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Exclusivo com Joan Jordán: "Sei que é difícil, mas o meu sonho no Estrela é ganhar a Taça"

Joan Jordán, médio do Estrela da Amadora, em entrevista exclusiva ao Flashscore
Joan Jordán, médio do Estrela da Amadora, em entrevista exclusiva ao FlashscoreCF Estrela da Amadora/Flashscore

Tem quase 250 jogos na LaLiga, duas Ligas Europa no currículo e sete épocas no Sevilha, mas foi no Estrela da Amadora que Joan Jordán encontrou o desafio que procurava para esta nova fase da carreira. Aos 32 anos, o médio espanhol fala da mudança para Portugal, da ambição que quer incutir num plantel jovem e de um objetivo que pode parecer ousado: ganhar a Taça de Portugal. Em entrevista exclusiva ao Flashscore, Jordán explica os motivos que o levaram a trocar Espanha por Portugal, elogia o trabalho de Pepa e compara as realidades do futebol dos dois países.

Num plantel com uma média de idades inferior a 24 anos, a chegada de Joan Jordán trouxe experiência e, sobretudo, uma nova voz ao balneário do Estrela da Amadora.

Convencido pelo projeto ambicioso do clube, recentemente adquirido por um consórcio alemão que conta com nomes como Thomas Müller, Mats Hummels e Yann Sommer, o antigo médio do Sevilha foi surpreendido pela qualidade que encontrou no futebol português, mas sobretudo pelos jovens à disposição de Pepa que, acredita, podem fazer história já esta época.

Declarações de Joan Jordán em entrevista exclusiva ao Flashscore
Declarações de Joan Jordán em entrevista exclusiva ao FlashscoreCF Estrela da Amadora/Opta by Stats Perform

- Como estão a ser estas primeiras semanas em Portugal?  Aos 32 anos, deixou pela primeira vez o futebol espanhol, o que é procura nesta nova etapa?

- Tudo bem, estou contente e feliz. Já estou bastante adaptado a muitas mudanças: outro país, outra cidade, outra cultura de jogo, outro clube e outro método. Também estou sozinho, sem a minha família. Mas sim, já estou bastante adaptado a muitas coisas novas. A verdade é que nós, futebolistas, nos movemos por ilusões, desafios e situações que nos preencham, que nos façam sentir vivos e valorizados. Surgiu esta oportunidade, o Johannes (Mösmang, presidente da SAD) apresentou-me o projeto do Estrela e a partir daí começámos a avançar nas conversações. Pareceu-me um projeto muito interessante, acho que o clube vai ter um crescimento enorme e esse momento coincidiu com uma fase em que eu precisava de uma mudança. Aqui ofereciam-me, a nível pessoal e desportivo, aquilo que eu procurava.

- Estás aí sem família. Essa tem sido a maior dificuldade até agora?

- Sim, sem dúvida alguma. Considero-me uma pessoa muito normal e muito ligada à família, por isso separar-me da minha mulher e dos meus filhos não é fácil. Sempre viajei com eles, mas tenho a sorte de a minha mulher me apoiar em tudo. Além disso, Lisboa é uma excelente cidade e tem ótimas ligações a Sevilha, tanto de carro como de avião, pelo que nos vemos com relativa frequência e isso dá-me tranquilidade.

- Esse também foi um dos motivos que o levou a aceitar o projeto do Estrela? A proximidade com Espanha e, mais propriamente, Sevilha?

- Sim, sem dúvida, foi muito importante. Quando procurava sair de Sevilha, tinha dois ou três requisitos claros que se teriam de verificar para eu ponderar certas opções. Se tivesse de ir para outra cidade ou país por razões que me preenchessem noutros aspetos, tê-lo-ia ponderado. Mas a verdade é que, em termos de entusiasmo e de encontrar algo diferente, o Estrela atraiu-me muito.

Em primeiro lugar, pela questão desportiva, porque sinto que é um projeto sólido e que vai correr muito bem. Depois, como é óbvio, pela cidade e pela localização: Lisboa é uma cidade fantástica e com excelentes ligações a Sevilha. Por fim, algo também muito importante para mim: eu queria sair de Espanha. Achava que o futebol português se podia adaptar muito bem às minhas características e que podia fazer uma boa época.

Sabia que a situação não era fácil, porque se o Johannes não me tivesse explicado o projeto da forma como explicou, provavelmente não estaria aqui. Mas a verdade é que me convenceu rapidamente e fez-me ver que podia ser um ano muito bom para todos.

- Pode aprofundar um pouco mais isso? Em que consistiu, no fundo, essa conversa sobre o projeto do Estrela, que acabou por também o fazer tomar esta decisão?

- Na verdade, ele apresentou-me o projeto do clube, a entrada da nova estrutura, o funcionamento e a ideia que tinham em termos de infraestruturas a curto, médio e longo prazo. Falou-me das ideias deles, tanto a nível de infraestruturas como de jogadores, projeto e objetivos. Transmitiu-me uma excelente segurança. Depois, algo muito importante: procuravam um jogador com o meu perfil, com experiência e nível, que pudesse ajudar a malta jovem dentro e fora do campo. Somos muitos jogadores muito jovens, com pouca experiência, mas com uma grande margem de progressão e com excelentes qualidades. Por isso, para ele era fundamental que eu valorizasse essa opção e garantiu-me que iria estar tranquilo, feliz e que encontraria tudo o que procurava. Tendo em conta a fase em que me encontrava, sobretudo a nível pessoal, chamou-me muito a atenção e convenceu-me rapidamente.

- Falou também com algum jogador espanhol, algum antigo colega de equipa antes de aceitar este projeto? 

- Sim, falei sobretudo com o Fábio Cardoso, que esteve no Santa Clara e no FC Porto. Tenho uma grande amizade com ele e ele conhecia o Pepa. Sei que falaram os dois e, nessa altura de conversações, ele disse-me que eu ia ser muito feliz. A conclusão dele foi: "Vais ser muito feliz e vais desfrutar do futebol", e disse que estava muito contente por mim. Eu também lhe expliquei um pouco o projeto, o que o surpreendeu muito, e disse-me que eu fazia bem e que estava a acertar na decisão. Além disso, tenho muitos companheiros que já estiveram em Portugal: o Óliver Torres, o Fernando... Falei inclusive com o Julen Lopetegui e todos me disseram que ia estar muito bem aqui e que ia desfrutar muito do futebol.

Estrela ocupa a primeira metade da tabela
Estrela ocupa a primeira metade da tabelaFlashscore

- Também falou com o Pepa antes de vir, ou só mais tarde é que conversaram sobre as ideias que ele teria para si na equipa?

- É verdade que no início falei com o Pepa mais através do Fábio Cardoso como intermediário, porque era uma fase de negociação em que ainda estávamos muito distantes. Eu tinha de chegar a acordo com o Sevilha, por isso era uma negociação complexa. Sendo assim, não falei diretamente com o Pepa logo de início, mas quando as posições ficaram muito próximas, ele entrou em contacto comigo e ligou-me para dar aquele último empurrão, para me convencer e mostrar os planos que tinha para mim. Foi uma primeira conversa muito boa e continuamos a falar até eu chegar aqui.

- Está a entrar gradualmente na equipa depois de uma época em que jogou pouco. Como se tem sentido neste primeiro mês no Estrela?

- Venho de uma etapa em que, por circunstâncias alheias ao meu controlo e que não eram desportivas, joguei poucos minutos. A partir daí, fiz uma pré-época em que estive separado do grupo, por isso treinei muito duro. Preparei-me tanto física como mentalmente para chegar aqui e conseguir render o mais depressa possível, chegando nas melhores condições para não ser travado por lesões ou outros fatores. Tenho vindo a entrar na equipa gradualmente, também ao ritmo da minha adaptação aos aspetos que mencionei antes. Neste momento, estou num ponto muito bom, em que me sinto pronto para somar, para crescer e fazer a equipa crescer. Acho que estou mais do que capacitado para começar a dar uma excelente versão de mim próprio.

Últimos jogos de Joan Jordán
Últimos jogos de Joan JordánFlashscore

- O Estrela, na época passada, lutou até ao final mesmo para conseguir a permanência. Este ano começa bem, empata com o Sporting, só perdeu o último jogo antes da paragem. Como é que vê a trajetória da equipa até aqui?

- Sim, informei-me um pouco sobre a história do clube e sobre a época passada, em que sofreram bastante, sobretudo na reta final. O que perceciono nesta temporada, e eu acredito muito que o futebolista é um estado de espírito, que depende da confiança e da cabeça, é que, com um bom estado de espírito, o jogador rende muito bem. Sem confiança, parece muito fraco. Na verdade, nesses momentos, o teu rendimento cai imenso. Temos muita gente jovem e, pela experiência que tenho, quando as coisas correm sobre rodas e a dinâmica é boa, tudo se torna muito fácil. No entanto, uma época dura 10 meses de competição e nem sempre há momentos bons. Surgem fases complexas, em que os resultados não aparecem e é preciso recorrer à experiência e ao saber ler os jogos, precisamente porque a equipa pode não estar bem ou precisa.

Faço uma avaliação muito positiva deste primeiro terço de época. A equipa fez coisas muito boas, mas estou convencido de que virão momentos menos bons. Oxalá demorem semanas ou meses a chegar, mas vão chegar, porque é o futebol e acontece até às melhores equipas do mundo. Por isso, temos de estar preparados para isso.

- E é aí que a sua experiência entra, não é?

- Exatamente. Vou observando e analisando para tentar ajudar. Falo com muitos dos meus companheiros e a minha perceção é que a equipa tem uma enorme margem de progressão a nível de jogo e de rigor. Temos jogadores com muito potencial e prevejo que, em maio, no final da época, se veja uma versão muito completa e forte do Estrela. É essa a minha sensação. Já nem falo em termos de tabela classificativa, embora oxalá nos leve a lugares mais cimeiros, mas sim de uma identidade e do crescimento do grupo. O crescimento coletivo fará os jogadores crescerem individualmente, são coisas que caminham juntas. Mas é preciso trabalhar muito, absorver o que o Pepa nos transmite e ir evoluindo aos poucos.

Como disse, temos muitos jogadores jovens e com pouca experiência que, numa boa dinâmica, rendem a alto nível, mas eu quero que continuem a render alto mesmo quando vier uma má fase. Essa será a ajuda que eu, o Rafa (Soares), o Pepa e outros temos de dar para a equipa não ir por ali abaixo.

Calendário do Estrela
Calendário do EstrelaFlashscore

- Falou dos jogadores. Já houve alguém no Estrela a surpreendê-lo?

- Só conhecia o Antonetti, com quem estive no Sevilha, e o Rafa, porque esteve no Eibar na altura em que eu também lá jogava e já o tinha visto jogar. De resto, praticamente mais ninguém. Por isso, a verdade é que bastantes jogadores me surpreenderam. Têm uma grande margem de melhoria e um talento individual muito bom. Falo muito com eles porque o objetivo deles tem de ser ambicioso. Falo com o Antonetti e digo-lhe: "Tens de marcar 15 ou 20 golos". Tem de ter essa ambição. Em todos os jogos, o objetivo tem de ser ajudar a equipa, dar a melhor versão e, a nível individual, marcar golos. Digo-lhes sempre isso, porque no mundo do futebol é preciso ser ambicioso e querer sempre mais. Porquê? Porque, por norma, quando as coisas correm bem, o ser humano acomoda-se e relaxa. Nós começámos bem, mas o relaxamento leva-te a coisas negativas e quando entras numa espiral negativa, é difícil sair de lá.

Por isso, insisto muito com vários deles: com o Antonetti, o Marcus, o Beni, o Alisson, o Eddy Doué... Falo com muitos e tento fazer-lhes ver que têm capacidade para ter uma carreira muito boa no futebol, mas precisam de ter noção de que, se não continuarem a dar tudo, terão uma carreira banal ou má, porque o futebol não espera por ninguém. Além disso, todos os anos aparecem miúdos a apertar-te os calcanhares. Eles têm excelentes condições, mas precisam de ter mesmo essa ambição de querer sempre mais e mais.

- Já falámos um pouco sobre o Pepa, mas como tem sido trabalhar com ele? As pessoas têm apreciado bastante o futebol do Estrela, que é muito virado para o ataque. A equipa tem sofrido alguns golos, mas também tem marcado muitos.

- Muito bom, tem sido uma surpresa muito agradável. Falei nisso numa conversa privada com o Johannes e falei-lhe muito bem do Pepa. Eu não o conhecia, tinha boas referências, mas surpreendeu-me muito. É fundamental que os treinadores deem ferramentas aos jogadores e não há assim tantos a fazê-lo. No mundo do futebol há muitos treinadores, mas encontrar quem te dê ferramentas chave para te tornar num jogador melhor não é fácil. Vi coisas de que gosto muito e o dia a dia é excelente.

É verdade que somos uma equipa muito atrativa de ver, porque até agora marcámos muitos golos e também sofremos muitos, mas espero, sinceramente, que encontremos esse equilíbrio. Venho de Espanha, onde acho que há um bocadinho mais de rigor tático, e tenho sobretudo a experiência do Sevilha do Lopetegui, em que passámos anos a ganhar muitos jogos por 1-0 ou 0-1. Isso levou-nos a ganhar títulos, a qualificarmo-nos para a Liga dos Campeões e a fazer história no clube. Acho que a equipa tem um potencial ofensivo muito bom, que deve continuar a ser potenciado porque é uma das nossas grandes virtudes, mas temos de melhorar a nível defensivo, sem dúvida. E quando falo de nível defensivo, não me refiro à linha defensiva, falo do coletivo. A equipa tem de permitir menos transições ao adversário, fazer mais faltas táticas e pressionar melhor.

Para mim é fundamental. Temos de estancar essa sangria de golos sofridos. Comento muito isso no balneário e estamos a dar mais ênfase a esse aspeto. É importante começar a manter a baliza a zero ou, pelo menos, não sofrer tantos golos. Aproveitando o potencial que temos e o facto de criarmos muitas ocasiões, se sofrermos muito pouco, vai ser uma época excelente e vamos ganhar muitos jogos.

Resultados do Estrela da Amadora
Resultados do Estrela da AmadoraFlashscore

- Por agora, a questão do rigor tático é a principal diferença que nota entre o futebol espanhol e o futebol em Portugal?

- Sim, sem dúvida. O que noto principalmente é isso. Há semelhanças entre o futebol português e o espanhol, mas, ao mesmo tempo, Espanha é muito forte a nível tático, se não uma das ligas mais fortes do mundo nesse aspeto. Aqui vejo jogos muito abertos, de constante parada e resposta, algo que raramente se vê em Espanha. Lá dá-se um grande ênfase aos pormenores táticos que podem fazer a diferença, porque cometer erros aí faz-te sofrer muito defensivamente.

A equipa deve manter tudo o que de bom tem, essa imprevisibilidade, esse talento puro de rua que me fascina e que não quero que se perca, mas, a nível defensivo, não podemos facilitar. A equipa precisa de ter melhor tomada de decisão em certos momentos, tornando-nos fortes sem bola, organizados e disciplinados. Não podemos conceder tantas transições.

Nós queremos transições a nível ofensivo, claro, porque temos potencial na frente e causamos muito dano. Mas não queremos que transitem contra nós. Quando o adversário transita, aproxima-se da nossa área e, mesmo que a jogada não termine em golo, pode resultar num canto ou numa falta lateral e o golo acaba por surgir aí. Não é a mesma coisa defender três cantos ou defender 12, defender quatro livres laterais ou defender 10. Uma coisa leva à outra. É algo que vamos melhorar, estou convencido disso, e estamos a trabalhar no assunto. É um processo que não muda de um dia para o outro, mas vai dar-nos muitos pontos.

- Recentemente entrevistámos o Joel Robles, que também esteve em Sevilha, no Betis, e ele dizia-nos que a Liga Portugal não é devidamente valorizada em Espanha, apesar de haver cada vez mais espanhóis a jogar cá. Concorda com essa visão?

- A minha perceção é de que a Liga de Portugal se tem valorizado. Sinto que hoje em dia se dá mais importância ao campeonato português e que as pessoas lá fora acompanham mais do que há cinco, 10 anos. Nesse aspeto, acho que melhorou. Mas é verdade que, vista de fora, ainda pode ser encarada como uma liga menor. No entanto, assim que chegas aqui, vês imenso talento. Sou sincero: há jogadores com uma qualidade enorme. Para que a Liga continue a crescer, esse talento individual tem de servir o coletivo. Caso contrário, os grandes talentos individuais aparecem e saem rapidamente de Portugal. Se esse rendimento individual for posto ao serviço da equipa e se aprimorarem certos aspetos táticos, a Liga terá um crescimento tremendo, porque a matéria-prima está cá. Há jogadores que, individualmente, até podem não ser extraordinários, mas coletivamente são de topo mundial: percebem o jogo, sabem quando acelerar, quando abrandar. Essa inteligência coletiva é o mais difícil de alcançar no futebol.

Joan Jordán esteve sete épocas ligado ao Sevilha
Joan Jordán esteve sete épocas ligado ao SevilhaJOAQUIN CORCHERO / SPAIN DPPI / DPPI VIA AFP

"Orgulho-me muito de ter tido a cabeça no sítio certo"

- Já falámos sobre o Estrela e sobre a Liga Portugal. Apareceu ainda jovem no Espanhol e fez quase 250 jogos na LaLiga. Olhando para trás e fazendo uma retrospetiva, o que é que mais o orgulha no seu trajeto como futebolista?

- Aquilo de que mais me orgulho e que me deixa mais satisfeito é ter estado tantos anos ao mais alto nível. Penso que é o mais difícil na carreira de um futebolista. O desporto de elite é muito exigente e há uma pressão mental enorme.

- Até porque a concorrência é grande e toda a gente quer chegar ao topo...

- Claro, é exatamente isso. Por isso fico feliz por ter tido uma progressão muito boa e ter chegado a patamares que nunca imaginei alcançar. Estar tantos anos na LaLiga, viver tantas experiências, jogar a Liga dos Campeões, ganhar duas Ligas Europa, disputar a Supertaça Europeia, lutar até pelo título de campeão espanhol num dos anos... São vivências incríveis. Manter esse nível durante sete ou oito anos é extremamente difícil, porque há lesões, mudanças de treinador, trocas de clube e, se o contexto não ajudar, a carreira de um jogador pode descambar rapidamente. Orgulho-me muito de ter tido a cabeça no sítio certo e de saber valorizar onde estava, algo em que o apoio da minha família foi fundamental, o que me permitiu manter-me no topo durante muitos anos.

- Depois dessa afirmação no Eibar de Mendilibar, deu o salto para um clube como o Sevilha, que nessa altura lutava pelos lugares de Liga dos Campeões e conquistava a Liga Europa. Como foi essa mudança e como viveu esse salto na carreira?

- Felizmente foi um salto muito natural. No Eibar, sobretudo no meu segundo ano, alcancei um nível de jogo muito alto. O primeiro ano já tinha sido bom, foi um ano de adaptação em que joguei muito, fiz bons números e boas exibições, mas o segundo foi excecional. Não diria que foi o melhor ano da minha carreira, mas a nível de jogo esteve num patamar elevadíssimo. Quando fui para o Sevilha, vinha com uma confiança enorme do Eibar.

Números recentes da carreira de Joan Jordán
Números recentes da carreira de Joan JordánFlashscore

- Era aquilo de que falava sobre o Estrela, não é? O estado de espírito era completamente diferente.

- Exatamente, é mesmo isso. Acredito muito no impacto de estar num clube onde realmente te querem, onde o treinador aposta em ti e o contexto te favorece. Cheguei a Sevilha de forma muito natural e comecei a jogar desde o primeiro momento. O projeto do Sevilha nessa altura era incrível: as minhas primeiras quatro épocas lá foram históricas. Qualificamo-nos para a Liga dos Campeões, batemos o recorde histórico de pontos do clube e ganhámos duas Ligas Europa. Fizemos história e foi um salto determinante na minha carreira, permitindo-me atingir o meu nível máximo e encontrar a minha melhor versão.

Ainda assim, é preciso notar que para manter esse rendimento o contexto tem de acompanhar, bem como os teus colegas. Também passei por fases menos boas em Sevilha quando o contexto deixou de ajudar, quando a equipa estava desanimada ou havia muitas mudanças. Nesses momentos, manter um nível alto é extremamente difícil. É por ter passado por isso que tento passar essa experiência aos mais jovens do Estrela: é fundamental estarem preparados mentalmente.

- Nessas temporadas em que esteve em destaque em Espanha, chegou a falar-se da possibilidade de ser chamado à seleção espanhola? Fica alguma mágoa ou tristeza por não ter acontecido?

- Não, tristeza de todo. Tristeza jamais. Considero que a seleção espanhola é, atualmente, a melhor do mundo. Quando estava no meu melhor momento, os médios de Espanha eram os que eram, com o Busquets à cabeça e muitos outros.

- Acho que é sempre a posição mais difícil para se conseguir um lugar na seleção espanhola.

- Sem dúvida alguma, é a mais difícil. A minha sensação, e aquilo que me chegava, até por ter estado em pré-convocatórias, é que estive muito, muito perto de ser convocado. Em determinados momentos, pelo rendimento que estava a dar, senti que merecia ter ido. Numa seleção há várias paragens FIFA ao longo do ano e o momento dos jogadores passa por altos e baixos. Nas minhas fases mais altas, acho que devia ter tido essa oportunidade. No entanto, havia jogadores incrivelmente bons, sobretudo nessa posição.

Não cheguei a ir e pode ser uma espinha encravada, mas não me deixa triste. Só ficaria triste se tivesse condições para lá chegar e não tivesse dado tudo por isso. Mas eu dei tudo. Teria sido a cereja no topo do bolo, mas sinto um enorme orgulho em tudo o que fiz.

Calendário do Estrela
Calendário do EstrelaFlashscore

- Uma vez mais, a seleção espanhola tem uma geração fortíssima de médios. Como médio, qual é o seu jogador de eleição nesta altura, aquele que mais gosta de ver jogar?

- Tenho dois, não te posso dizer só um: para mim são o Rodri e o Pedri. São ambos diferenciados, cada um à sua maneira. Se tivesse mesmo de escolher apenas um, talvez ficasse com o Pedri, embora o Rodri seja fundamental e eu adore o seu jogo. Partilhamos os mesmos agentes, por isso acompanho a trajetória do Pedri desde que saiu dos juvenis em Gran Canaria até ao Las Palmas e Barcelona. Se olhares para ele, à primeira vista não é forte, não é rápido nem sobressai pelo físico, mas faz tudo bem. A cabeça dele funciona a duas mil rotações por hora: executa rápido, conduz bem, atrai a pressão, percebe o jogo, posiciona-se e perfila-se na perfeição. Faz rigorosamente tudo bem.

Dou muito valor aos jogadores que entendem o jogo e tomam boas decisões. Isso não depende apenas do talento individual, mas sim do talento mental. Compreender o jogo é difícil, mas se treinares e prestares atenção, vais tomando melhores decisões. Muitas vezes o jogador fecha-se no seu casulo, recusa-se a mudar, e é aí que se marca a diferença entre os melhores do mundo, os bons jogadores e os normais. Nisso, o Pedri é extraordinário.

- Portugal também não está mal servido de médios, diga-se. Pode haver um reencontro entre Portugal e Espanha na Liga das Nações. Acha que desta vez Espanha consegue o pleno e juntar a Liga das Nações ao Mundial e ao Europeu?

- É muito difícil, porque estamos a banalizar o que é extraordinário.

Joan Jordán sobre as dificuldades do Sevilha
Joan Jordán sobre as dificuldades do SevilhaJOAQUIN CORCHERO / SPAIN DPPI / DPPI VIA AFP/Opta by Stats Perform

- Sim, há jogadores que ainda nem sabem o que é perder pela seleção espanhola...

- Exatamente. O Lopetegui dizia-nos muito essa frase no Sevilha, porque estávamos sempre a fazer história: "Não podemos dar normalidade ao que é extraordinário". O que Espanha está a fazer não é normal. Teve momentos de altos e baixos desde 2010, mas a projeção e a consistência que tem mantido não são normais. Não seria normal continuarem a ganhar tudo, porque isso é fora de série. Para mim, são os favoritos, sem dúvida.

Portugal tem uma seleção incrível e médios de altíssimo nível de que também gosto muito, mas olho para Espanha e transmite-me uma enorme segurança. No arranque do Mundial não começaram da melhor forma, mas à medida que os jogos passavam via-se que iam ganhar. Quando assumem o controlo do jogo, torna-se quase impossível vencê-los. Eliminaram seleções de topo como a Argentina e a França. Dito isto, Portugal tem um nível elevadíssimo e há várias seleções capazes de complicar, mas Espanha parte, sem dúvida, como a principal favorita.

"O meu sonho é ganhar a Taça de Portugal"

- Depois de tantos anos num clube como o Sevilha, o que é que traz dessa experiência para o Estrela, agora com 32 anos?

- Posso trazer muitas coisas. Estive sete temporadas no Sevilha, que é o clube da minha vida, e vivi lá coisas incríveis, mas também momentos difíceis. Sete anos no Sevilha, com a exigência que aquele clube tem, a dimensão que tem e a massa adepta tão incrível como exigente, valem por 25 anos. É uma pressão diária enorme em todos os aspetos.

Mas, se tivesse de destacar uma ou duas coisas, seria o aspeto mental. Para mim, a cabeça é o mais importante no futebol. Dou-te um exemplo: quando estive emprestado um ano ao Alavés, estávamos na zona de despromoção e tivemos uma reunião com o presidente e os capitães, onde eu também estava. Transmiti-lhes o mesmo que quero transmitir aqui: no Sevilha cheguei a jogar com futebolistas que tinham acabado de ser campeões do mundo pela Argentina, como o Acuña ou o Papu Gómez, tínhamos uma equipa de topo e, mesmo assim, estivemos na zona de descida. Não conseguíamos sair daquela espiral negativa porque mentalmente a equipa não estava bem. Isso faz com que o grupo perca confiança e se comece a desunir, porque o futebol nos afunda na tristeza quando não se ganha a ninguém. E eu pensava: "Como é que com estes mesmos jogadores ganhávamos aos melhores do mundo e agora não conseguimos ganhar a ninguém?".

Joan Jordán, jogador do Estrela
Joan Jordán, jogador do EstrelaCF Estrela da Amadora

Por isso valorizo tanto o estado de espírito, a ambição, a exigência e a vontade de melhorar. É essa mentalidade que quero transmitir aqui. Falo com os miúdos e pergunto-lhes: "Querem ganhar milhões? Querem fazer uma grande carreira?". Têm de ter essa ambição e recusar o conformismo. Sou muito honesto: cheguei aqui este ano e, embora saiba que é extremamente difícil, o meu sonho é ganhar a Taça de Portugal. Quero ganhá-la! Sei que é difícil, mas quero. Por isso quero colocar na cabeça dos meus colegas que, quando formos jogar à casa do Fazendense, temos de ganhar. Ponto final. E que é preciso sonhar.

O meu desportista favorito é o Rafa Nadal, é o meu grande ídolo no desporto, e quero transmitir-lhes esses valores e essa mentalidade. Eles têm uma carreira inteira pela frente e o clube vai crescer. O crescimento deles e o do clube vão andar de mãos dadas: se um jogador hoje vale um milhão e no verão o clube o vender por 15, ficam todos a ganhar. Mas, para isso, é preciso ter primeiro humildade, porque ainda não conquistaram nada, e depois uma ambição feroz de querer engolir o mundo. Quero levar o Estrela o mais alto possível e incutir-lhes o objetivo de jogarem nos melhores clubes da Europa e do mundo. Se pensarem assim, vão evoluir constantemente. As dúvidas e os receios aparecem rápido, por isso temos de garantir que, à medida que progridem, absorvem as coisas certas para se tornarem melhores jogadores.

- Quando terminar a sua passagem pelo Estrela, o que gostaria que as pessoas em Portugal e no clube dissessem sobre si?

- Vim para aqui com um objetivo individual muito claro: reencontrar-me, ser feliz, apresentar uma excelente versão de mim próprio, desfrutar do futebol e jogar, que é o que todos queremos. Além disso, comprometi-me com o Johannes e com o Pepa a ajudar os mais jovens. É algo que me sai do íntimo: quero ajudá-los a tornarem-se melhores futebolistas e mudar-lhes um pouco a mentalidade.

Quero transmitir valores e bons hábitos todos os dias. Quero ser uma referência para eles através do meu trabalho. Procuro ser extremamente profissional e cuidar de mim em todos os aspetos. Se um miúdo de vinte anos me ver a fazer isto com a experiência que tenho, vai pensar: "Se o Jordán faz isto, talvez eu também deva fazer". O meu único objetivo nesse aspeto é ajudá-los. Para que no dia de amanhã, quando nos voltarmos a cruzar no mundo do futebol, porque nos cruzamos sempre, eles possam dizer: "Aquele tipo veio para o Estrela, quis ajudar toda a gente desde o primeiro dia, tinha uma mentalidade incrível. Tiramos-lhe o chapéu". É esse o meu grande objetivo aqui.

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