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Quando, no final de 2022, António Silva ouviu Fernando Santos anunciar o seu nome na lista de convocados para o Mundial do Catar, poucos imaginariam que, quatro anos depois, deixaria o Benfica rumo à Premier League envolto em tantas dúvidas sobre o seu verdadeiro potencial.
O percurso nas águias continua a ser invejável para a maioria dos jovens formados no Benfica Campus, mas a despedida deixa inevitavelmente um sabor amargo.

A ascensão meteórica pelas mãos de Roger Schmidt
Nascido em Penalva do Castelo, distrito de Viseu, António Silva foi detetado cedo pelos encarnados e mudou-se para o Seixal em 2016, onde começou a dar nas vistas.
Aos 16 anos, já tinha feito a estreia na equipa de juniores, onde fez parceria com Alexandre Penetra, atualmente no AZ Alkmaar, e encontrou Martim Neto, Henrique e Tomás Araújo.
Apesar do talento de António Silva ter chamado a atenção no Benfica Campus, foi quando os encarnados brilharam na Youth League, conquistada sob orientação de Luís Castro, que o nome do defesa, então com apenas dois jogos na equipa B, começou a fazer manchetes. No entanto, poucos esperavam que fosse o jovem a liderar a defesa campeã nacional em 2022/23.

Roger Schmidt deu-lhe uma oportunidade na pré-época e foi rapidamente conquistado pelo jovem talento do defesa.
"O nosso central suplente para a direita é o António Silva. Fez uma grande pré-época, esteve bem nos jogos de preparação e hoje mostrou que pode jogar na equipa principal do Benfica", disse o alemão, após a estreia do defesa à 4.ª jornada, frente ao Boavista.
Poucos dias mais tarde, António Silva já tinha contrariado o próprio Schmidt, que lhe deu a titularidade na jornada seguinte e nas que se sucederam, fazendo a estreia na Liga dos Campeões a 06 de setembro de 2022, ao lado de Otamendi, com quem viria a fazer dupla nas temporadas posteriores.
A ascensão foi meteórica. António Silva fez capas de jornais sobre as suas origens, recebeu elogios de várias figuras do futebol nacional, esteve nomeado para o prémio Golden Boy e, cerca de dois meses após a estreia na Champions, foi convocado para o Mundial.
"O que senti quando o meu nome foi anunciado? Um sentimento de orgulho, acima de tudo, porque não era algo que eu esperava e estou muito feliz por ter sido selecionado", disse, então com 19 anos, menos de um mês antes de se tornar o jogador mais jovem a vestir a camisola de Portugal num Mundial, superando Paulo Futre, na derrota (2-1) com a Coreia do Sul.
Apesar de ter feito apenas uma partida na competição e de alguns erros próprios da idade ao longo do ano do título da Liga Portugal, 2022/23 foi uma época memorável para António Silva. Manter esse nível revelou-se, porém, uma tarefa muito mais difícil.
De promessa a bode expiatório
A temporada 2023/24 não começou da melhor maneira. O Benfica até venceu a Supertaça frente ao FC Porto, mas entrou na Liga a perder e começou mal a campanha na Liga dos Campeões, com António Silva a bater um recorde negativo - tornou-se o jogador das águias mais rápido de sempre a ser expulso, ao ver um vermelho direto na derrota (0-2) com o RB Salzburgo.
Erros de crescimento, literalmente.

Numa fase em que também alterou significativamente a sua estrutura física, os erros começaram a suceder-se. A inconsistência da equipa encarnada, que perdeu os três primeiros jogos da Liga dos Campeões, não ajudou e uma nova expulsão frente ao Inter (3-3) colocou novamente pontos de interrogação sobre António Silva.
As comparações com Ferro, outro central lançado muito cedo e cujo crescimento acabou por estagnar, começaram inevitavelmente a surgir.

Depois de uma época com 50 jogos na equipa principal, António Silva resistiu às dúvidas e foi convocado por Roberto Martínez para o Euro-2024, o último de Pepe na seleção nacional.
O defesa benfiquista era visto como um potencial sucessor do então jogador do FC Porto, mas a experiência na Alemanha não deu confiança ao jovem central. Um erro determinante no único jogo a titular, na derrota com a Geórgia (2-0), alimentou ainda mais as dúvidas sobre o seu futuro na seleção nacional, mas também no Benfica.

Na temporada seguinte, voltou a ter falhas marcantes e lapsos de concentração que o levaram a perder o lugar para Tomás Araújo.
O defesa que surpreendera tudo e todos em 2022/23 começou a ser visto por parte dos adeptos benfiquistas como responsável pelos resultados aquém das expectativas da equipa de Bruno Lage, que voltou a deixar escapar o título para o Sporting.

De indiscutível a questionável, António Silva não conseguiu recuperar o estatuto no clube, nem na seleção. A ausência da convocatória para o Mundial-2026 foi mais um golpe na trajetória de António Silva, ultrapassado pelo colega de equipa Tomás Araújo nas escolhas de Roberto Martínez na seleção e apoiado publicamente pelo Benfica, através das redes sociais.
A ausência da convocatória para o Mundial-2026 foi mais um golpe na trajetória de António Silva, ultrapassado pelo colega de equipa nas escolhas de Roberto Martínez na seleção e apoiado publicamente pelo Benfica, através das redes sociais.
Após a saída de Otamendi, a temporada 2026/27 podia ser de redenção para o central, mas os acontecimentos dos últimos anos acabaram por criar uma bola de neve que levaram o próprio a decidir não renovar o contrato com o Benfica, apesar do interesse da direção liderada por Rui Costa.
Ainda com apenas 22 anos, António Silva despede-se das águias longe de ter atingido o teto que lhe era apontado quando surgiu na equipa principal. Talvez a mudança para o Bournemouth seja a oportunidade para demonstrar que o talento que o levou do Seixal ao Mundial em poucos meses não desapareceu, mas acabou por ficar escondido sob o peso de expectativas demasiado grandes para um jogador que cresceu depressa demais.

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