos anos, Streich tornou-se muito flexível e escolhia a melhor formação dependendo do adversário, enquanto Schuster adora o seu 4-2-3-1 e tem tido sucesso com pequenos ajustes pontuais", acrescenta.

Um velho conhecido como ponto de referência

Na época de estreia, Schuster levou o Friburgo a uma luta até ao fim pelos lugares de Liga dos Campeões. A equipa acabou por vacilar na última jornada e uma derrota com o Eintracht Frankfurt levou a que fosse ultrapassada pelo Borussia Dortmund, caindo para o 5.º lugar e para a Liga Europa pela terceira vez nas últimas quatro temporadas.

Depois de ficar pelos oitavos de final com Streich, o novo técnico assumiu o objetivo de ir mais além na competição e a fase regular mostrou algumas das valências do adversário do SC Braga, explicadas por Class Becker, à atenção de Carlos Vicens, até porque há pontos fracos a assinalar.

"O Friburgo gosta de cruzamentos. Seja em jogo corrido ou em lances de bola parada, são perigosos. Com Matanovic e Höler, têm avançados que podem ser descritos como jogador alvo, especialmente Matanovic. Gostam de os procurar para depois colocar a bola na ala, ou saltar esse passo e atacar diretamente pelos flancos. Com o 4-2-3-1, têm basicamente duas opções pelos flancos", analisa.

Beste, ex-Benfica, na receção ao Celta de Vigo
Beste, ex-Benfica, na receção ao Celta de VigoSILAS STEIN / AFP / Opta by Stats Perform

"Defensivamente, sentem dificuldades com passes para o espaço vazio. Conseguem defender bem de frente, mas contra o Dortmund, no domingo, foram batidos repetidamente por passes longos ou cruzamentos nas costas dos defesas".

Em termos individuais, Claas Becker destaca vários nomes que podem fazer a diferença para o conjunto alemão, entre eles o ex-Benfica Jan-Niklas Beste.

"O Friburgo tem excelentes alas em Grifo e Beste, que são grandes responsáveis pelo sucesso no jogo de cruzamentos. Manzambi e Eggestein formam uma excelente dupla no meio-campo defensivo que também consegue marcar golos e o Suzuki pode jogar basicamente em qualquer posição atrás do avançado. É difícil encontrar fraquezas individuais, já que Schuster tem mão firme a escolher o jogador certo para cada adversário", detalha.

Diferenças e parecenças no modelo dos dois clubes

Apesar de algumas parecenças no crescimento recente dos dois clubes, as bases de Friburgo e SC Braga são distintas. Se o conjunto português, com uma média de 23,95 anos, é o mais jovem ainda em prova, o Friburgo apresenta a equipa mais experiente da competição, com uma média de idades de 27,4, que pode ser importante numa eliminatória que vale uma final.

"O Friburgo é uma equipa incrivelmente experiente. Têm o plantel mais velho da Bundesliga, com o campeão do mundo Matthias Ginter a liderar a defesa. Não se esperam perdas de posse de bola infantis. Por outro lado, a idade reflete-se em campo, pois falta-lhes um velocista típico. O seu estilo de jogo adapta-se a isso, mas sentem dificuldades em defender a velocidade adversária".

Gorby, um dos jovens do SC Braga, marca em Sevilha
Gorby, um dos jovens do SC Braga, marca em SevilhaREUTERS/Jon Nazca

No entanto, o plano de recrutamento não difere muito daquele que o SC Braga tem adotado ao longo dos anos e que contribuiu para a ascensão da equipa portuguesa no panorama nacional e europeu.

"O Friburgo não tem muito dinheiro, por isso, para comprar, precisa de vender. Devido a isso, não podem fazer grandes investimentos e precisam de ser criativos, o que costuma funcionar. Talentos ou jogadores provados de equipas mais fracas da Bundesliga ou da Bundesliga 2 encontram o seu lugar no plantel. Fazem um excelente recrutamento e conseguem encontrar pérolas noutros países", conta Claas Becker.

"São, essencialmente, um clube onde os jogadores dão o próximo passo. Além disso, têm um sistema de formação fantástico, onde adoram lançar jogadores na equipa principal: Baumann, Atubolu, Schlotterbeck, Schade e Manzambi, para citar apenas alguns".

Atubolu é uma das maiores promessas das balizas alemãs
Atubolu é uma das maiores promessas das balizas alemãsREUTERS/Kai Pfaffenbach

"Friburgo está a beneficiar do novo formato"

Depois de anos nos escalões inferiores do futebol alemão, o Friburgo está agora a um passo de chegar à primeira final europeia da sua história. Uma maior preparação em relação a temporadas recentes e a mudança recente de formato são, na opinião de Claas Becker, as explicações para esta afirmação fora da Bundesliga.

"O Friburgo teve sempre épocas em que brilhava na Bundesliga, mas sentia dificuldades com a carga adicional de jogos das competições europeias. Schuster e a direção do clube construíram um plantel onde quase não há posições sem, pelo menos, uma excelente alternativa. Eggestein, Ginter e Atubolu são os jogadores-chave que jogam quase sempre, mas as peças à volta deles são tão intercambiáveis que conseguem dar tempo de recuperação às estrelas", explica o jornalista.

"Em relação à Liga Europa, estão definitivamente a beneficiar do novo formato. Em 2022/23 fizeram uma excelente campanha, mas perderam contra a Juventus (que tinha caído da Liga dos Campeões). Agora que podem jogar contra equipas do seu nível competitivo e financeiro, parecem estar a prosperar".

SC Braga e Friburgo fizeram os mesmos pontos na fase regular
SC Braga e Friburgo fizeram os mesmos pontos na fase regularFlashscore

Tal como o SC Braga, o Friburgo também tem vindo a colocar todo o foco na Liga Europa, especialmente depois da derrota na meia-final da Taça da Alemanha, que faz com que a prova europeia seja a única hipótese de conquistar um troféu importante já em 2025/26, significando ainda um apuramento histórico para a Liga dos Campeões. 

Apesar de contar apenas quatro títulos da Bundesliga 2 no museu, o Friburgo é bem-visto na Alemanha, onde se acredita que o conjunto germânico é mesmo favorito a passar à final.

"O Friburgo não tem a maior massa associativa, pois compete na região com o Estugarda. Como o Estugarda teve mais sucesso no passado, acabou por ficar com a maior base de adeptos. Apesar disso, o apoio que recebe é fantástico. Os adeptos amam o clube e vice-versa. Além disso, os adeptos são, no geral, pessoas simpáticas; toda a gente adorava o Streich, por isso grande parte da Alemanha guarda um carinho especial pelo Friburgo", explica Claas Becker.

Grifo celebra golo contra o Celta de Vigo
Grifo celebra golo contra o Celta de VigoREUTERS/Robin Rudel

"Sinto que a maioria das pessoas vê isto como um jogo equilibrado, com o Friburgo a ter capacidade para vencer a eliminatória. Como o SC Braga é uma equipa portuguesa que não se chama Sporting, Benfica ou Porto, as pessoas podem considerar o Friburgo ligeiramente favorito nesta eliminatória".

Para chegar à segunda final da Liga Europa da sua história, cabe ao SC Braga e a Carlos Vicens contrariar esta ideia já na quinta-feira, até porque o Friburgo só perdeu três jogos em casa esta temporada. Olhando para a trajetória da equipa minhota na competição, desde as pré-eliminatórias, não parece ser uma missão impossível.

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