Acompanhe o FC Porto-Alverca no Flashscore
O Alverca está de regresso ao principal palco do futebol português e a viver uma temporada marcante. Após 21 anos de ausência da Liga, os ribatejanos garantiram a manutenção com três jornadas ainda por disputar, somam 38 pontos e estão a apenas cinco de igualar a melhor pontuação de sempre do clube, registada em 2000/01.
Num percurso que contrariou expectativas, a equipa orientada por Custódio Castro afirmou-se com consistência e identidade competitiva. Chiquinho, um dos protagonistas desta caminhada, faz o balanço de uma época de superação e aponta à ambição de continuar a elevar o Alverca no futebol português.
Objetivo manutenção: "É um sabor muito especial"
- Que sabor tem garantir a manutenção ainda antes do final do campeonato?
É um sabor muito especial. Era o objetivo que traçámos no início da época e, nesta fase, já o termos alcançado dá-nos uma sensação muito boa. Ainda por cima porque sabemos que o grupo foi bem construído, as pessoas foram escolhidas a dedo e todos fizeram o seu trabalho da melhor forma para chegarmos a este ponto.
- Foi uma época que, mesmo assim, não deixou de ser complicada, certo? Houve muitos obstáculos pelo caminho.
Sim, claro. Como todas as equipas, tivemos altos e baixos. Mas acho que a equipa técnica soube unir-nos e os adeptos também tiveram um papel importante, sobretudo nos momentos mais difíceis. Houve fases em que parecia, para quem estava de fora, que não estávamos bem, mas dentro do grupo sabíamos que estávamos no caminho certo.

- Cada jogo era uma luta.
Exatamente. Para muitas equipas, sobretudo no início da época, o Alverca era visto como uma equipa onde era 'obrigatório' ganhar pontos. Pensavam que seriam seis pontos garantidos. Mas nós provámos o contrário dentro de campo. Mostrámos que o Alverca é muito mais do que isso e que não pode ser visto com desvalorização.
- Foi a melhor prenda que podiam dar aos adeptos, depois de tantos anos fora do principal palco do futebol português?
Sim, sem dúvida. Era algo que os adeptos já desejavam há muito tempo. Estar de volta à Primeira Liga e garantir logo a manutenção na primeira época é algo que todos mereciam.
Os elogios a Custódio Castro: "Está à vista de todos"
- O Chiquinho não foi totalista na equipa devido a uma lesão que o afastou cerca de 12 jogos. Ainda assim, os números mostram impacto: dois golos e cinco assistências, a maioria após o regresso. Sente que, sem essa lesão, a época poderia ter sido ainda melhor?
Sim. Trabalhei muito na pré-temporada e vim para o Alverca precisamente com o objetivo de ter uma época consistente, com bons números e voltar a sentir-me feliz dentro de campo. Os primeiros jogos foram mais difíceis, também por alguma falta de entrosamento, e acabei por me lesionar cedo. Estive algum tempo fora, mas quando voltei já tinha as ideias muito claras sobre o que queria fazer e isso refletiu-se nos números.
- Olhando para o grupo, falou-se muito no início da época que era uma equipa praticamente nova. Não foi fácil assimilar os processos do treinador?
Não, não foi fácil. Muitos jogadores jovens, de diferentes nacionalidades… Mas o mister foi muito inteligente na forma como geriu isso. Deu tempo, insistiu na ideia de jogo, pediu confiança com bola, sem medo. Acho que o segredo foi mesmo acreditarmos uns nos outros e no que ele nos transmitia.

- O que dizer do trabalho do mister Custódio Castro?
Acho que está à vista de todos. Para um treinador, fora as equipas que lutam pelo título, este é dos trabalhos mais difíceis: uma equipa nova, primeiro ano na Liga, e conseguir estes resultados… fala por si. É mérito dele e da equipa técnica.
- Ele foi jogador de topo. Essa experiência também vos ajudou?
Sim, muito. Ele tenta passar-nos isso todos os dias: o que é lidar com pressão, o que é ser jovem numa liga exigente. Dá-nos calma, mas também exige muito trabalho. Isso é essencial, sobretudo num grupo jovem como o nosso.
"As condições estão a melhorar muito no Alverca"
- Depois da subida e agora da manutenção, o Alverca é um clube com futuro na Primeira Liga?
Sem dúvida. As condições estão a melhorar muito, há investimento, um novo estádio, jogadores jovens… Acho que o clube está a dar passos muito importantes para se afirmar e se tornar um bom clube na Primeira Liga.
- Sentiram esse esforço da administração ao longo da época?
Sim. E isso também nos motivou. Quando sentimos que estão a fazer tudo por nós, sentimos que temos de retribuir dentro de campo. Garantir a manutenção foi a melhor forma de o fazer.
- Nota-se uma grande ligação entre equipa e adeptos. Isso foi determinante?
Foi muito importante. Há momentos em que estamos fisicamente esgotados, mas ouvir os adeptos dá-nos força para continuar. Eles só pedem uma coisa: que demos tudo dentro de campo. E foi isso que tentámos fazer.
- Houve um momento-chave na época?
Houve vários, mas diria a vitória frente ao Famalicão. Foi um ponto de viragem. Depois ganhámos ao Moreirense e aí sentimos que estávamos no caminho certo.
A nega a Cabo Verde: "Seria injusto roubar o sonho a alguém"
- A presença de Vinícius Júnior como investidor dá outra visibilidade ao clube. Isso pesa na decisão de vir para o Alverca?
Pode atrair, mas não foi isso que me trouxe. O que me convenceu foi o projeto e as pessoas. E acho que a maioria do grupo diria o mesmo. Ele pode ser um grande jogador a nível mundial, mas ele não vai jogar aqui. Por isso, temos de fazer por nós. O importante é o que podemos construir aqui.
- Já foi campeão da Liga 2 e venceu a Liga Revelação. Que títulos ambiciona?
Sempre fui habituado a ganhar e quero voltar a isso. O sonho passa por conquistar o campeonato nacional, uma Liga dos Campeões, um Mundial… são objetivos que qualquer jogador tem desde criança.
- Foi internacional jovem por Portugal e podia representar Cabo Verde. Arrependeu-se da decisão?
Não. Fico muito feliz pelo percurso de Cabo Verde (rumo ao Mundial-2026), mas não faria sentido agora mudar. Os meus objetivos são outros. Eu cresci aqui e sou português. Seria injusto roubar o sonho a alguém que fez esse caminho. Fizeram um percurso lindo. Vou apoiar, claro, mas a minha decisão está tomada.
- Que hipóteses dá a Cabo Verde e a Portugal no Mundial?
Cabo Verde pode passar a fase de grupos. Depois tudo é possível. Portugal tem um plantel incrível. Temos de acreditar que é possível lutar pelo título.

"Samu Costa tem feito um grande trabalho"
- Partilhou balneário com Samu Costa. É justa a chamada à seleção?
Sem dúvida. Às vezes quem joga fora de Portugal é menos valorizado, mas ele tem feito um grande trabalho. É um prémio justo.
- E Vedat Muriqi, que continua em grande forma?
É um jogador incrível, mas acima de tudo uma pessoa extraordinária. Deus dá esses prémios a pessoas boas. Merece tudo o que está a alcançar.

"Custou muito ver o Wolverhampton descer de divisão"
- A passagem pelo Wolves deixou marcas. Custou ver o clube descer?
Custou muito. Tenho lá amigos e é um clube que me diz muito. Quando passamos por um clube, ele fica sempre connosco. Uma vez Wolves, Wolves para sempre.
- Para terminar: que ensinamentos trouxe do estrangeiro?
Não ter medo de errar. Prefiro errar a tentar do que não tentar. É isso que levo para o campo e para a vida.
- Última pergunta: feliz em Alverca. Vai continuar?
Estou muito feliz aqui. No futebol nunca sabemos o dia de amanhã, mas se continuar, continuarei feliz.

