Opinião: Liverpool deve dar prioridade à renovação de Curtis Jones

Curtis Jones em ação pelo Liverpool
Curtis Jones em ação pelo LiverpoolEvery Second Media / Alamy / Profimedia

O médio do Liverpool, Curtis Jones, está a despertar o interesse de outros clubes da Premier League, como o Aston Villa e o Tottenham, além do Inter de Milão. No entanto, os Reds arriscam-se a perder mais do que apenas mais um elemento do plantel caso o deixem sair.

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Jones tem pouco mais de 12 meses de contrato, o que alimenta rumores sobre uma possível saída. Villa e Spurs são apontados como principais candidatos à sua contratação caso abandone Anfield.

Liverpool a perder figuras-chave

O Liverpool está prestes a passar por uma renovação de identidade. Mohamed Salah e Andy Robertson vão sair no final da época, seguindo o caminho de Trent Alexander-Arnold, Caoimhín Kelleher e Jarrell Quansah no ano passado. Todos estes jogadores passaram quase uma década no clube (dois anos no caso de Trent e Quansah).

O capitão Virgil van Dijk e o guarda-redes Alisson têm contrato até ao próximo verão, mas só a idade faz prever que ambos possam sair no final dos respetivos vínculos, completando nove anos de ligação ao clube.

Isto significa que, no final da época 2026/27, o Liverpool poderá ter deixado para trás quase toda a base que definiu a era de enorme sucesso de Jürgen Klopp.

É uma perspetiva desconfortável para os adeptos, já que as grandes equipas não substituem apenas a qualidade, mas também o conhecimento da história do clube à medida que os jogadores entram e saem.

Durante anos, o significado de jogar pelo Liverpool foi transmitido de geração em geração. De Jamie Carragher e Steven Gerrard para Jordan Henderson, e depois para o atual núcleo de liderança composto por Van Dijk, Robertson, Salah e Alisson.

As equipas mais bem-sucedidas do Liverpool raramente foram construídas em torno de um só tipo de líder. Há quem, como Gerrard, eleve o patamar com o que faz dentro de campo; outros, como Carragher e Henderson, que organizam; e ainda aqueles que transportam a memória institucional em períodos de transição.

Henderson e Gerrard foram líderes do Liverpool
Henderson e Gerrard foram líderes do LiverpoolPaul Ellis / AFP

Jones, natural de Toxteth e formado na academia, está no clube desde os nove anos e compreende o peso da camisola e as exigências de Anfield - é, para os mais românticos, um “adepto em campo”.

Mesmo não sendo titular indiscutível num meio-campo que conta com Dominik Szoboszlai, Alexis Mac Allister e Ryan Gravenberch, isso não lhe retira importância.

Numa equipa que em breve pode ficar sem vozes que viveram o renascimento do Liverpool sob Klopp, permitir a saída de Jones é arriscar perder uma referência quando os novos jogadores enfrentarem dificuldades.

Jones e Klopp em 2022
Jones e Klopp em 2022Clive Rose / Getty Images via AFP

Sob a orientação de Klopp, Jones evoluiu de extremo explosivo, capaz de fletir da esquerda, para médio mais controlado e criativo, tornando-se presença regular a partir de 2020. Soma 224 jogos em todas as competições, com 21 golos e 25 assistências.

Jones também já deixou clara a sua ambição, afirmando ao jornalista do Times, Paul Joyce, que prefere continuar no Liverpool e tornar-se o “homem principal”. Essa vontade de ficar e lutar pelo seu lugar deve ser valorizada, não desvalorizada.

Há ainda fatores práticos a considerar, já que os chamados jogadores formados localmente têm valor estrutural nos plantéis da Premier League, e Jones, com 25 anos, oferece utilidade a longo prazo, à imagem de James Milner.

Jogadores ainda em adaptação

O Liverpool já está em transição sob o comando de Arne Slot. Novos reforços, como Florian Wirtz e Alexander Isak, ainda estão a adaptar-se, enquanto saídas recentes, como a de Trent, Luis Díaz e Darwin Núñez, alteraram a dinâmica do grupo.

(E não posso deixar de referir - a trágica morte de Diogo Jota no verão passado deixou uma marca profunda, sublinhando que este é um grupo ainda em processo de adaptação a vários níveis.)

Um recente desencontro de comunicação entre Szoboszlai, o melhor jogador do Liverpool esta época, e os adeptos que viajaram após a derrota por 0-4 frente ao Manchester City foi talvez sintomático de jogadores ainda em aprendizagem. O médio fez um gesto para os adeptos descontentes após o apito final, o que gerou uma reação frustrada por parte dos adeptos.

Embora a frustração após uma derrota embaraçosa não seja exclusiva do Liverpool, nem seja o fim do mundo, neste contexto, abdicar de um dos poucos jogadores que realmente “percebe o clube” seria, por assim dizer, um autogolo.

Não se trata apenas de segurar um bom elemento do plantel. É, acima de tudo, reconhecer o que Jones representa numa altura em que o Liverpool atravessa um momento delicado, tentando preservar o fio condutor que manteve unida a sua equipa mais bem-sucedida dos tempos modernos.