O topo da profissão, porém, não foi o ponto de chegada. Depois de mais de uma década a trabalhar nos bastidores do futebol, Dulac decidiu mudar de lado. Em 2017, trocou a sala de análise pelo relvado, para se tornar treiandor adjunto. Mesmo assim, ainda integrou a equipa técnica da seleção brasileira no Mundial-2018 como observador.
Hoje, comanda o Al-Riyadh, da Arábia Saudita, onde assumiu uma equipa praticamente condenada à despromoção, conseguiu salvá-la e acaba de renovar o contrato por mais duas temporadas.

A mudança pode parecer incomum para quem observa de fora, mas, para Maurício Dulac, aconteceu no momento certo.
"O sonho do profissional é chegar à seleção nrasileira. Eu consegui chegar, participei num Mundial. Naquele momento, achei que seria muito importante fazer essa migração para o campo como adjunto", conta.
A bagagem do período como analista e adjunto
Embora tenha deixado oficialmente a função de analista, Dulac garante que ela continua a ser a base do seu trabalho.
"A análise de desempenho é fundamental. Eu utilizo-a para pensar nas minhas equipas e os meus treinos passam por ela. Eu não tenho uma tela, mas tenho uma televisão grande. O analista grava o treino e passa-me o feedback em tempo real para que eu consiga mostrar aos jogadores exatamente o que eu quero", revela. Para Dulac, a evolução do futebol exige adaptação. O jogador moderno, diz, aprende muito mais a ver do que apenas a ouvir.
Mas foi a passagem como adjunto que ampliou a sua visão sobre o futebol. Se antes estava concentrado no entendimento do jogo, passou a conviver diariamente com o plantel. "O adjunto escuta muita gente e filtra as coisas", cita.
Mauricio Dulac costuma resumir essa função com bom humor. "No mundo da bola, a gente tem dois bonzinhos na equipa técnica: o preparador físico e o adjunto. O ruim é o treinador", brinca.
A brincadeira ajuda a explicar o papel de quem faz a ponte entre plantel e equipa técnica. "Toda a gente vem falar com o adjunto", resume. Foi justamente dessa convivência que Dulac diz ter desenvolvido a capacidade de antecipar situações e entender os movimentos do balneário, antes mesmo que eles cheguem oficialmente ao treinador.
Essa evolução também foi percebida por quem trabalhou ao seu lado. Dulac costuma dizer que teve uma formação privilegiada: "Eu trabalhei com os melhores treinadores do Brasil. Abel Braga, Dorival, Celso Roth, Diego Aguirre, Fernandão, Dunga..."

O reconhecimento de Dorival e Tite
Ex-técnico da seleção brasileira e atualmente no São Paulo, Dorival Júnior conheceu Dulac ainda no Internacional e afirma que viu rapidamente um profissional diferente.
"Ele foi um dos pioneiros a associar a análise de desempenho ao treino. Fiz questão de que estivesse muito mais presente no campo para nos ajudar, agregando valores e conceitos importantes para uma mudança que promovíamos na equipa técnica", aponta.
Mais do que o conhecimento técnico, Dorival acredita que os sinais de um futuro treinador já apareciam naquele período.
"Senti que ali já existiam ideias de jogo muito claras. Ele sempre esteve pronto para ajudar e tinha traços fortes de liderança para serem desenvolvidos. Depois da passagem como adjunto do Odair, essa liderança explodiu. Hoje vejo um profissional pronto para se tornar um grande treinador", elogia.
A admiração é compartilhada por Tite, com quem Dulac trabalhou tanto no Internacional quanto na seleção brasileira. Para o ex-comandante da equipa brasileira, a evolução foi consequência natural de uma característica que sempre marcou o profissional.

"A formação como treinador principal foi consequência de uma busca contínua pelo saber, dedicação na plenitude e confiança construída na relação com comissão técnica, direção e atletas", explica.
Tite também guarda um episódio que ajuda a dimensionar o peso do trabalho de Dulac nos bastidores. Antes de uma decisão da Taça Sul-Americana pelo Internacional, diante do Estudiantes, o então analista realizou um estudo minucioso sobre Juan Sebastián Verón, principal referência técnica da equipa argentina. O levantamento identificou as zonas do campo onde o médio mais influenciava o jogo e serviu de base para a estratégia de marcação adotada pela equipa técnica.
"A forma como o Maurício participou na construção da ideia e da sua operacionalização foi muito marcante e teve um peso importante naquele sucesso coletivo", lembra.
Para Dulac, a experiência na seleção brasileira e no Mundial-2018 também elevou a sua régua profissional.
"Seleção brasileira e Mundial são a excelência da excelência. São os melhores treinadores, os melhores analistas, os melhores jogadores. O nível de treino não tem comparação", revela.

Aprendizagem com Abel Braga
Muito antes de vestir a camisola da seleção brasileira, porém, o gaúcho de 46 anos já havia aprendido que os detalhes fazem a diferença. No Internacional, passou anos a observar treinos de de adversários para abastecer treinadores como Abel Braga.
"Eu ficava nervoso porque sabia que depois o Abel ia perguntar-me tudo: se o cara dominava com a esquerda, para que lado girava, onde movimentava. Se eu não soubesse responder, estava morto", confidencia.
Numa dessas missões, chegou a ser quase descoberto durante um treino do Grêmio no antigo Olímpico, num momento bastante inusitado.
"As câmeras começaram a virar-se todas para mim. Entrei no carro e um repórter veio bater no vidro a perguntar se eu era do Inter. Eu abri o vidro e falei: 'Não, fui demitido'. E saí a correr", lembra.
Treinador na Árabia Saudita
Essa obsessão pelos detalhes continua a ser uma das marcas do treinador que hoje inicia uma nova etapa da carreira. Na Arábia Saudita, encontrou um cenário completamente diferente do futebol brasileiro, enfrentando equipas recheadas de estrelas internacionais e com orçamentos inalcançáveis para um clube do porte do Al-Riyadh.
Ainda assim, apostou naquilo que acredita ser inegociável. "Eu quase obrigava os meus jogadores a jogar. Falava que não fazia diferença nenhuma em ficar só a defender. Fui trabalhando essa confiança até eles acreditarem", indica.
A estratégia foi determinante para a reação improvável na reta final da temporada e garantiu a permanência da equipa na primeira divisão.
Agora, com o contrato renovado por mais duas temporadas, Maurício Dulac terá tempo para consolidar uma segunda carreira e desenvolver a identidade que acredita para as suas equipas.
"A essência do meu trabalho é a qualidade do jogo. Mas também preciso de ser inteligente. No futebol de alto nível toda a gente sobrevive de resultados", completa.
