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Exclusivo com Álvaro Negredo: Os arrependimentos na Premier League, o "brinquedo" Valência e o "amigo Quaresma"

Álvaro Negredo jogou pelo Manchester City.
Álvaro Negredo jogou pelo Manchester City.PAUL ELLIS / AFP / AFP / Profimedia

Álvaro Negredo foi um dos avançados espanhóis mais fiáveis da sua geração. O ponta-de-lança nascido em Vallecas formou-se no Real Madrid antes de se destacar no Almería e no Sevilha, conquistando a Taça do Rei e garantindo uma transferência para o Manchester City, onde levantou a Premier League e a Taça da Liga. Fez também parte da seleção espanhola que venceu o Euro-2012, tendo sido titular na meia-final frente a Portugal.

Agora treinador adjunto do Sevilha Atlético, Álvaro Negredo falou em exclusivo ao Flashscore sobre a sua carreira do outro lado da linha lateral. Explicou porque é que Unai Emery o marcou mais do que qualquer outro treinador, a lesão no ombro que travou o seu ímpeto no Manchester City e porque gostaria de ter ficado mais tempo em Inglaterra. Fez ainda uma avaliação franca da gestão de Peter Lim no Valência, recordou o ambiente ensurdecedor no Besiktas e explicou que tipo de treinador quer ser.

- Começou a sua carreira no Real Madrid Castilla. Que memórias guarda desses primeiros anos? 

- Foi uma fase muito especial. Vim de Vallecas, de um bairro humilde, e quando assinei pelo Real Madrid Castilla, entrei num clube com tudo – os Galácticos, a pressão, tudo o que envolve o Real Madrid. O Castilla tinha acabado de subir à Segunda Divisão. Lembro-me de treinar com a equipa principal. O treinador era o Fabio Capello na altura, e chamou alguns de nós para treinar. Estava rodeado de grandes estrelas, como o Raul, o Benzema e o Cristiano Ronaldo. Foi uma experiência maravilhosa porque comecei a acreditar um pouco mais que talvez um dia pudesse mesmo chegar lá.

- Alguma vez sentiu, enquanto esteve no Real Madrid, que podia ter minutos na equipa principal?

- Era muito difícil porque havia muitos avançados na altura. Olhando agora para trás, havia cinco ou seis jogadores a lutar por esses lugares. Por isso, sabia que a oportunidade seria muito difícil de conseguir. Mas também sabia que, se não acontecesse ali, teria de procurar outro sítio onde pudesse evoluir. Claro que adorava ter conseguido vingar no Real Madrid. Toda a gente gostaria. Mas, sinceramente, olhando para a minha carreira, não me arrependo de nenhuma das decisões que tomei.

- Depois do Real Madrid, foi para o Almería e depois para o Sevilha, onde conquistou a Taça do Rei e tornou-se um dos melhores marcadores do clube. Foi o melhor período da sua carreira?

- Acho que sim. Sobretudo o final da minha passagem pelo Sevilha e o início no Manchester City. Penso que foi o melhor momento da minha carreira. Estava a jogar muito bem, fisicamente forte, e foi uma fase muito especial porque foi a primeira vez que joguei numa equipa a competir a esse nível. Ganhei o meu primeiro troféu, a Taça do Rei, e também conquistei dois troféus Zarra para o melhor marcador espanhol da liga. Tenho ótimas recordações dessa altura.

- Nessa altura trabalhou com treinadores de grande qualidade – Manolo Jiménez, Unai Emery, Marcelino e Manzano. Quem lhe deu os melhores conselhos?

- Unai Emery. Treinou-me no meu último ano no Almería e depois novamente no Sevilha. Acho que é um treinador que soube mesmo tirar o melhor de mim e sabia quando me puxar para render mais. Esse ano no Almería foi fantástico para mim porque foi a minha estreia na Primeira Divisão. Depois veio a mudança para o Sevilha e, a seguir, a transformação da minha carreira ao assinar por um clube como o Manchester City e terminar essa época com 31 golos nas duas competições em que jogámos. Acho que o Emery é um dos treinadores que mais me marcou como jogador.

Unai Emery treinou Álvaro Negredo no Sevilha
Unai Emery treinou Álvaro Negredo no SevilhaLAURENT GILLIERON / EPA / Profimedia

- Agora que também está a trabalhar como treinador, tem uma perspetiva diferente do jogo. O Emery já ganhou muito, mas ainda não treinou clubes como o Barcelona, o Bayern, o Real Madrid ou o Manchester City. Acha que merece treinar a esse nível?

- Acho que podia ter ido ainda mais longe. É verdade que tem a sua própria forma de trabalhar, embora tenha a certeza de que mudou um pouco ao longo dos anos. Quando trabalhei com ele, era um treinador que usava muito a análise de vídeo e dava muita importância ao adversário. Não sei se os melhores jogadores de clubes como o Real Madrid, o Barcelona, o City ou o Bayern Munique se adaptariam facilmente à sua forma de trabalhar, porque esses clubes são extremamente difíceis de gerir. Cada treinador tem a sua maneira de trabalhar e isso tem de ser respeitado. Aprendi muito com ele, mas também sei que era muito exigente. Tem de se estar preparado para isso. Se for preciso passar uma mensagem ou ganhar um título, tem de se estar preparado para a pressão. Em algum momento, acho que clubes desse nível vão ter de dar esse passo e confiar num treinador que seja o encaixe certo para cada equipa em particular.

- No Sevilha partilhou o balneário com Jesús Navas, Frederic Kanouté, Luis Fabiano e mais tarde Ivan Rakitic. Quem lhe fez os melhores passes?

- Tive a sorte de jogar com muitos bons jogadores. Com o Jesús Navas tive uma ligação especialmente boa. Estivemos juntos quatro anos no Sevilha e depois mais um ano no Manchester City, portanto cinco anos no total. O Rakitic era outro jogador que procurava sempre o avançado com os seus passes. Mas também tive uma ligação muito especial com o José Antonio Reyes. Era um jogador completamente diferente quando estava em campo. Sabia que, quando recebia a bola, tinha de correr, porque ele ia procurar esse passe em profundidade. Era também um jogador com quem tinha uma ligação emocional muito forte porque nos entendíamos muito bem e deu-me muito apoio, especialmente durante o tempo que estivemos juntos no Sevilha.

- A concorrência por um lugar na seleção espanhola era incrivelmente feroz nessa altura. Mas ainda assim fez parte da equipa que venceu o Euro-2012. É essa a maior conquista da sua carreira? E como foram esses anos com a La Roja?

- Para mim, só o facto de fazer parte de uma equipa assim já era um privilégio. Mesmo quando não jogava um minuto, estava feliz. Estava feliz por estar com eles e por treinar com eles. Tive a sorte de jogar dois jogos no Europeu, contra a Croácia e depois na meia-final frente a Portugal. Mas sabia quem estava à minha frente – Fernando Torres, (David) Villa, Fernando Llorente. Não joguei muito, e houve também jogos em que jogámos com o Cesc Fàbregas como falso nove. Mas, profissionalmente, vencer esse título foi a maior conquista da minha carreira e estou muito feliz por ter feito parte disso.

Negredo e Sergio Busquets em treino pela Espanha
Negredo e Sergio Busquets em treino pela EspanhaJAVIER SORIANO / AFP / AFP / Profimedia

- Nessa equipa estavam Xavi, Andrés Iniesta, David Silva e muitos outros grandes jogadores. Também referiu o Cesc Fàbregas. Olhando agora para a carreira dele, não só como jogador mas sobretudo como treinador, já via esse potencial quando jogava com ele?

- Sim. Há jogadores que têm uma forma especial de ver o futebol, de explicar as coisas e de perceber o jogo. Sente-se que podem seguir esse caminho. Senti isso com o Xabi Alonso, o Xavi Hernández e outros jogadores que depois se tornaram treinadores. Com o Cesc, senti o mesmo. Acho que foi um jogador incrível e, como treinador, já está a mostrar que percebe muito bem o jogo. Penso que vai crescer passo a passo, porque acredito que tem um grande futuro como treinador."

- Vê-o a tornar-se um dos melhores treinadores do mundo em pouco tempo?

- Acho que sim, mas não devemos apressar as coisas. Como treinadores, temos de aprender muito. Quando se viveu um lado do futebol como jogador, sabe-se como gerir um balneário porque já se passou por isso. Mas conhecimento e tomada de decisão são coisas diferentes. Como treinador, tem de se tomar essas decisões, fazer alterações, e às vezes acerta-se, outras vezes não. É isso que dá experiência. Também estou a começar como treinador e não vou apressar nada. Espero chegar ao topo um dia, mas quero estar muito bem preparado para todas essas decisões. O melhor é ir passo a passo, não dar saltos gigantes, porque assim também se pode sair magoado.

"Queria que fosse físico por causa de Pepe e Bruno Alves"

- Falemos de Vicente del Bosque. Sempre pareceu uma pessoa calma e serena. Foi titular por Espanha na meia-final do Euro-2012 frente a Portugal. Como é que ele lhe disse que ia ser titular e como foi esse momento para si?

- Era mesmo assim. Lembro-me de estarmos no hotel. Fizemos alguns alongamentos de manhã, depois fomos almoçar e, depois do almoço, chamou-me ao quarto porque queria falar comigo. Sabia que me ia dizer algo sobre a meia-final contra Portugal, por isso estava curioso. Mas ele estava incrivelmente calmo. Disse-me para estar tranquilo, para jogar como tinha jogado com a equipa e como tinha treinado com eles. Queria que fosse físico por causa dos centrais de Portugal na altura, o Pepe e o Bruno Alves. Eram muito físicos. Sabia que me sentia confortável no contacto, nos saltos e na disputa, por isso pediu-me para usar o corpo e confiar em mim. E foi isso que aconteceu. Passámos à final nos penáltis e acabámos por vencer o torneio. Foi um dia que nunca vou esquecer.

- Fez parte do grupo que não foi ao Mundial. Ficou desiludido?

- O que se pode fazer? Espanha sempre teve avançados de grande qualidade. Claro que gostaria de ter ido; não vou negar. Na altura, sim, fiquei desiludido porque estava a marcar golos e tinha feito uma boa época. Mas tem de se respeitar sempre as decisões. Agora que estou do outro lado, percebo que é muito difícil. Tem de se escolher o que se acha melhor para a equipa. Talvez naquele momento o Vicente achasse que outro jogador era a escolha certa. Mas, egoisticamente, como jogador, claro que fiquei magoado e desiludido. Acho que isso é perfeitamente normal. Agora que estou deste lado do jogo, vejo as coisas de forma diferente.

- O Manchester City apareceu em 2013. Marcou 23 golos na primeira época antes de uma lesão no ombro interromper a sua campanha. Alguma vez pensou como teria sido a sua carreira se não tivesse sofrido essa lesão?

- Sim, já pensei nisso muitas vezes. Acho que a lesão aconteceu num momento mesmo infeliz. Foi na meia-final contra o West Ham. Tínhamos ganho a primeira mão por 6-0 e estávamos a ganhar confortavelmente a segunda. Marquei dois ou três golos no primeiro jogo e depois mais dois no segundo. Estava em grande. No último minuto, fui a uma bola, tentei lutar até ao fim e lesionei-me. O problema foi que não parei de jogar. Nessa altura, o Kun Agüero e o (Edin) Dzeko também estavam lesionados, por isso não tínhamos muitas opções e eu queria continuar a ajudar. Mas como não recuperei bem, nunca voltei aos 100%. Quando se tem uma lesão e não se para, não se consegue render ao mais alto nível. O Kun e o Dzeko acabaram por regressar e continuaram a marcar golos, e tornou-se difícil voltar à equipa.

- Mencionou o Agüero e o Dzeko. Como era competir com eles? Havia rivalidade?

- Não, tive a sorte de ter uma relação muito boa com ambos. Entendíamo-nos bem. Eles já lá estavam há mais tempo e eu tinha acabado de chegar, por isso, sempre que jogava, tentava ajudar os dois e ser amigo deles, ajudá-los e ajudar a equipa. Lembro-me de jogar muitos jogos com o Agüero e o Dzeko. Quase sempre éramos uma combinação muito boa. Nessa época marcámos mais de 100 golos como equipa. Tínhamos um meio-campo muito forte com o Yaya Touré atrás de nós, jogadores que podiam marcar muitos golos, e o Jesus Navas e o James Milner também. Foi uma época fantástica porque ganhámos a Premier League e a Taça da Liga.

Negredo e Agüero celebram um golo pelo Manchester City
Negredo e Agüero celebram um golo pelo Manchester CityPeter Powell / EPA / Profimedia

- Agüero, já o mencionou e partilhou muito tempo em campo com ele. Como ex-colega, considera-o um dos melhores avançados da história da Premier League?

- Para mim, é um dos melhores avançados da história da Premier League. Pelo que vi e vivi, houve muitos grandes jogadores: Wayne Rooney, Harry Kane e outros. Mas tive a sorte de jogar com o Agüero e ver a diferença que fazia. Tudo parecia fácil quando ele jogava. Conseguia marcar, driblar, segurar a bola e combinar com os colegas de forma natural. Nesse sentido, para mim, pode ser um dos melhores avançados com quem já joguei. E tive a sorte de jogar ao lado de muitos jogadores muito bons.

- Falámos do Cesc Fàbregas como jogador e como treinador. Outro dos seus antigos colegas, o Vincent Kompany, está agora a fazer um trabalho muito interessante no Bayern Munique. Já via essas qualidades nele enquanto jogador?

- Sim, via essas qualidades no Vincent. Como capitão, como organizador, estava sempre a falar com o treinador e a comunicar com os jogadores. Mas, para ser sincero, não esperava que se tornasse treinador tão rapidamente, mas quando se começa a aproximar do fim da carreira de jogador, começa-se a pensar no que se quer fazer a seguir. Acho que estava muito, muito bem preparado mentalmente para ser treinador. Não esperava que evoluísse tão depressa, mas no fim merece tudo o que conquistou pelo trabalho que fez.

- Quem foi o adversário mais difícil que enfrentou na Premier League? Há algum que tenha ficado na memória?

- Houve vários. Lembro-me do John O'Shea. Acho que joguei contra o Sunderland quando cheguei ao Manchester City e houve um lance que me ficou na memória. Tinha chovido, houve uma tempestade, por isso o relvado estava cheio de lama. A primeira jogada foi uma bola longa; acho que o Joe Hart bateu a bola, saltei para tentar ganhar e o O'Shea veio por trás e pôs o joelho nas minhas costas quando já estava no ar. Caí na lama e olhei para a camisola. Pensei: 'É para isto que vim'. Havia também jogadores como o Kompany. Lembro-me de treinar contra ele; era incrivelmente agressivo e muito forte. Havia muitos jogadores físicos e agressivos nessa altura. Era difícil, mas até gostava do contacto. Gostava de disputar a bola e de entrar nos duelos, por isso não tinha problema com esse lado da Premier League.

- E qual foi o ambiente de estádio na Premier League que mais o marcou?

- Liverpool. Quando se entra em campo e se ouve o estádio a cantar o You'll Never Walk Alone, é um daqueles momentos que mexe mesmo connosco. Há situações em que, mesmo não sendo adepto dessa equipa, consegue-se apreciar. É igual aqui em Sevilha. Quando as pessoas vão ao estádio e cantam o hino do Sevilha em conjunto, mesmo não sendo de Sevilha, consegue-se arrepiar porque se sabe como vai ser o ambiente. Joguei pelo City e pelo Middlesbrough, e lembro-me de ir a esses estádios e ficar arrepiado. São momentos que não se esquecem.

- Chegou ao Valência em 2014, precisamente quando o projeto de Peter Lim estava a começar. As expectativas eram enormes, mas no fim o projeto não atingiu o seu potencial. Porque acha que isso aconteceu?

- No fim, acho que quando se compra um clube, quando se é presidente ou dono, tem de se estar acima do clube e realmente envolvido nele. Nos dois anos em que estive no Valência, acho que vi o Peter Lim uma ou duas vezes. Quase não o vi nesses dois anos. No fim, parecia um pouco como comprar um brinquedo: 'Fico aborrecido, compro um brinquedo, deixo-o aqui, deixo-o ao meu filho e alguém gere'. Se se compra algo dessa dimensão, algo que envolve tanta gente e tantos adeptos, tem de se estar muito mais presente. Tem de se dar a cara, sobretudo quando as coisas correm mal, porque o futebol mexe com muita gente, para o bem e para o mal. E quando as coisas correm mal, sente-se ainda mais. Um clube como o Valência, com a sua história, títulos e finais europeias, não pode ser abandonado por quem o dirige. Algo tem de mudar. Tem de se tentar inverter a situação. Espero que, de alguma forma, o Valência consiga sair dessa situação.

- Durante o tempo no Valência também trabalhou com o Gary Neville. Chegou com uma enorme reputação como jogador mas pouca experiência como treinador. Como reagiu o balneário à sua chegada?

- Coincidiu também com uma fase em que não havia realmente ninguém a comandar o Valência, se quisermos pôr as coisas assim. O irmão, Phil Neville, também estava connosco; tinha chegado um pouco antes e trabalhava como adjunto. Quando o Gary chegou, vimos um ex-futebolista que tinha ganho tanta coisa no Manchester United e tinha sido capitão. Mas a situação não era a melhor para ele assumir o Valência naquele momento. A língua também era importante. Havia muitos jogadores espanhóis. O Gary falava inglês, embora estivesse a aprender espanhol rapidamente, mas a comunicação não era ideal. Por vezes, era preciso passar a mensagem do treinador através de um tradutor, e a mensagem não tem o mesmo impacto do que quando o treinador fala diretamente com o jogador. Joguei em muitas equipas e vivi em sítios como o Dubai e Istambul, por isso sei como pode ser difícil quando uma mensagem tem de passar por duas ou três pessoas antes de chegar ao jogador. As coisas simplesmente não estavam a correr bem, e quando não correm bem, é muito difícil mudar a situação. O papel de um ex-futebolista pode mudar quando se torna treinador porque percebe o balneário. Mas o Valência também é um clube difícil para se jogar.

Gary Neville treinou Negredo numa passagem sem sucesso pelo Valência
Gary Neville treinou Negredo numa passagem sem sucesso pelo ValênciaČTK / AP / David Aliaga

- Disse uma vez que voltar a Espanha foi um erro. Ainda sente o mesmo?

- Não me arrependo das decisões que tomei porque tomei-as por algum motivo. Mas sinto que podia ter dado mais tempo a mim próprio na Premier League. Na primeira época marquei 23 golos. Em fevereiro, quando lesionei o ombro, já tinha esses golos. Por isso estava com pressa, e também tinha circunstâncias pessoais na altura. Vim para o Valência e separei-me da minha ex-mulher. Olhando para trás, percebo que parte da decisão foi porque estava confortável com a língua inglesa e com a vida em Inglaterra. Não foi porque o Valência fosse um mau clube; até jogámos na Liga dos Campeões. Não foi uma decisão puramente futebolística. A minha situação pessoal e o meu futebol nessa altura talvez estivessem mais alinhados com ficar na Premier League. Não me arrependo de ter ido para o Valência. As decisões que tomei como futebolista e como pessoa são minhas e tenho de as aceitar. O que lamento é não ter ficado mais tempo na Premier League. É a única coisa que gostava de ter feito de forma diferente; gostava de ter acreditado mais em mim e continuado a crescer em Inglaterra.

- Acabou por regressar a Inglaterra com o Middlesbrough, que deve ter sido uma experiência muito diferente do Manchester City. Como foi, lutar pela permanência em vez de lutar por títulos?

- Foi um papel diferente e uma experiência completamente distinta. No City, lutávamos pela Premier League e pela Liga dos Campeões. No Middlesbrough, lutávamos por algo muito diferente. Mas sentia-me muito confortável na Premier League. Marquei golos e a equipa era um grande grupo, mesmo não tendo atingido o objetivo. Middlesbrough é também uma cidade de que gosto muito. Foi o local onde nasceu o meu filho, por isso terei sempre uma ligação especial. O meu menino é inglês. Diz que é inglês e apoia a Inglaterra. Faz-me rir porque nasceu lá em janeiro, por isso passou seis meses em Inglaterra. Mas ele é muito claro nisso. Diz que é de Inglaterra e apoia a Inglaterra. Quando a Inglaterra perdeu, chorou, mas depois a Espanha ganhou e ficou contente por isso também.

- Falemos do Besiktas. Chegou a um clube muito diferente dos outros, com grandes jogadores como o Pepe, o Talisca e o Ricardo Quaresma. Como descreveria essa equipa?

- Essa equipa era fantástica. Também tínhamos o Adriano, com quem já tinha jogado no Sevilha, o Gary Medel, o Cenk Tosun, que era avançado da seleção turca, e muitos outros jogadores de grande qualidade. É um dos sítios onde mais desfrutei do futebol, tanto como jogador como adepto. O nível de paixão à volta da equipa era incrível. Istambul é também uma cidade muito especial. Vive-se a cultura, o ambiente e a paixão. É um sítio que faz sentir tudo de forma muito intensa. Se alguém me dissesse no futuro que podia treinar uma equipa como o Besiktas, ia de olhos fechados. Os adeptos vivem para a equipa. Geram tanta emoção e fazem sentir tudo, tanto o bom como o mau. Podem ser bastante radicais, mas acho que isso faz parte do que torna a experiência tão especial. A paixão turca pelo futebol é maravilhosa.

- O estádio do Besiktas foi o mais barulhento onde já jogou?

- Sim, sem dúvida. Lembro-me desse primeiro jogo. Desde o momento em que ganhámos a bola, o estádio inteiro explodiu. Acho que o meu filho ficou um pouco hooligan porque adorava tanto o futebol. Tenho um vídeo dele a bater na grade, a saltar e a gritar. Tinha apenas um ano. Passei momentos incríveis lá. É pena não termos vencido a liga porque estivemos muito perto nessa época, mas a experiência foi fantástica.

"Quaresma foi dos jogadores mais talentosos com quem partilhei balneário"

- Onde colocaria o Ricardo Quaresma entre os colegas mais dotados tecnicamente com quem já jogou?

- Era um jogador excecional. Tinha tantas qualidades e tanta técnica que, por vezes, era difícil para um avançado adaptar-se a ele. Era simplesmente o seu estilo. Às vezes, quando estava perto da bancada ou em certas posições, tinha de adaptar o meu movimento a ele e não o contrário. Foi um dos jogadores mais talentosos com quem partilhei balneário. Tinha também muito carácter e treinava muito. Tornámo-nos amigos. Às vezes ficávamos chateados um com o outro durante os jogos por causa de um passe ou de uma decisão, mas isso é futebol. Quando se está num balneário ou no meio de um jogo, está-se rodeado de tanta gente e emoções. Mas é alguém com quem tenho uma relação muito boa e guardo ótimas recordações do tempo na Turquia.

- Como compara a Super Liga turca com as outras ligas em que jogou?

- Em termos de nível futebolístico, é uma boa liga. Muitos jogadores de todo o mundo jogaram no Fenerbahçe, Galatasaray e Besiktas. Jogadores de nível muito alto passaram por lá. O que realmente se destaca é a paixão: o futebol, os estádios, as multidões. Nesse sentido, posso compará-la com Espanha ou Inglaterra, embora obviamente a Premier League esteja noutro patamar financeiramente. Mas a Super Liga é uma liga muito competitiva.

Os últimos anos da carreira de Negredo
Os últimos anos da carreira de NegredoFlashscore

- Foi um ponta-de-lança clássico, um verdadeiro número nove. Hoje vemos jogadores como o Erling Haaland e o Kylian Mbappé, que são um pouco diferentes. Acha que o número nove clássico está a desaparecer do futebol?

- Acho que há menos do que antes. Hoje em dia, dá-se mais importância aos extremos e aos avançados interiores – jogadores como o Lamine Yamal e o Vinícius, que começam abertos e depois vêm para dentro. Antigamente, os extremos não jogavam normalmente com o pé contrário. Jogavam no seu lado natural, recebiam a bola e cruzavam. Isso dava muito mais oportunidades ao ponta-de-lança. Hoje, o avançado já não tem tantas oportunidades porque está muitas vezes entre os centrais. Antes, os cruzamentos vinham diretamente para o avançado. Jogadores como eu, (Roberto) Soldado, Llorente e Fernando Torres beneficiavam desse tipo de futebol. (Robert) Lewandowski é outro exemplo. Avançados como ele tinham muito mais oportunidades para marcar. Às vezes pode-se ganhar um penálti ou um ressalto, mas no geral é mais difícil para um ponta-de-lança hoje porque já não recebe tantos cruzamentos ou bolas na área.

- Agora é treinador adjunto do Sevilha Atlético, por isso está a viver o futebol do outro lado. Como tem sido esta nova aventura? O que está a descobrir no banco?

- Como treinador, tem de se aprender todos os dias. Tem de se aprender a gerir o grupo, e acho que isso é o mais importante. Quando se é jogador, às vezes pode-se simplesmente ir com a corrente. Agora tem de se tomar decisões: este jogador sim, este não, este joga, este não. E tem de se gerir jogadores jovens. Tem de se garantir que, quando um jovem regressa na segunda-feira depois de um jogo, mesmo que as coisas não tenham corrido bem, não perde a motivação. Tem de voltar mentalmente preparado para mostrar que o treinador estava errado. Muitas vezes, o jogador pensa que o treinador é que está errado, não ele. Tem de se fazê-lo perceber que precisa de trabalhar mais e continuar a evoluir. Há também situações práticas que acontecem em todas as equipas. Às vezes, 10 minutos antes do treino, três ou quatro jogadores são chamados para treinar com a equipa principal. Preparou-se um treino e, de repente, tem de se mudar tudo e adaptar ao número de jogadores disponíveis. Para mim, viver isso está a ensinar-me a tomar decisões mais rapidamente. Tem de se gerir tudo – treinos, jogos, plantel. Por isso, estou a encarar isto como um ano de aprendizagem. Estou a gostar, estou a tentar ajudar e contribuir, juntamente com o Diego, o Juanma e o resto da equipa técnica. Quero acrescentar a minha experiência e dar a minha perspetiva sobre situações que talvez já tenha vivido como jogador. Estou a encarar isto como uma fase de aprendizagem, mas também como uma oportunidade para aprender a tomar decisões rápidas, ajudar a equipa e viver num ambiente quase semiprofissional, mas que está a um passo da equipa principal de um grande clube como o Sevilha.

- Que tipo de treinador quer ser?

- Quero ser um treinador que tenta tirar o máximo dos seus jogadores e exige muito deles. Quero que as minhas equipas joguem futebol, mas também não quero ser teimoso e dizer: 'Temos de jogar assim e pronto'. Sei que tem de haver um Plano A, Plano B, Plano C – há muitas possibilidades diferentes. Tem de se estar preparado para todas. Um dia, se tiver jogadores para sair a jogar desde o guarda-redes, faço-o, porque gosto desse estilo. Mas se não tiver jogadores para isso, não vou forçar. Já tive treinadores que não tinham jogadores capazes de sair a jogar desde trás, mas tentavam fazê-lo na mesma. Às vezes tem de se ser inteligente. Se o guarda-redes está sempre a chutar a bola 60 metros para a frente, isso não faz de si pior treinador, guarda-redes ou defesa. É simplesmente outra forma de jogar, e acho que é tão válida como o estilo que está na moda hoje, em que se põe um jogador ao lado do guarda-redes e se constrói desde trás. Se tiver bons jogadores para isso, espero jogar assim. Mas se não tiver, não vou.

- Gostaria de treinar algum dos clubes por onde passou um dia?

- Não sei onde vou acabar. Claro que adorava treinar o Sevilha, e todos os outros clubes também. Gostava de ter a experiência de treinar no estrangeiro. Não fecho portas. Como jogador, nunca tive problemas em sair do país, e como treinador também não tenho.

"Bola de Ouro? Digo Fabián Ruiz"

- Por fim, queria perguntar-lhe sobre a Bola de Ouro. Há um grande debate neste momento com o Lamine, o Mbappé, o Harry Kane e outros. Tem algum favorito?

- Sinceramente, não tenho favorito. Para mim, o jogador que se destacou mais no Mundial pode não ter tido a melhor época no clube, e o jogador que fez uma época incrível no clube pode não ter estado tão bem no Mundial. No fim, é uma combinação de tudo. Há jogadores como o Lamine Yamal e o Kylian Mbappé que são fenomenais e que vão acabar por chegar lá acima. Também gosto muito do (Jude) Bellingham. É um dos jogadores de quem mais gosto de ver jogar. Talvez a sua época no Real Madrid não tenha sido tão boa como alguns esperavam, mas no Mundial esteve em grande nível. É difícil porque vai-se sempre ser criticado consoante o critério, se se dá mais importância aos títulos ou ao desempenho individual. Por isso, digo o Fabián Ruiz porque ganhou os títulos mais importantes.

Perguntas rápidas

O melhor jogador com quem já jogou?

"David Silva."

O melhor avançado de sempre?

"Ronaldo Nazário."

O colega mais divertido que já teve?

"Coke Andújar, do Sevilha."

O adversário mais difícil que enfrentou?

"Sergio Ramos."

O melhor treinador com quem já trabalhou?

"Unai Emery."

O melhor estádio onde já jogou?

"Sánchez-Pizjuán."

O período mais divertido da sua carreira?

"Cádiz."

Uma palavra para definir a sua carreira?

"Bonita."

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