- Rodri, bem-vindo. Queria começar pelo mais recente: renovou o seu contrato com o Al Arabi por mais quatro anos, até 2030.
- No fim, o tempo acaba por dar razão, quando fazes algo com o coração e acreditas que é o melhor, acaba por se comprovar e este é o caso. Estou há dois anos e a verdade é que renovei agora por mais quatro porque estou satisfeito, estou convencido de que estou no meu lugar e as coisas estão a correr-me bem. E também porque é uma cidade onde se vive muito bem.
- Quando diz que tomou a decisão de renovar com o coração, o que significa isso? Porque sabe-se que, quando alguém sai da Europa para o Catar, normalmente pensa-se mais no dinheiro, nas condições que oferecem, não é?
- Óbvio, óbvio. Isso é sem dúvida. Mas a verdade é que eu gosto, tenho muita confiança no clube, acho que isso se viu no meu jogo nestes dois anos. Portanto, estou satisfeito. Quando te dão tantas coisas boas, tudo se torna mais fácil. E digo-te que, quando tomei a decisão, foi mesmo o que senti cá dentro, percebes? Como falámos, era uma oferta irrecusável a nível financeiro. Mas agora, estando lá, tenho desfrutado do futebol, tenho desfrutado do que é meu e estou satisfeito, por isso renovei. Ou seja, o dinheiro não é tudo. É muito importante, mas se não vives bem ou não estás satisfeito com a tua paixão, não vais continuar, isso é claro. Em todos os sentidos, preencheu-me e estou satisfeito. Estes dois anos passaram rápido. Quando os dias passam rápido é porque estás bem. Por isso, fiz isto porque, desde o primeiro dia em que fui, estava convencido de que era a melhor decisão. O tempo deu-me razão e agora, ao renovar, ainda mais, porque fui eu que decidi. Significa que estou bem.
- Tanto que parece que quer criar raízes aí, ao contrário de outros que parecem fugir pouco depois de chegar àqueles lados.
- Sim, mas não saem rápido porque querem. Isso garanto-te. Não é porque querem sair rápido, é porque não têm mais chance de continuar lá. Ou seja, a maioria dos jogadores gostaria de prolongar o contrato. Digo-te isto porque estou aqui há dois anos e falo por experiência. Quem sai é porque não pode continuar, digo-te com sinceridade.

A vida no Catar fora do futebol
- Esperava isto quando chegou ao Catar, sentir-se tão bem?
- Sempre disse, aceitei a oferta pelo lado financeiro, mas também sentia que ia ser muito importante, não sei, que podia ser uma das caras visíveis da Liga, do Médio Oriente, que no fundo é um país que está a desenvolver-se no futebol. Portanto, coloquei esse objetivo e acabou por se ver. Treino todos os dias com o meu preparador físico, levo um cozinheiro de Espanha para render ao máximo e ficou provado que há bom nível lá.
- E a vida lá, como é?
- A vida é boa, é muito europeia, há muito negócio, não é um árabe fechado como se pensa, são mais abertos em relação ao estilo de vida. Vive-se muito bem, de facto. Também tenho lá pessoas em casa que são espanholas, por isso isso também influencia para estar bem.
- Quando sai à rua, há zonas reservadas para VIPs ou pode passear sem problemas?
- Podes sair, param-te e tal os que gostam de futebol, os adeptos de lá, mas nada de especial, tudo muito bem. Sem problemas.
- E o idioma, como é?
- Luto um pouco com o inglês, vou percebendo e falando um pouco. Mas entendo-me bem com todos.
- Onde fala mais é no campo: líder da liga em ações ofensivas bem-sucedidas, em passes no último terço, em cruzamentos e passes para a área... Falta-lhe algo para liderar?
- Os dribles, que devo estar em segundo ou terceiro (risos). Mas sim, muito satisfeito porque as coisas estão a correr-me bem. Também porque a confiança faz com que o jogador mostre o talento próprio que tem. Estou muito satisfeito porque me deram confiança desde o primeiro dia, por isso é que as coisas acontecem.

Rodri internacional pelo Catar?
- Como é realmente o nível da liga aí? O Al Arabi teria capacidade para estar na LaLiga?
- Também não te sei dizer ao certo, mas sim, acho que sim. Na LaLiga, a verdade é que teria de lutar muito. As coisas como são. Teria de lutar bastante. Sobretudo não pelo futebol, mas pela parte defensiva e tudo o resto. Há sempre cinco ou seis jogadores na equipa que jogariam bem na LaLiga. E há cataris muito bons. A única prova que tivemos na liga espanhola foi contra o Córdoba, da LaLiga 2, ganhámos 3-0. Com o Málaga, agora daqui a uns dias, logo te direi.
- Há muita diferença física ou tática em relação a Espanha?
- Não, não, nada, nada. Fisicamente trabalha-se. O único é que é preciso ser profissional e cuidar-se bem. Mas fisicamente não há problema. Em termos de talento, pronto, os cinco ou seis que referi. Depois, com o resto talvez haja alguma diferença em qualidade, mas a nível físico não há problema.
- No Catar também fizeram um grande investimento há mais de uma década, com a Academia Aspire, com o Xavi, com algumas figuras também. Já não só jogadores como você, por exemplo, mas também treinadores. Nota-se essa evolução do futebol aí?
- Sim, sim, nota-se. E agora com o projeto da seleção também, já em 2030, nos próximos Mundiais o Catar vai ter muito nível. Porque há 40 miúdos do projeto que estão a funcionar bastante bem. Portanto, essa seleção vai crescer, obviamente. Vai haver naturalizados também, vai ter bastante nível. Pelo que vejo, no fim esses miúdos que estão nos projetos vão formar uma boa seleção, uma seleção competitiva.
- A muitos desportistas deram a nacionalidade para aumentar o nível das seleções. Vendo que se sente tão bem aí, já lho propuseram?
- Essa é uma das ideias que eles têm e vamos ver se é possível, porque há uma lei da FIFA que a partir dos 21 já não podes jogar por outra seleção. E eu joguei com 21, 22 e 23 nos sub-21. Portanto, se mudar e for possível, sim, é a ideia que eles têm. Portanto, porque não?
- Gostava de jogar pelo Catar?
- Sim, porque não? Claro, no fim o país deu-me confiança, deu-me coisas boas, coisas bonitas, porque não?

- Com Espanha vê isso complicado.
- Bem, no dia em que voltar talvez não tanto, digo-te sinceramente. No dia em que voltar, não. Sei o nível que tenho, o talento que tenho e é verdade que estando no Catar é difícil. Mas no dia em que voltar não vejo difícil, de todo.
Um líder com Espanha sub-21 e com De la Fuente
- Olhando para trás, era um dos protegidos de Luis de la Fuente.
- Sim, sim. Com o Luis estive muito bem. Deu-me muita confiança e viu-se o resultado e a liderança que eu tinha com o De la Fuente.
- Desde que saiu, teve algum contacto com ele?
- Não, no fim ele subiu à principal e o último Europeu fizemos com o Santi (Denia). Ao Santi já o encontrei por lá porque treinou uma equipa do Catar. A verdade é que fico muito contente pelo que conseguiu (De la Fuente) porque foi um treinador humilde, simples, que soube esperar o seu momento e alcançou a glória.
- Como viveu esse Mundial?
- Muito bem, fiquei ainda mais contente por ele porque no fim conseguiu criar um grupo. Porque não é uma seleção de estrelas. Tirando dois ou três, é uma seleção de grupo. E acho que muito mérito é dele.
- Acha que De la Fuente é mais gestor de grupo do que treinador?
- É um excelente gestor de grupo, que para mim é o mais importante num treinador. O Pellegrini também é assim. Portanto, prefiro um gestor de grupo a um treinador. No fim, quando já estás lá, já sabes quem tem talento, como jogar... Ou seja, não é preciso ensinar. É mais importante gerir, isso é o complicado.
- O Pellegrini é o melhor treinador ou gestor que teve na sua carreira?
- É muito bom, alcançou a glória, é mesmo muito bom.
- Custou-lhe então deixar o Betis por ser o Betis, por deixar a sua gente, ou mais por deixar o Pellegrini?
- Custou-me muito. Mas é verdade que era irrecusável. As coisas como são. No fim era a minha casa, tinha jogado 127 jogos na minha equipa. Estávamos adaptados. Bem, havia muitas coisas. Mas pronto, no fim já sabes que há comboios que passam.

- 127 jogos, a ganhar títulos... boas recordações do Betis. Como o vê para este ano?
- Vejo o Betis bem, está a contratar bem. Ontem vi o jogo (4-0 frente ao Lyon) e o rapaz que contrataram, o Facundo, é muito bom, gosto dele. Vi que na época passada a LaLiga baixou um pouco o nível porque houve equipas que não apertaram mais, talvez o Sevilha, a Real Sociedad, o Athletic também esteve mais fraco. Fico muito contente pelo Betis, mas acho que noutras circunstâncias talvez não tivesse conseguido ir à Europa. De março até ao fim baixou um pouco o ritmo e não teve resultados tão positivos, houve seis ou sete jogos seguidos sem ganhar. E bem, isso noutra Liga ou noutro momento de outros anos, era impossível. Teria descido dois ou três degraus. Mas fico muito contente, sinceramente, por eles e porque merecem.
- Depois desta conversa, vejo-o com intenção de voltar daqui a... talvez 10 anos.
- Não, vamos ver quando acabar este contrato, nunca digo nunca, porque disse o mesmo no primeiro dia em que fui. Sim, gostava de voltar. Ficaria com mais um contrato de bom rendimento, três ou quatro anos de bom nível e gostava, sinceramente. A última etapa, entre quatro e cinco anos mais, jogaria na Europa outra vez.
- E a nível económico e desportivo, tudo resolvido, certo?
- Sim, vamos ver o que acontece, mas sim, gostava. Depois, no fim, já sabes que chega esse momento e talvez estejas mais limitado e continuas, mas sim, gostava de fazer a última etapa da minha carreira aí, na Europa outra vez. Em Espanha sobretudo, já não teria essa necessidade de voltar a sair para outro país e tal. Itália também seria um país muito bom, por exemplo, mas gostava de voltar a Espanha.
- Para terminar, Rodri, o que acha das novidades introduzidas no Mundial?
- No fim, é verdade que se está a perder um pouco aquela essência do jogo mais manhoso, mas é verdade que com as redes sociais, é preciso controlar tudo porque há demasiado hate. Imagina, um lançamento lateral mal marcado, têm de o anular porque senão, nas redes sociais, matam o árbitro, o VAR..., pode tornar-se tudo muito tóxico.
- Já que fala nisso, o VAR, aí no Catar como funciona?
- Bem, igual a Espanha, igual à Liga dos Campeões.
- E há tanta polémica?
- Claro, há polémica porque é um jogo como em todo o lado, há decisões de que gostas mais ou menos, mas sim, há polémica em todo o lado, isso sim.
- Então Rodri, que continue a desfrutar do futebol no Catar e vemo-nos por Espanha dentro de quatro anos, certo?
- É preciso continuar a cuidar-me ao máximo para ainda estar jovem e, se Deus quiser, voltar daqui a três ou quatro anos.
- Ou numa seleção, num Mundial pelo Catar ou por Espanha, se o De la Fuente se lembrar de si.
- Poderia ser, poderia ser, sim.
