O surgimento da Premier League em 1992 foi um claro momento de viragem na história do futebol inglês, pois não só marcou a primeira grande vaga de jogadores estrangeiros, como abriu portas a patrocínios empresariais e outras oportunidades que antes seriam impensáveis.
O dinheiro entrou em força no desporto, os estádios foram reconstruídos em massa e o ballet do homem trabalhador rapidamente deixou de o ser.
Avançando até aos dias de hoje, com a multiplicação de proprietários de vários clubes e até de Estados, o futebol voltou a mudar. Alguns dirão que foi para melhor, outros que foi para pior.
Ascensão da Liga saudita
Talvez a mudança mais marcante seja precisamente a ascensão da Liga saudita. Ainda que seja relativamente menor em comparação com as congéneres europeias, os fundos ilimitados dos proprietários permitiram que alguns dos melhores talentos do futebol mundial fossem para lá jogar.
Cristiano Ronaldo continua a ser a principal referência, e a sua transferência para o Al Nassr foi, provavelmente, o momento-chave para convencer outros a seguir o mesmo caminho.
Summerville seduzido por salário anual de 13 milhões de euros
O mais recente é Crysencio Summerville, que, com 24 anos, é uma das estrelas europeias mais jovens a mudar-se para lá, claramente seduzido pelo alegado salário anual de 13 milhões de euros oferecido pelo Al Hilal. Para contextualizar, o seu contrato no West Ham era, alegadamente, de 2,7 milhões de euros por ano, pelo que é perfeitamente compreensível que o neerlandês queira agarrar esta oportunidade financeira com ambas as mãos.
O que isto demonstra, no entanto, é que os jogadores parecem agora ir para onde está o dinheiro, em vez de procurarem evoluir nas carreiras à espera que as melhores equipas se interessem pelos seus serviços, mesmo que isso lhes traga prejuízo financeiro pessoal.
Vale a pena questionar se Summerville poderá realmente voltar a ser considerado para a seleção dos Países Baixos quando está a jogar contra muitos jogadores que são ou locais sem grande currículo ou lendas europeias já na reta final das suas carreiras e à procura do último grande contrato.
A experiência de Darwin deve servir de aviso
Um dos últimos jogadores a mudar-se para lá, quando certamente ainda tinha muito para dar a outros clubes, foi o ex-Benfica, Darwin Núñez.
Depois de uma época algo desapontante pelo Liverpool, era previsível que o clube fosse tentar lucrar com a sua venda, mas, em vez de ouvir propostas da Europa ou da América do Sul, o jogador e os seus representantes, na sua sabedoria, aceitaram um acordo para o levar para o gigante saudita Al Hilal.
Com apenas 26 anos quando assinou pelo clube, o uruguaio estava, na verdade, no auge da sua carreira, e ainda assim optou por seguir o dinheiro. Agora, apenas um ano depois, quer sair depois de ter sido afastado pelo clube desde fevereiro, estando apenas elegível para jogos da Liga dos Campeões Asiática desde então, nenhum dos quais chegou a disputar.
O dinheiro não compra felicidade
Com o antigo colega do Liverpool Jordan Henderson também a sair da Arábia Saudita o mais rapidamente possível, e outros nomes de destaque a decidirem relativamente depressa que não é para eles (como Gabri Veiga, do FC Porto), seria de esperar que Summerville tivesse demorado mais tempo a decidir-se a mudar-se para o Golfo.
Agora, Darwin terá de encontrar um novo clube que dificilmente conseguirá igualar o seu alegado salário semanal de 470 mil euros no Al Hilal, tendo ainda de aceitar que perdeu grande parte do ritmo competitivo, já que só disputou cinco jogos – todos pelo Uruguai – desde fevereiro.
As sugestões de que poderia ir para o Atlanta United na MLS mostram, com todo o respeito, o quanto a sua cotação desceu desde que saiu do Liverpool.
A teoria de que "o dinheiro não compra felicidade" aplica-se certamente a muitos jogadores que se deixam facilmente convencer por aquilo que também será, provavelmente, um negócio lucrativo para os seus agentes.
Se os representantes tivessem realmente em mente os melhores interesses dos clientes, especialmente no caso de jogadores como Summerville, que têm, em teoria, o melhor das carreiras pela frente, então afastá-los-iam das riquezas inimagináveis que tantas vezes trazem armadilhas irreversíveis para a carreira.
