20 anos depois de Henry, Vieira e Kanu, África continua a vibrar com o Arsenal

Saliba a celebrar o golo em West Ham com os adeptos.
Saliba a celebrar o golo em West Ham com os adeptos.JUSTIN SETTERFIELD/GETTY IMAGES VIA AFP

No guarda-roupa da influenciadora queniana Nana Owiti, dezenas de camisolas do Arsenal contam a sua paixão por este clube. Um laço inquebrável que remonta a há 20 anos, quando muitos jogadores negros brilhavam na equipa londrina, que se tornou imensamente popular em África.

"Henry fez-me apaixonar instantaneamente pelo Arsenal porque era tão bonito", sorri a trintona com três milhões de seguidores. "Depois voltei a olhar e vi o Sol Campbell, o seu corpo musculado. E de repente Kolo Touré, todos estes jogadores, todos estes jogadores negros".

Thierry Henry: internacional francês com raízes na Guadalupe e Martinica, cuja camisola com o número 14 Nana Owiti guarda religiosamente, a primeira do Arsenal que alguma vez comprou. Sol Campbell, britânico nascido em Londres, filho de jamaicanos. Kolo Touré, costa-marfinense.

Antes deles houve Ian Wright, outro britânico de origem jamaicana. Também houve os franceses Patrick Vieira, nascido em Dacar, Sylvain Wiltord, William Gallas e Nicolas Anelka, de origem antilhana. Ou o togolês Emmanuel Adebayor.

Jogadores brancos – os franceses Robert Pires e Emmanuel Petit ou o espanhol Cesc Fàbregas – também faziam parte dos pilares da equipa londrina.

Mas no fim, os futebolistas do Arsenal "eram parecidos comigo", recorda Nana Owiti, que destaca "a cor" das suas estrelas como o principal motivo para apoiar o clube: "Não era uma questão racial, mas sim um sentimento de pertença".

Entrevistado pela AFP em Nairobi durante um jogo do Arsenal, o zimbabueano Leslie partilha a mesma história.

"Tinha 12 anos. O Arsenal chegava a ter nove jogadores negros em onze. Eu conseguia identificar-me com eles", explica, sendo capaz de recitar de cor o onze-tipo do seu clube de há 15 anos.

Identificação

"Gosto do Arsenal por causa do Arsène Wenger", o francês que foi treinador do clube durante mais de 20 épocas (1996-2018), continua. "Foi um revolucionário, um visionário!".

"Arsène Wenger é um fator-chave" na atração que o Arsenal exerce em África, pois transformou o clube numa "equipa unificada" e diversa, concorda Emeka Cyriacus Onyenuforo, fundador e presidente do clube de adeptos do Arsenal na Nigéria, que cresceu muito depois de a estrela nigeriana Nwkankwo Kanu ter ingressado nos Gunners em 1999.

Muitos etíopes acreditam mesmo "que o Arsenal dá prioridade aos jogadores africanos", razão pela qual são adeptos do clube, confirma Akalework Amde, presidente do clube de adeptos dos Gunners na Etiópia.

Ao mesmo tempo, o Arsenal começou a somar vitórias: três títulos de campeão de Inglaterra em 1998, 2002 e 2004, uma série de 49 jogos sem perder em 2003-2004 que valeu aos seus jogadores a alcunha de "Invencíveis", uma final da Liga dos Campeões perdida por 2-1 em 2006 frente ao Barcelona.

Foi então que a Premier League iniciou a sua transformação internacional e entrou nos lares africanos através do canal por satélite sul-africano Supersport.

"Nos anos 1980, os quenianos viam futebol alemão, porque era o que passava na televisão. Depois, nos anos 1990, os jogos da Premier League começaram a ser transmitidos em direto", numa altura em que o Arsenal apresentava o seu "futebol bonito", observa Carol Radull, ex-jornalista desportiva e autoproclamada embaixadora do clube, cuja página de Facebook, segundo ela, é lida todos os meses por 70 a 80 milhões de pessoas.

Presidente adepto

As décadas seguintes, sem títulos importantes, não abalaram o amor por uma equipa que Raila Odinga, um dos autores da atual Constituição queniana, acompanhava com paixão e que morreu no ano passado. O presidente do Ruanda, Paul Kagame, cujo país é patrocinador do Arsenal através da campanha "Visit Rwanda", publica ocasionalmente sobre o clube no X.

Se África começou por adorar os Gunners devido aos seus jogadores negros, "agora os africanos gostam da equipa pelo que ela é", nota Robbie Lyle, fundador da Arsenal fan TV, que já percorreu os cinco continentes para conhecer os adeptos do clube.

Estes são "mais extrovertidos" em África, onde "por todo o lado, há sempre alguém com uma camisola do Arsenal", diz, acabado de regressar do Uganda.

Arsenal lidera a Premier League
Arsenal lidera a Premier LeagueFlashscore

Na semana passada, enquanto os Gunners se apuravam para a final da Liga dos Campeões (1-0 frente ao Atlético de Madrid), dezenas de quenianos eufóricos faziam soar vuvuzelas num bar dos subúrbios de Nairobi quando adeptas espanholas, desoladas, apareciam no ecrã.

Um deles, James Midumbi, chegou mesmo a acender um engenho pirotécnico dentro do bar após o jogo, dando um tom vermelho Gunner à festa.

Questionado pela AFP sobre os seus sentimentos poucos instantes depois, numa altura em que o Arsenal está também perto de conquistar o campeonato inglês, com cinco pontos de vantagem sobre o Manchester City, o Sr. Midumbi não escondeu as suas esperanças para os novos Gunners.

Para logo de seguida mencionar Thierry Henry, "que me fez gostar de futebol e do Arsenal", e Arsène Wenger, "que contratava muitos jogadores negros".