Acompanhe o Manchester United no Flashscore
Pedersen sentou-se com Flashscore para falar sobre a sua passagem pelo Blackburn e o colapso sob a gestão dos Venkys, a transferência para o Manchester United que nunca se concretizou, e porque acredita que esta geração da Noruega pode vencer qualquer adversário.
- Vamos começar pelo início. Marcaste 51 golos em mais de 120 jogos pelo Tromso. Quando é que começaste a acreditar que jogar numa liga como a Premier League era realmente possível?
Na minha cabeça, esse pensamento surgiu bastante cedo. Quando cresci no norte da Noruega, uma das primeiras coisas que disse à minha mãe, ela escreveu. Foi: 'Vou ser futebolista profissional, vou conduzir um Ferrari, vou ser milionário e vou ter um dente de ouro.' Isso foi das primeiras coisas que ela registou num livro, por isso o objetivo de ser futebolista esteve sempre presente. Pratiquei muitos desportos. Andebol, corrida, orientação, esqui, ginástica, todo o tipo de coisas, mas o futebol foi sempre o número um. Esse era o grande objetivo desde o início.
- A tua mãe ainda tem esse livro?
Provavelmente. Não tenho a certeza absoluta, mas acho que ainda o tem. Ela guarda tudo. O meu pai não gosta que ela tenha todos os recortes de jornais e tudo o resto, mas são boas recordações.
- O Blackburn contratou-te em agosto de 2004, para substituir efetivamente o Damien Duff. Como lidaste com essas expectativas quando chegaste?
Quando um clube da Premier League te contrata, é como um sonho tornado realidade, mas claro que ficas nervoso. Vais para o maior palco do futebol. Para ser sincero, não pensei muito em substituir o Damien Duff. Pensava mais no que podia fazer, nas melhorias que podia trazer a mim próprio, em como podia ajudar a equipa. É uma grande diferença passar do Tromso para um clube da Premier League. Tens de te adaptar a várias coisas e também tens de estar preparado mentalmente. Foi difícil, mas era o meu sonho, por isso mal podia esperar para começar.
- Qual foi a maior dificuldade de adaptação quando chegaste a Inglaterra? O físico, o clima, a língua, o próprio futebol?
O clima era, na verdade, muito melhor em Blackburn do que de onde venho. Claro que era um país novo, novos colegas de equipa e a melhor liga do mundo, por isso tive de me tornar um melhor futebolista. Evoluis todos os anos e eu estava muito curioso sobre como fazer as coisas. Quando cheguei, fiz a estreia contra o Manchester United e joguei mais dois jogos. Depois o Mark Hughes entrou e disse que eu não estava 100% preparado para a Premier League. Sentámo-nos com o treinador adjunto e o treinador principal e conversámos. Observei vários tipos de jogadores e fui aprendendo diferentes aspetos, como evoluir como jogador. Ia para cada treino a tentar ser melhor e aprender. Algumas coisas já eram o meu ponto forte, mas tive de melhorar noutras áreas. Sempre fui trabalhador, por isso no fim alcancei o que queria.

- Foste contratado por Graeme Souness e ele saiu para o Newcastle quase de imediato. Como foi isso para um jogador jovem?
Assinei na quinta-feira, 26 de agosto. Estreei-me no sábado contra o Manchester United. Fui com a seleção nacional no domingo e na segunda-feira o Graeme foi para o Newcastle. Foram três dias. Mas sempre tive o apoio do presidente, John Williams. Era um dos que gostava de mim, por isso não pensei muito nisso, para ser sincero. O Graeme era um homem muito simpático, um verdadeiro cavalheiro, e talvez sem ele nunca tivesse ido para o Blackburn. Mas a substituição foi boa, porque com o Mark Hughes e o Sam Allardyce tive o meu melhor futebol no Blackburn.
- Conta-nos como foi esse dia de estreia contra o Manchester United e a assistência.
Antes de mais, estava na Noruega, em Svalbard. É uma ilha quase no Polo Norte, bem a norte. Estávamos lá numa viagem de equipa com o Tromso, nas minas e nas montanhas, e era suposto ficarmos três ou quatro dias. No segundo dia recebemos uma chamada a dizer que eu tinha sido vendido ao Blackburn, por isso tive de voar de volta para Tromso, fazer as malas, jantar com a mãe e o pai, e depois voar para Manchester para os exames médicos. Houve alguns problemas no início, porque havia pessoas novas na direção e o diretor do Tromso nunca tinha vendido um jogador antes. Eram todos novos, por isso foi um pouco de 'e agora, o que fazemos?'. As coisas demoraram um pouco nesse primeiro dia em que era suposto assinar. Acabei por ligar ao clube para saber o que se passava, porque ainda não tinham assinado os papéis. Então o John Williams disse: 'Se não assinares os papéis, temos de ir buscar outro jogador.' Tudo tinha de ficar resolvido antes do fecho do mercado. Quando cheguei, havia muitos jogadores novos e claro que não conhecias o nome de todos. Lembro-me de ter um dos programas do jogo no hotel e de estar a olhar para os nomes, só para os decorar. Na sexta-feira, no dia antes do jogo, cheguei um pouco atrasado ao treino porque tive uma conferência de imprensa com o Graeme e ele foi buscar-me. Portanto, és o novo e chegas atrasado ao treino, mas não foi culpa minha. Ele colocou-me logo no onze inicial e treinámos bolas paradas. O Barry Ferguson marcava a maioria e eu disse aos treinadores que também queria marcar. Acabei por ser eu a marcar, por isso acho que o capitão não ficou muito contente. Mas foi um dos jogadores de quem aprendi muito durante o período em que jogava menos.
- Como foi treinar com o Mark Hughes? O início foi difícil, mas esse golo contra o Cardiff mudou tudo.
Foi duro. Treinávamos muito bem. Ele era um treinador jovem e moderno quando chegou e trabalhávamos muito. Acho que provavelmente éramos a equipa mais bem preparada fisicamente de toda a liga, porque essa era uma das nossas forças, e tínhamos um grupo muito unido. Para esse jogo com o Cardiff, não estava convocado, mas o Brett Emerton ficou doente na noite anterior, mesmo antes de partirmos. No autocarro a caminho do estádio, um dos membros do staff veio ter comigo e disse: 'Morten, o mister quer falar contigo.' Disse-me que ia ser titular. Na minha cabeça já tinha imaginado esse cenário muitas vezes, porque ele dizia sempre que ia ter uma oportunidade, por isso só tens de te preparar para isso. Foi o que fiz durante meses. Sabia que a oportunidade ia chegar, e acho que foi por isso que correu tão bem. Depois disso, não houve volta a dar.
- Tinhas jogadores como Tugay, Brad Friedel, Christopher Samba, Roque Santa Cruz e Robbie Savage nesse balneário. Quem mais te ajudou nos primeiros meses?
Tínhamos um bom grupo. No início havia alguns jogadores que foram muito importantes para mim. O Dominic Matteo, lembro-me no meu jogo de estreia, da forma como falava comigo como jogador experiente vindo do Liverpool e Leeds. Ajudou-me muito logo no início. Também ajudou o facto de o Peter Enckelman estar lá, ele é finlandês mas fala sueco. Tens de encontrar as pessoas certas para te rodeares. Acho que tive alguma sorte, porque as pessoas achavam que eu era boa pessoa, não um idiota, e no futebol querem proteger jogadores assim. Friedel, Samba e Savage chegaram um pouco mais tarde, quando já era titular, e tínhamos um grupo muito bom."

- Todos os que jogaram com Tugay falam dele quase com reverência. O que tinha de tão especial?
Antes de mais, o Tugay e a família são pessoas fantásticas, absolutamente incríveis. E a forma como jogava futebol, tudo nele. É provavelmente o melhor jogador com quem joguei, e acho que podia jogar em qualquer equipa do mundo ao mais alto nível. Era um artista, tinha uma técnica inacreditável, e jogar na ala à frente dele era outra coisa. Nem precisava de olhar para ti. Sabias que a bola ia chegar. Era uma excelente pessoa, podias perguntar-lhe qualquer coisa, queria sempre ajudar-te e o melhor para ti. Como jogador era o maestro. Dava gosto vê-lo nos treinos, a jogar com a bola, o toque. Era quase impossível vencê-lo no futebol ténis também.
- O Mark Hughes chegou a dizer que a tua execução de bolas paradas fazia lembrar o David Beckham. O que fazias de diferente dos outros jogadores?
Treinei muito. Desde pequeno que treinava bolas paradas, cantos, livres laterais, todo o tipo de bolas paradas, não apenas um tipo. Acho que foi por isso que se tornou um ponto forte, e nunca deixei de trabalhar nisso. Mesmo quando cheguei ao Blackburn trabalhei muito nisso. O Kevin Hitchcock era o treinador de guarda-redes e, no dia antes do treino, ou dois dias antes, íamos para a zona dos guarda-redes com um dos jovens e treinávamos bolas paradas de vários ângulos. Era algo em que trabalhava sempre, e acho que foi por isso que era o melhor nisso.
- Ainda conseguirias fazer os desafios de bolas paradas que se vêem agora no TikTok e Instagram?
Claro. Ainda tenho essa capacidade. Já joguei alguns jogos de exibição e a bola acabou no fundo da baliza. Provavelmente era o meu maior ponto forte.
- O Blackburn chegou a uma meia-final da Taça de Inglaterra em 2007 e jogou na Taça UEFA. Quão boa era realmente essa equipa e quão perto estiveram de algo maior?
Fizemos uma época fantástica. Num dos anos terminámos em sexto e ficámos a dois ou três pontos de um lugar na Liga dos Campeões. São os detalhes. Vês o mesmo hoje. Se cometes pequenos erros, és castigado, e era igual naquela altura. Com o plantel que tínhamos, estivemos muito bem. Tínhamos uma equipa forte, por isso não foi um feito acima das expectativas, mas estivemos muito perto. Acho que as pessoas tinham algum receio de ir a Ewood Park. Tínhamos presença física e bons jogadores que podiam 'destruir' adversários, não só fisicamente mas também tecnicamente. Trabalhámos muito juntos como equipa. Havia bons jogadores, mas todos remávamos para o mesmo lado."
- Disseste que se o Ryan Giggs não tivesse jogado tanto tempo, terias sido jogador do Manchester United. Quão perto estiveste?
Não sei dizer quão perto, mas se ele se tivesse retirado e deixado de jogar, eu teria sido o seu substituto. Não podemos falar em 'ses'. Ele continuou a jogar e esteve muito bem, e eu continuei no Blackburn. Mas sei que se falou nisso. A probabilidade de o substituir era muito alta.
- Alguma vez lhe enviaste mensagem a perguntar porque jogou tanto tempo?
Não, nunca fiz isso. Talvez devesse tê-lo travado num jogo.
- Houve outras propostas durante os teus anos no Blackburn?
Sei que o Tottenham e o Arsenal estavam interessados, o United, a Juventus em Itália, o Valência. Sei que o Bayern Munique me seguiu numa fase. Houve um elemento do Bayern que assistiu a todos os treinos que fiz durante duas semanas, porque estávamos na mesma base de pré-época. Mas é um grande salto entre observarem-te e algo realmente acontecer. Sei que podia ter ido para a Juventus, para o Valência, para o Fenerbahçe. Houve alguns clubes, mas acabei por ficar no Blackburn e tive lá um período muito bom.
- Nove anos lá. Alguma vez pensaste no que poderia ter acontecido se tivesses aceite uma dessas propostas?
Podemos sempre imaginar, mas por outro lado há tanta coisa que teria perdido. É como ganhar a lotaria, o que vais fazer? É difícil dizer. Não gastei muita energia nessas coisas. Estou satisfeito com o percurso que tive. Também tive uma proposta dos Emirados em 2006. Podia ter ido para lá e ganho muito dinheiro, mas teria perdido todo o futebol, a seleção e tudo isso.
- Em 2010, os Venkys compraram o clube. Quando percebeste, por dentro, que vinham tempos difíceis?
Quando o Sam foi despedido. Havia pessoas nos bastidores mais interessadas nos seus próprios interesses do que nos do clube. Os proprietários sempre fizeram o que lhes competia, com dinheiro e tudo, mas há sempre pessoas com outros interesses dentro do clube. Estava a caminho de um funeral quando soube que o Sam tinha sido despedido. Como é possível? Quando as pessoas tentam tirar proveito para si em vez de pensarem na equipa e no clube, as coisas não correm bem. Mas não culpo os donos. Eles investiram. Talvez se houvesse outros conselheiros à volta as coisas fossem diferentes, mas o passado é passado. Só podemos olhar para a frente e esperar ver o Blackburn de volta à Premier League daqui a uns anos. O Blackburn é um dos clubes que devia lá estar.

- A descida aconteceu em 2012, após 11 anos na Premier League. Qual é a tua memória mais forte dessas últimas semanas?
Foi duro. Ficas mesmo triste, porque amas o clube, os adeptos, as pessoas à volta. Sabes que pode haver pessoas a perder o emprego. Não tem piada nenhuma. É uma sensação horrível. Mas não penso muito nisso, tenho tantas boas recordações e isso é o mais importante.
- Saíste um ano depois, em 2013. Quão difícil foi, após nove anos?
Foi uma das fases mais difíceis que tive. Custou perceber que ia mesmo sair quando aconteceu. Ficas sentado e sentes as lágrimas a quererem sair. É um dos dias mais tristes da minha carreira. Mas mesmo agora, quando volto ao Blackburn, sinto-me sempre bem recebido e acarinhado. É uma sensação fantástica voltar a Ewood. Por isso só espero que, mais cedo ou mais tarde, possamos dar o passo de regresso à Premier League e lutar como deve ser.
- Há uma história de que o Blackburn esteve muito perto de contratar Robert Lewandowski...
Ele estava a caminho. Ia voar para fazer os exames médicos, pelo que percebi. Mostra bem como os detalhes fazem a diferença no futebol.
- O Blackburn ainda não voltou. Porque é tão difícil para os clubes regressarem após a descida?
Acontece com quase todas as equipas. É difícil voltar. Tens de manter jogadores com salários reduzidos, há muitos fatores, os patrocinadores. Ainda tens os pagamentos de descida da Premier League, mas o Championship é uma das ligas mais difíceis do mundo. Não é fácil. Vê os clubes que lá estão agora. São grandes clubes, não equipas desconhecidas. Há tantos jogos, precisas de um plantel forte e de alguma sorte. Muitos fatores têm de correr bem, especialmente se quiseres um dos dois lugares de subida direta. De vez em quando há equipas incríveis que sobem logo, mas é difícil. Podes ter um bom plantel, mas depois surgem lesões e perdes jogadores e de repente já não tens a vantagem que pensavas ter. Há duas épocas o Blackburn falhou o play-off por diferença de golos. São esses detalhes. E se fores ao play-off, nunca sabes o que vai acontecer. Alguém pode surpreender-te e perdes o lugar. Só podemos esperar e desejar, mas não vai ser fácil.

A Noruega vai meter medo
- Vamos à seleção. A Noruega qualificou-se para o Mundial pela primeira vez desde 1998. Onde estavas quando viste, e como foi o ambiente na Noruega?
Foi inacreditável. Se o futebol pode ser um lugar de união, o Mundial mostrou isso, especialmente na Noruega. Não íamos a um Mundial há 28 anos. Se estivesses na Noruega e visses as ruas e a forma como as pessoas se juntaram, todos estavam felizes. Estava na Noruega e também nos Estados Unidos a ver a equipa. Foi fantástico. Acho que os jogadores também sentiram esse entusiasmo vindo dos adeptos. Havia tantos noruegueses lá a apoiar a equipa, e depois de regresso a casa. Como dizemos, foi uma viagem do outro mundo.
- Como comparas esta geração da Noruega com as anteriores?
O grupo que temos agora tem muitos jovens talentosos que já têm muita experiência apesar da idade. Tens essa mistura de juventude, entusiasmo e boas pessoas, e é um grupo muito bom. São um grupo unido, riem-se e divertem-se, mas por outro lado são muito sérios e excelentes futebolistas. Podes ir do Haaland, a mega estrela, provavelmente o melhor avançado do mundo neste momento, até alguém como o Patrick Berg, que joga no Bodo/Glimt. O facto de ele ter jogado pelo Bodo/Glimt dois dias depois de voltar do Mundial é inacreditável. O leque é grande, mas o compromisso e o grupo juntos podem vencer qualquer um.

- O Haaland marcou dois golos ao Brasil e levou a Noruega aos quartos de final do Mundial pela primeira vez. Antes do torneio, permitiste-te sonhar chegar tão longe? E a Noruega pode um dia ganhar um título?
Com a equipa que temos agora, se continuarem a evoluir, vai meter medo. Vimos a equipa passar a fase de grupos provavelmente como a melhor de toda a qualificação, e depois fazer esse tipo de resultados no Mundial. Nunca se sabe. O futebol é assim, todos podem ganhar a todos, mas temos um grupo muito bom e agora ganham mais dois anos de experiência. Se conseguirmos manter a mesma fome e qualidade, entrar no Europeu daqui a dois anos vai ser muito interessante. Estou ansioso por isso. Sigo a equipa e daqui a umas semanas jogam com a Dinamarca e depois com Portugal em casa, por isso espero um bom arranque na qualificação.
- O que faz Stale Solbakken que os anteriores selecionadores da Noruega não conseguiam?
É muito bom com as pessoas, isso é uma das coisas. E conseguiu pôr o grupo a puxar para o mesmo lado. Quando jogava tínhamos um bom grupo, mas havia pequenos grupos dentro do grupo, se percebes o que quero dizer. Agora são uma verdadeira unidade. Acho que encontraram o equilíbrio certo entre serem estrelas e serem pessoas normais. Têm tempo para se divertirem da forma certa, mas quando é preciso entregar, ele exige qualidade. Todos os treinadores querem o mesmo, mas a mistura entre este grupo e o Stale tem sido perfeita. As pessoas que tem à volta, envolvidas com a equipa, também são excelentes, fantásticas dentro e fora do relvado.
- O que torna o Erling Haaland tão especial?
O Erling é uma pessoa muito simpática. É um jogador letal, mas é muito humilde, com os pés bem assentes na terra e muito focado no que tem de fazer. Não é batoteiro, é apenas letal. Acho que é difícil não gostar dele. Quem pergunta, tem sempre uma boa opinião sobre ele. Não creio que haja muita gente a dizer algo negativo sobre o Erling. Temos sorte em tê-lo. A forma como trabalha, as pessoas que o rodeiam, também são boas pessoas, por isso não é surpresa.
- Há uma teoria de que as pessoas da Escandinávia são muito sérias, frias. Mas se olhares para as redes sociais do Haaland, isso não é verdade.
Não, isso é mesmo ele. É humilde e divertido. Gostamos de sorrir, e talvez seja esse um dos seus superpoderes.
- Martin Odegaard levantou o troféu da Premier League como capitão do Arsenal. O que significa isso na Noruega?
Que jogador, que percurso teve. Ser capitão do Arsenal e fazer uma época incrível no ano passado. Teve algum azar no final da época com lesões e as pessoas começaram a falar, mas depois fez um bom Mundial quando recuperou e descansou, e a forma como começou agora no Arsenal é inacreditável. A visão que tem do jogo é algo especial. Acho que é um dos melhores jogadores da liga nessa posição, a jogar em liberdade. E é um líder. Conheci o Martin quando fez o primeiro jogo pela seleção e ainda o encontro de vez em quando no estádio. Uma pessoa fantástica. Gente boa. São sérios, são duros, sabem o que é preciso, mas por outro lado são das pessoas mais humildes e simpáticas. Mereceu totalmente o que lhe aconteceu no Arsenal."

- A sua história não é normal. Assinou pelo Real Madrid aos 16 anos, e esses clubes nem sempre dão tempo para evoluir.
Percurso inacreditável. Ir para o maior palco, depois estar sozinho nalguns sítios para evoluir e jogar futebol sénior. Isso foi muito importante para ele. Acho que não foi fácil para o Real Madrid vendê-lo, mas tiveram de o fazer. Para o Martin foi o melhor que podia ter acontecido, e teve o Mikel Arteta, que acredita nele e o fez capitão. Fizeram do Arsenal uma equipa de topo outra vez.
- Se voltasse agora ao Real Madrid?
Provavelmente seria um dos melhores jogadores dessa equipa.
- Falemos dos clubes noruegueses na Europa. O Bodo/Glimt tem sido uma das maiores histórias do futebol europeu nas últimas duas épocas. O que está por trás disso?
É inacreditável. O Bodo/Glimt era na verdade o meu maior rival quando jogava no Tromso. Quando estava em campo era guerra, mas nunca tive problemas com eles. O meu pai jogou lá, e os meus pais vivem em Bodo, por isso vejo quase todos os jogos europeus deles. É uma história engraçada e muito interessante, porque desceram de divisão e nem tinham dinheiro para contratar o Kjetil Knutsen, o treinador. Há um lado engraçado se olhares para a história. Mas trabalharam muito e construíram tudo passo a passo e criaram algo inacreditável. O que fizeram na época passada na Liga dos Campeões mostra o que é possível se tiveres uma equipa que trabalha tão bem junta. E agora tens o Viking também a qualificar-se, uma novidade. Não são só eles. O futebol norueguês como um todo cresceu. Quando o Bodo/Glimt faz bem, tem de comprar jogadores, por isso dá dinheiro a outros clubes noruegueses. As pessoas dizem: 'Ah, não queremos que o Bodo/Glimt se qualifique para a Liga dos Campeões porque recebem X dinheiro.' Mas isso só gera mais dinheiro para o futebol norueguês, para desenvolver jogadores. Ajuda todos. O nível da liga norueguesa tem sido muito mais alto nos últimos anos porque o Bodo/Glimt tem liderado o caminho. Apoio-os em todos os jogos, e apoio todas as equipas norueguesas quando jogam na Europa. Acho que também ajuda a seleção.
- Pela primeira vez em 27 anos há dois clubes noruegueses na fase principal da Liga dos Campeões. Contra o Bayern Munique, quase toda a equipa do Bodo era norueguesa. As academias estão a crescer?
Eram bons jogadores noruegueses. O Viking também, acho que a equipa é quase 100% norueguesa. É muito bom. Como disse, quando algumas equipas fazem bem, entra mais dinheiro na liga, e isso ajuda outros clubes a evoluir. E tens um objetivo. Se queres chegar a esse nível, tens de trabalhar muito. Talvez os jovens das academias olhem para eles e pensem: 'Uau, são tão bons, tenho de trabalhar mais.' Se queres ser bom, tens de trabalhar muito, e nem sempre precisas de vir de uma academia. Eu não passei por uma academia. Muitos jogadores passam, mas neste momento há muitos jovens noruegueses de qualidade a aparecer, e acho que isso se deve ao que as equipas norueguesas estão a fazer na Europa."

- O teu antigo clube Tromso está na Liga Europa esta época. O que esperas deles?
Venderam muitos jogadores este ano, acho que por quase 25 ou 30 milhões de euros. É muito dinheiro para o clube. Têm estado muito bem. Têm sido bastante estáveis, nos lugares cimeiros da liga norueguesa, e chegaram à Europa. Conseguir o mesmo depois de vender tantos jogadores vai ser difícil, mas têm feito um bom trabalho no recrutamento, por isso espero que se mantenham no topo da liga e façam boa figura na Europa. Claro que é mais difícil quando vendes talvez quatro dos teus cinco melhores jogadores. Mas é assim que funciona. Não podes recusar 10 ou 15 milhões de euros. E é por isso que é um bom clube para ir. É um clube onde podes evoluir e tornar-te um excelente jogador, mas o clube continua a dar-te a oportunidade de dar o próximo passo. Se queres ir para um sítio onde podes evoluir e ainda realizar alguns sonhos, Tromso é um excelente lugar.
Perguntas rápidas
Beckham ou Giggs?
Beckham.
Haaland ou Odegaard?
Haaland.
Premier League ou futebol internacional?
Premier League.
Melhor treinador com quem jogaste?
Tenho de dizer dois. Sam Allardyce e Mark Hughes.
Melhor colega de equipa?
Tugay, o melhor jogador com quem joguei.
Adversário mais difícil?
Perguntam-me sempre isso, e foi mesmo o Balotelli. É um dos jogos de que mais me lembro.
Melhor golo?
Talvez o golo ao United, o 2-1. Mas também marquei um bom remate ao Fulham. Fiquemos com os dois.
Melhor estádio em ambiente?
Estou tentado a dizer St James' Park.
Blackburn ou Tromso?
Blackburn.
Ganhar 1-0 ou 5-4?
5-4, sem dúvida.
