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Exclusivo com Dálcio: "O FC Porto tem sido mais consistente, mas acredito que o Benfica vai ser campeão"

Dálcio recordou os vários capítulos da sua carreira
Dálcio recordou os vários capítulos da sua carreiraSportimage, Sportimage Ltd / Alamy / Profimedia, Flashscore

Numa carreira recheada de peripécias, Dálcio Gomes, nesta conversa com o jornalista João Paulo Ribeiro, destaca a glória vivida no APOEL mas também, pela negativa, o racismo sofrido na Sérvia, quando jogou no Estrela Vermelha. Antigo extremo de Sporting, Benfica e Belenenses, Dálcio encontrou a felicidade no Chipre e na seleção da Guiné-Bissau.

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- Dálcio, passou pela formação do Sporting, pela equipa B do Benfica e pela equipa principal do Belenenses. Está agora no APOEL, do Chipre, pela segunda vez, onde é titular indiscutível, e continua a representar a seleção da Guiné-Bissau. Considera que está a viver o melhor momento da sua carreira?

Antes de mais, obrigado pelo convite. Acho que sim. Quando saí do APOEL para o Estrela Vermelha, pensava que estava no auge da minha carreira, mas agora sinto que estou a viver o meu melhor momento. Tanto fisicamente como a nível pessoal, sinto-me muito bem. Concordo que estou a atravessar a melhor fase da minha carreira e este início de época também tem sido excelente.

- É a sua segunda passagem pelo APOEL. Está feliz no clube, na cidade e no Chipre?

Sim, muito feliz. Costuma dizer-se que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes, mas aqui sempre me senti em casa. Depois de um ano difícil, após a minha saída do APOEL, decidi regressar precisamente por isso. Sinto-me em casa, sou muito acarinhado e o clube dá-me todas as condições para mostrar o meu futebol.

- Teve oportunidade de assistir ao jogo entre o Benfica e o Omonia, no Chipre, para a Liga Europa?

Sim, fui ver o jogo. Pedi os bilhetes ao irmão do Banjaqui, que joga comigo na seleção da Guiné-Bissau. Conseguiu arranjar-me três bilhetes, para mim e para a minha família, e fomos assistir ao encontro.

- Como foi essa experiência? Acabou por voltar a sentir um pouco do ambiente do futebol português.

Exatamente. Já não assistia a um jogo de uma equipa portuguesa no estádio há muitos anos. A última vez que tinha estado perante uma equipa portuguesa foi como adversário, mas assistir a um jogo na bancada já não acontecia há muito tempo. Foi uma experiência muito boa. Estar na bancada a ver uma equipa portuguesa, sobretudo o Benfica, deu-me uma felicidade incrível.

Dálcio Gomes passou pelo Belenenses
Dálcio Gomes passou pelo BelenensesPEDRO FIUZA / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

"Cheguei a dizer ao meu pai que já não queria continuar a jogar"

- Olhando para o seu percurso de formação em Portugal, houve algum treinador ou jogador que o tenha marcado especialmente? Que recordações guarda dessa fase da carreira?

Lembro-me de praticamente tudo. Foi um processo difícil, sobretudo na formação do Sporting, onde acabei por ser dispensado porque consideravam que era demasiado baixo. Para uma criança, ser dispensado de um clube daquela dimensão é quase como ver um sonho desmoronar-se. Foi um momento muito complicado.

Felizmente, consegui dar a volta à situação. O Belenenses foi o clube que me lançou para a ribalta, mas foi no Benfica que encontrei todas as condições para perceber verdadeiramente o que significa ser futebolista.

O treinador que mais me marcou foi o Hélder Cristóvão. Estivemos juntos durante um ano e meio e foi alguém que me acarinhou desde o primeiro dia em que cheguei ao Seixal.

Foi também ele que mudou a minha posição em campo. Durante toda a vida tinha jogado a extremo, mas o Hélder dizia-me constantemente: 'Não, tu não és extremo, és um oito.' Insistiu tanto nessa ideia que, depois de meia época no Benfica, comecei a temporada seguinte como médio. E, desde então, continuo a jogar nessa posição.

- No Belenenses e, posteriormente, no Benfica B, conseguiu recuperar aquela alegria de jogar futebol?

Exatamente. No meu primeiro ano no Belenenses consegui destacar-me bastante. Depois, na segunda época, tive um período de seis meses em que joguei pouco. Também era muito jovem e essas situações fazem parte da aprendizagem. Nessa altura, já estava emprestado pelo Benfica, que acabou por decidir que deveria regressar para integrar a equipa B.

Foi uma mudança difícil, porque vinha de uma realidade de Primeira Liga e estava a regressar a uma equipa B. Nos primeiros seis meses custou-me compreender e aceitar a situação. Mas, na época seguinte, consegui encará-la de outra forma. Fizemos uma temporada incrível. Acho que terminámos em terceiro lugar, se não estou em erro, embora já não me recorde exatamente da classificação. Foi uma época muito positiva, que acabou por me abrir as portas do Rangers.

- Voltando à sua saída do Sporting, foi um período particularmente difícil. Hoje fala-se muito da saúde mental dos futebolistas, mas nem sempre se tem essa preocupação com os jovens da formação. Chegou a pensar em desistir do futebol?

Sim, foi muito difícil. Cheguei a dizer ao meu pai que já não queria continuar a jogar. O Sporting tinha sido o meu primeiro grande clube e, além disso, o meu pai é sportinguista. Por isso, aquela saída teve um impacto enorme em mim. Disse-lhe várias vezes que não queria continuar, mas ele insistiu para que não desistisse.

Acabei por regressar ao Foot 21, onde já tinha jogado anteriormente. Só que, nessa altura, já não encarava o futebol com o objetivo de me tornar profissional. Jogava apenas por diversão. Felizmente, com o apoio da minha família, consegui ultrapassar essa fase e chegar onde estou hoje.

Dálcio Gomes com as cores do Estrela Vermelha
Dálcio Gomes com as cores do Estrela VermelhaDimitrije Vasiljevic / Alamy / Profimedia

"No Estrela Vermelha vivi situações de racismo e decisões que não dependiam do treinador"

- Continua a acompanhar o campeonato português? Dos três grandes, o FC Porto foi o único em que não jogou e é precisamente a equipa que lidera isoladamente a classificação. Quem considera favorito ao título?

Sim, acompanho. O FC Porto está na liderança e tem sido a equipa mais consistente dos três grandes, mas acredito que este ano o Benfica vai ser campeão. O Sporting tem perdido alguns pontos que considero desnecessários. Para uma equipa grande, perder pontos daquela forma, sobretudo em casa, é complicado.

Ainda para mais tratando-se de um Sporting que tem conquistado títulos nos últimos anos. O FC Porto tem demonstrado maior consistência, mas, mesmo assim, acredito que o Benfica vai conquistar o campeonato.

- Já pensou na possibilidade de um dia regressar a Portugal para terminar a carreira?

Sim, é um objetivo que tenho. Agora, se me perguntares em que clube, não sei responder. Nunca sabemos para onde o futebol nos pode levar. Mas gostava muito de terminar a minha carreira em Portugal. É algo que tenho em mente.

- Ainda falta muito tempo para isso, não é?

Espero que sim! (risos) Hoje em dia vemos jogadores a terminar a carreira aos 39 ou 40 anos, embora não acredite que vá jogar até essa idade. Mas espero que ainda falte muito tempo para terminar. Tenho alguns amigos que já deixaram de jogar e sinto muitas saudades de os ver dentro de campo. Por isso, nem quero pensar nessa possibilidade para já. Entretanto, já entrei na casa dos 30 anos, mas a verdade é que ainda não me sinto nada com essa idade!

A carreira de Dálcio
A carreira de DálcioFlashscore

- Ao longo da carreira, teve várias experiências no estrangeiro, passando por países como a Escócia, a Grécia, a Sérvia e a Turquia, além do Chipre. Como recorda essas etapas e o que representaram para o seu crescimento?

Começando pela Escócia, foi uma experiência difícil. Quando cheguei, praticamente não falava inglês. Sabia apenas o básico e o inglês dos escoceses é muito diferente daquele a que estamos habituados. Além disso, era um campeonato muito físico e eu era bastante magrinho. Também jogava fora da minha posição habitual. Felizmente, tive a sorte de encontrar três portugueses no Rangers: o Bruno Alves, o Fábio Cardoso e o Candeias. Foram muito importantes para mim.

Do ponto de vista desportivo, foi complicado. Passei praticamente um ano sem jogar. Acho que fiz apenas cinco jogos durante esse período. Mas, enquanto homem, cresci e aprendi muito. Apesar das dificuldades, consegui lidar bem com a situação.

- Depois seguiu-se a Grécia...

Na Grécia, a experiência foi bastante diferente. Também encontrei portugueses, primeiro no Panathinaikos e depois no Ionikos. Foi um país que me recebeu muito bem e onde vivi momentos muito positivos.

Depois surgiu o Chipre, que foi incrível. Quando cheguei ao APOEL, não tinha verdadeira noção da dimensão do clube. É um clube gigante. A primeira época não correu tão bem, porque terminámos em segundo lugar, mas a segunda foi absolutamente incrível. Conquistei o meu primeiro troféu, algo que nunca tinha vivido na carreira. Foi uma experiência que nunca imaginei ter num clube como o APOEL.

Na Sérvia, em termos da dimensão do clube, acho que atingi o auge. O Estrela Vermelha é um clube gigantesco e deu-me a oportunidade de disputar a Liga dos Campeões. Jogar essa competição era um sonho de criança e estou muito agradecido por o ter concretizado. Mas também foi uma experiência difícil, nomeadamente por algumas situações de racismo e por questões internas do clube.

O Estrela Vermelha é um clube onde existe muita política e onde a direção tem uma influência muito grande nas decisões desportivas. Eu tinha sido contratado por indicação do treinador. Quando cheguei, joguei os primeiros encontros ao lado do Inbeom, que está agora no FC Porto. Para mim, continua a ser um dos melhores médios com quem alguma vez joguei. Era um jogador incrível. Disseram-me que, quando ele saísse, seria eu a ocupar o seu lugar, porque já se sabia que iria ser vendido.

Só que, depois de ele sair e de garantirmos a qualificação para a Liga dos Campeões, o clube contratou dois médios de grande nome: o Elsnik e o Krunic. Foi nessa altura que percebi que havia decisões que não dependiam propriamente do treinador, mas sim da direção. O treinador falava comigo de vez em quando e chegou mesmo a pedir-me desculpa. Quando um treinador que te contratou vem pedir desculpa, percebes que alguma coisa não está bem.

Na altura, não compreendia o que estava a acontecer. Mais tarde, em janeiro, quando decidi sair, explicou-me como funcionavam as coisas e o que tinha acontecido. Mas já não havia nada a fazer. Preferi seguir em frente. Continuo a ter muito carinho por esse treinador, porque sei que não teve culpa de muitas das situações que aconteceram. Depois fui para a Turquia e aquilo foi uma autêntica loucura!

Estive lá de janeiro a maio e, em apenas quatro meses, tive cinco treinadores. Bastavam dois maus resultados para despedirem um treinador. Chegava outro, tinha três resultados negativos e também era despedido. Mudavam de treinador como quem muda de botas! (risos)

Os próximos jogos do APOEL
Os próximos jogos do APOELFlashscore

"Precisamos de passar por determinadas situações para evoluir"

- Apesar de todas essas dificuldades, sente que as experiências no estrangeiro o tornaram um jogador e uma pessoa mais completos?

Sem dúvida. Todas essas experiências me fizeram crescer, tanto como futebolista como enquanto homem. Acho que precisamos de passar por determinadas situações para evoluir e compreender melhor a realidade do futebol. Por exemplo, na Grécia vivi algo que nunca tinha experimentado: estar três ou quatro meses sem receber o salário.

São situações que nos obrigam a crescer, inclusivamente na forma como gerimos o dinheiro. Aprendemos a ter mais cuidado com aquilo que gastamos, porque percebemos que nem sempre vamos receber no final de cada mês.

No Chipre também passei por isso. Na minha primeira época, houve períodos de dois, três ou quatro meses sem receber. Quando vens de clubes como o Benfica ou o Rangers, onde sabes que o salário entra todos os meses, é um choque. Depois chegas a países como a Grécia ou o Chipre, recebes num mês e podes ficar dois ou três sem receber.

Tens de aprender a lidar com essa realidade. Os jogadores que já estão nesses campeonatos há vários anos compreendem melhor essas situações, mas, para quem chega de fora, é difícil. Com o tempo, ganhas experiência, adaptas-te e aprendes a gerir melhor essas dificuldades. São experiências que nos fazem crescer e perceber que existem realidades muito diferentes dentro do futebol.

- Dálcio, ainda havia outros assuntos que gostava de abordar consigo, nomeadamente o momento da seleção da Guiné-Bissau, mas vamos deixar essa conversa para uma próxima oportunidade. Foi um prazer conhecer melhor o seu percurso e as experiências que viveu ao longo da carreira. Muito obrigado pela disponibilidade e votos de muito sucesso para o futuro.

Muito obrigado. Fico à espera dessa próxima entrevista!

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