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Exclusivo com Ricardo Malafaia: "Farioli trouxe o ADN Porto e JJ conhece o futebol luso como ninguém"

Ricardo Malafaia
Ricardo MalafaiaArquivo Pessoal/Flashscore

Com passagens marcantes pela formação do FC Porto e pela equipa técnica principal do Estrela da Amadora, Ricardo Malafaia prepara-se para o próximo passo na carreira. Em entrevista ao Flashscore, o técnico e antigo jogador de 44 anos recorda o trabalho de potenciação de nomes como Rodrigo Mora, Edmund Tapsoba, Stephen Eustáquio e Tiago Gabriel, elogia o impacto de Francesco Farioli no Dragão e perspetiva o futuro da seleção nacional sob o comando de Jorge Jesus.

"Cumprimos objetivos no Estrela e valorizámos ativos como o Tiago Gabriel"

- Ricardo Malafaia, bem-vindo e obrigado por esta entrevista. Começava pelo fim: estás de saída da equipa sub-23 do Estrela da Amadora. Como foram estes dois anos na Reboleira?

Boa tarde. Desde já, eu é que agradeço o convite. Foram dois anos bastante positivos, na minha forma de ver, em que os objetivos propostos pela administração do Estrela da Amadora foram conseguidos. Aceitei com o maior gosto o convite que me foi feito, na altura pelo mister José Faria e pelo presidente Paulo Lopo, para integrar a equipa técnica deste novo projeto.

- Nestes dois anos, tiveste a oportunidade de trabalhar com grandes jogadores que ajudaste a evoluir e a valorizar...

Sim. Falar de apenas uma pessoa não condiz com a realidade: é sempre um trabalho em equipa, um conjunto de pessoas. Mas realmente houve alguns jogadores com quem trabalhei e que neste momento estão noutros patamares. O Tiago Gabriel foi o caso que mais me surpreendeu pela positiva na altura em que cheguei ao Estrela; hoje está no Lecce e fala-se de uma possível transferência por valores bastante significativos. Não foi só ele: o Sidny Lopes Cabral, que ainda agora fez um excelente Mundial, esteve connosco no Estrela, assim como Oumar Ngom e o Keliano. Além dos objetivos de manter o Estrela na Liga Portugal, conseguimos potenciar e valorizar os ativos do clube para depois serem vendidos, o que acho ser uma forma bastante positiva de ver o futebol.

Ricardo Malafaia no Estrela da Amadora
Ricardo Malafaia no Estrela da AmadoraArquivo Pessoal

- E qual é a tua situação atual? Estás pronto para novos desafios em Portugal ou no estrangeiro? Tens tido abordagens?

Neste momento estou à procura de um novo projeto. Continuo a apetrechar-me diariamente para novos desafios, seja em Portugal ou no estrangeiro. Inclusive, tenho estado a aprimorar o meu inglês, para estar totalmente preparado caso surja um projeto internacional. Estou aberto a novas oportunidades, tenho-me preparado diariamente e espero voltar ao ativo o mais breve possível.

A fábrica de talentos entre o Leixões e o FC Porto 

- Durante muitos anos treinaste equipas de formação no FC Porto e no Leixões. Fala-nos um pouco dessa ligação ao Dragão e dos jogadores com quem trabalhaste nessa altura.

É verdade. Quando deixei de jogar, comecei a minha carreira de treinador no Leixões, um clube que me diz muito. Para não me alongar demasiado - até porque não teria tempo para falar de todos -, destaco dois ou três nomes. Fomos buscar um jogador que na altura vi em vídeo e que hoje está num patamar muito elevado: o Edmund Tapsoba, que joga no Bayer Leverkusen. Mas também o Gonçalo Franco, que está no Swansea, o Milson, que está no Al Jazira, ou o Stephen Eustáquio, que fez parte desse projeto no Leixões. Não quero individualizar, mas há cerca de uma dúzia de jogadores dessa altura que estão em patamares muito altos.

Depois estive seis anos na formação do FC Porto, por onde passam muitos jovens de enorme qualidade, tal como acontece no Benfica, Sporting ou SC Braga e noutras equipas também. É preciso ter muito cuidado na avaliação dos jovens: de um momento para o outro eles dão-nos indicadores muito positivos de desenvolvimento, mas há faixas etárias em que temos de ter atenção, pois existem muitas variantes que não controlamos e que podem impedir a chegada ao futebol profissional. Como formadores num clube com essa dimensão, temos de ir aos detalhes, porque qualidade está lá toda.

Acompanhei as gerações de 2003 a 2008 no FC Porto. A geração de 2008 é a geração de ouro, não só do FC Porto, mas a nível nacional, porque é muito forte. Foram campeões da Europa e campeões do Mundo. E ainda houve muitos jogadores que não foram selecionados. Nesse aspeto, há que dar os parabéns ao mister Bino e desejar-lhe todo o sucesso, até porque na hora de selecionar não é fácil. Há muitos jogadores de 2008 com muita qualidade que nem foram convocados e de quem vamos ouvir falar daqui a uns anos.

Ricardo Malafaia ao serviço do FC Porto
Ricardo Malafaia ao serviço do FC PortoArquivo Pessoal

Analisando esses jovens que passaram por mim no FC Porto, há um jogador que está a sobressair e que, por muito que estivéssemos atentos na altura, talvez não prevíssemos uma margem de progressão tão rápida: o André Miranda. É um belíssimo extremo do FC Porto e era uma posição em que nem jogava lá. Mas posso falar também do Rodrigo Mora, do Martim Fernandes, do Tiago Silva, do Bernardo Lima, do Yoan (Pereira) ou do Mateus Mide. Temos que ir aos detalhes, porque cabe-nos dar-lhes as ferramentas necessárias para que, quando cheguem ao topo, estejam preparados para um mundo do futebol que é exigente e onde só os mais fortes resistem.

O FC Porto de Farioli e a escolha de Jorge Jesus

- Analisando o FC Porto da atualidade: como avalias o trabalho de Francesco Farioli ao sagrar-se campeão nacional?

Sem dúvida que fez um excelente trabalho. O mister Farioli chegou ao FC Porto e fez muito bem o trabalho de casa: soube trazer de volta o ADN e os valores FC Porto, que são inegociáveis e sustentam tudo o resto. Além disso, conseguiu o mais difícil no futebol: convencer os jogadores a jogar sem bola. Essa foi uma ferramenta muito válida na época passada. O FC Porto foi um justo campeão, embora o Sporting, o Benfica, o SC Braga ou o Gil Vicente tenham feito campeonatos muito interessantes. 

O mister Farioli conseguiu incutir na equipa exatamente o que pretendia e, para mim, são esses pequenos detalhes que fazem toda a diferença: o jogador ouvir, saber o que fazer e executar. O FC Porto foi uma equipa extremamente organizada em todos os momentos do jogo, com bola, sem bola, em que momentos podia atacar mais o campeonato ou dar prioridade às outras competições, sem nunca ter posto em causa o campeonato nacional. Claro que o FC Porto quer ganhar todas as competições, mas a prioridade foi o campeonato. O mister Farioli está a fazer um excelente trabalho a nível de resultados e, também, na valorização dos ativos e na aposta na formação. O FC Porto está novamente a apostar na formação e é algo fundamental para a sustentabilidade do clube.

Ricardo Malafaia dá indicações durante um treino
Ricardo Malafaia dá indicações durante um treinoArquivo Pessoal

- Achas que o FC Porto parte como favorito à revalidação do título?

A vantagem é mínima, talvez de 1% ou 2%, apenas pelo facto de ter sido campeão, ter mantido a espinha dorsal da época passada - que é uma vantagem - e estar a reforçar-se bem. Contudo, os rivais também se estão a capacitar muito bem e prevejo um campeonato português ainda mais competitivo este ano.

- Para terminar: como vês a nomeação de Jorge Jesus para o cargo de selecionador nacional?

Se há treinador que conhece o produto e o atleta português, é o mister Jorge Jesus. Foi uma excelente escolha do presidente da Federação, Pedro Proença. Gosto muito da forma como as equipas de Jorge Jesus jogam: com intensidade, qualidade, um jogo vertical e em alta rotação.

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Com o talento que o futebol português tem neste momento, ele vai ter um poder de escolha enorme. Não vai ser fácil, mas é melhor ter um grande leque de jogadores para escolher do que não o ter. Da forma como vi a conferência de imprensa, vem com uma motivação enorme e vai ter muito sucesso no futuro com este leque dos jogadores e os que estão para aparecer. Se há quem consegue extrair o melhor de cada atleta é o mister Jorge Jesus. Eleva o patamar dos jogadores e cria uma empatia muito forte com o grupo e com os adeptos. Tem tudo para ter muito sucesso na seleção nacional.

- Ricardo, muito obrigado e as maiores felicidades para o futuro.

Obrigado eu e continuação de muito sucesso para vocês.