Numa conversa com o Flashscore após a sua participação no Portugal Football Summit, o antigo guardião dos Países Baixos e do Newcastle falou sobre a nomeação de Xavi como selecionador neerlandês, o início de uma nova etapa em St. James' Park e o seu futuro após concluir recentemente um mestrado.
Um novo ciclo para os Países Baixos com Xavi
Os Países Baixos foram eliminados este verão do Mundial na decisão por penáltis frente a Marrocos. Muitos recordam que talvez a Oranje devesse ter apostado na tática que resultou em 2014, quando Krul entrou como suplente e defendeu dois penáltis, ajudando a sua equipa a ultrapassar a Costa Rica.
"A Austrália tentou recentemente, com o meu grande amigo Mat Ryan. É uma boa tática, mas não há garantia de que resulte", comentou Krul. "Continua a ser uma questão de percentagens. No fim, os marcadores têm vantagem. Mas há guarda-redes que talvez estejam mais especializados em decisões por penáltis do que outros".
A Oranje inicia agora uma nova era com Xavi ao comando e Krul admitiu que a escolha de um treinador estrangeiro o surpreendeu inicialmente, tendo em conta a tradição do futebol total neerlandês.
"Fiquei surpreendido ao início ao ver Xavi nomeado como treinador estrangeiro, por causa do futebol total neerlandês", explicou ao Flashscore. "Mas penso que o Xavi conhece o estilo neerlandês. Johan Cruyff, Rijkaard, Van Gaal, isso faz parte do seu ADN. E a forma de jogar espanhola, o tiki-taka, e a neerlandesa estão muito alinhadas. Por isso tenho grandes esperanças, porque é uma verdadeira lenda do futebol".

Krul considera que uma abordagem renovada é precisamente o que a seleção precisa. "É um novo ciclo. Alguns jogadores vão sair. Vê-se em muitos países: a Alemanha com o regresso do Klopp e ideias diferentes, a Bélgica, a Itália mudou muito. Vai ser um momento entusiasmante para os Países Baixos, para ver que jogadores permanecem neste ciclo e quais vão sair".
Quanto a quem poderá destacar-se com o novo treinador, Krul apontou um nome bem conhecido. "Continuo a adorar o Frenkie de Jong. Para mim, continua a ser o melhor jogador. Teve muitos problemas com lesões, mas penso que seria fundamental para o estilo que o Xavi pretende. O estilo Ajax, o estilo Barcelona e o neerlandês".
Destacou ainda que, após a ausência de Memphis Depay na convocatória de Xavi, será necessário que um novo avançado assuma a responsabilidade. "(Brian) Brobbey está a fazer um trabalho incrível na Premier League com o Sunderland. É um avançado de topo. Há uma nova geração de talento a surgir em força, por isso veremos quem assume esse papel", afirmou.
A transição do Newcastle
Krul passou uma década no Newcastle e não hesitou em prestar homenagem a Eddie Howe antes de analisar o novo treinador, Matthias Jaissle.
"É preciso reconhecer muito mérito ao Eddie Howe, porque trouxe o troféu para Newcastle que todos esperavam há tantos anos", referiu. "Tenho uma grande opinião sobre o Eddie Howe, por isso não é fácil suceder-lhe. Mas o Jaissle começou muito bem. Gosto das suas conferências de imprensa e da forma como se comporta. Sinto que a equipa está a responder muito bem à sua liderança".
Deu ainda como exemplo o avançado Yoane Wissa. "Parece um jogador completamente renovado, porque teve um início muito complicado na época passada. O ambiente é bom. O clube está num período de transição, mas chegam notícias positivas com novas instalações de treino e a possibilidade de novas bancadas ou de um novo estádio. E renovar o contrato do Lewis Hall é uma declaração de intenções, porque é um dos talentos mais promissores da equipa".
O novo guarda-redes do Newcastle é o internacional checo Lukas Hornicek, que chegou do SC Braga. Krul vê um perfil muito diferente em relação ao seu antecessor, Nick Pope.
"É um jovem talento entusiasmante", comentou. "O Nick Pope já era um grande guarda-redes, mas o Horníček é um guardião de estilo totalmente diferente. É muito mais completo, destaca-se na saída de bola, como guarda-redes-líbero. Nota-se que é muito ágil. O Newcastle investiu muito dinheiro nele, por isso é claro que veem um grande futuro para ele".
A vida depois da carreira de jogador
Desde que se retirou, Krul tem-se mantido ocupado a investir em vários negócios. O ponto de viragem, segundo revelou, chegou muito antes de pendurar as luvas.
"Todos sabemos que o fim chega, mas não sabemos quando", explicou. "No meu caso, tinha 29 anos e sofri uma lesão grave no joelho que podia ter terminado com a minha carreira. Esse foi o momento em que percebi que tinha de me preparar e pensar mais na vida fora do futebol. Consegui recuperar, mas comecei a investir e a ver o mundo empresarial de outra perspetiva".
Há três anos, quando ainda jogava, inscreveu-se num programa organizado pelo sindicato de futebolistas e pela Universidade de Portsmouth, que agora concluiu com um mestrado em direção desportiva.
"Terminei há duas semanas", contou ao Flashscore. "Ler artigos académicos e escrever ensaios é totalmente diferente de jogar futebol, claro. Mas abriu-me a mente. Quando falo com diretores ou proprietários, ajuda-me a compreender todo esse ecossistema. Estive 20 anos no relvado e queria perceber o futebol fora das quatro linhas".
Um cargo de diretor desportivo está no seu horizonte, mas apenas nas circunstâncias certas. "Quando chegar o momento, com os projetos e as pessoas certas. Para mim, as pessoas são muito importantes. Um dia adoraria fazê-lo, mas sei que tenho de continuar a formar-me".
"Neste momento gosto do mundo dos media e de descobrir cidades que nunca pude conhecer bem. Quando jogas, só entras e sais do estádio e ficas em hotéis. Eventos como este dão-me a oportunidade de ver também esse outro lado".
