A entrevista foi concedida ao Flashscore no histórico Hinchliffe Stadium, em Paterson, no estado de Nova Jérsia, pouco depois da vitória do Santos Laguna sobre o New York Cosmos, por 2-1.
O encontro particular assinalou o primeiro compromisso internacional do histórico clube norte-americano desde o regresso ao futebol profissional e representou mais uma etapa na preparação da equipa mexicana para a continuidade da temporada.
Embora tenha abordado o novo desafio no futebol mexicano, Renato Paiva foi além das quatro linhas e revisitou a passagem pelo Brasil. Ao longo da conversa, o treinador explicou por que razão considera o calendário nacional o maior obstáculo ao desenvolvimento técnico das equipas, analisou a crise vivida pelo Botafogo e deixou duras críticas à gestão de John Textor.
Há um ano, Paiva orientou a formação carioca na histórica vitória por 1-0 sobre o PSG, no Rose Bowl, no Mundial de Clubes. Nem mesmo o triunfo diante do então campeão europeu, porém, foi suficiente para garantir a continuidade no comando da SAD gerida por Textor. O treinador acabou despedido após a eliminação frente ao Palmeiras nos oitavos de final. Apesar da saída precoce, reforçou a paixão pelo clube carioca e pelos adeptos do Glorioso.

- Sobre o Botafogo: tem acompanhado a situação atual do clube? Imaginava que o Botafogo passaria por tudo aquilo que está a viver, entre saídas de jogadores, dívidas e outros problemas?
Imaginava. Basta perceber quem é o dono. Imaginava e não tenho dúvida nenhuma. Eu sabia e cheguei a comentar isso com pessoas que estavam lá dentro. Basta perceber o perfil do proprietário, nada mais do que isso.
E isto não tem nada que ver com o facto de me ter despedido. Tem que ver com aquilo que fez no Lyon, com o que fez na equipa da Bélgica, o RWD Molenbeek, e com o que está a fazer no Botafogo. Basta olhar para o histórico dele.
Ganhar uma Libertadores e uma Série B não lhe pode dar margem para fazer aquilo que está agora a acontecer no Botafogo. É um clube que amo e que faz parte da minha história.

Amo as pessoas que trabalham diariamente no Botafogo. Todas elas, sem exceção, são extraordinárias. Encontrei um grupo de jogadores fantástico e uma massa adepta que adoro. Mesmo quando me criticou, e muitas vezes tive de aceitar essas críticas com naturalidade, continua a ser a massa adepta que amo no Brasil. Até fico arrepiado ao falar nisso. Mas era evidente o que iria acontecer enquanto esta personagem permanecesse no Botafogo. É simples.

- Considera que o futebol brasileiro continua a ter o problema de não dar tempo aos treinadores para trabalharem e de não existir uma perspetiva de continuidade? Há cerca de um ano, estava a vencer o PSG pelo Botafogo e, depois, aconteceu o que aconteceu.
É verdade. Fez um ano no passado dia 19. Curiosamente, estamos novamente nos Estados Unidos e comentei isso com a minha equipa técnica. Também recebi algumas mensagens de jogadores a recordar esse momento, que foi muito bonito na história de um grande clube como o Botafogo.
Já falei sobre isso, o Abel Ferreira também, o Leonardo Jardim igualmente, e os próprios treinadores brasileiros, como o Renato Gaúcho, dizem o mesmo.
Se me perguntarem qual é o maior problema do futebol brasileiro, num país que produz jogadores com uma qualidade e uma quantidade fantásticas, onde as crianças praticamente nascem e crescem com uma bola debaixo do braço, respondo que é o calendário.
Não consigo conceber que os jogadores evoluam sem treinar. O treino é fundamental. Já o disse em várias entrevistas e agora posso falar abertamente. Quando estava no Brasil, terminava sempre por dizer que já conhecia as regras antes de lá chegar, por isso não se tratava de uma queixa. Mas o maior problema do futebol brasileiro, atualmente, é claramente o calendário.

Como treinador de formação, depois de ter passado 18 anos a formar jovens no Benfica, sei que todos eles evoluíram através do treino. O treino é como ir à escola: temos as aulas, que são os treinos, e depois o exame, que é o jogo.
É no treino que podemos parar para corrigir o jogador. É o contexto em que o atleta pode errar sem que esse erro tenha consequências desportivas graves. Podemos parar, corrigir e repetir. Não conheço ninguém que evolua sem repetir ações.
No seu caso, enquanto jornalista, repetiu dias de trabalho, de estudo e de prática. Não sei por que razão, no futebol, se encara isso de forma diferente. Talvez não seja por acaso que o Brasil não é campeão do mundo desde 2002.
Mas, como as pessoas não querem pensar nisso, olham cada vez mais para o futebol apenas como um negócio e tratam os jogadores como carne para abate. Não há tempo para descansar nem para treinar. As pessoas querem jogos, jogos e mais jogos. Esta sucessão de partidas de três em três dias banaliza a nossa paixão pelo desporto.
Quando era pequeno, o jogo era ao domingo e tinha de esperar até ao domingo seguinte. Havia ansiedade, havia expectativa, e valorizávamos aquilo a que assistíamos. Hoje, o futebol é tratado de forma banal e maltratamos as pessoas que fazem parte dele.
O pior, para mim, é ver um país com uma matéria-prima e uma mão de obra tão boas como o jogador brasileiro e não conseguir desenvolvê-lo porque não há tempo para treinar devido ao calendário.

Enquanto as pessoas continuarem a olhar para o lado e a pensar que o principal problema é sempre o treinador, mudando constantemente de comando técnico... Veja-se o caso da própria CBF: quantos treinadores passaram recentemente pela seleção brasileira sem que esta se tivesse sagrado campeã? O problema é sempre dos treinadores?
Não quero defendê-los cegamente. Quando têm de ser despedidos, tudo bem, mas o problema não pode ser sempre esse. Será que, no país do futebol, não podemos sentar-nos, refletir, comunicar e mudar aquilo que é evidente? As pessoas não veem porque não querem.
Basta olhar para a Europa. Existem jogos da Liga dos Campeões e da Liga Europa a meio da semana, mas não em todas as semanas. Na Europa, há semanas completas em que se trabalha de sábado a sábado ou de domingo a domingo. Quem sofre com a falta dessa perceção é o futebol brasileiro.
- O que tem achado do Mundial?
Gostaria muito de responder sobre o Mundial, mas não tenho conseguido ver praticamente nada. Não tenho tido tempo. Estamos na pré-temporada, uma pré-temporada muito preenchida, com treinos e sessões duplas, por isso quase não tenho acompanhado os jogos.
Vi talvez três partidas, durante as refeições, sem conseguir prestar grande atenção. Por muito que gostasse de dar uma opinião, não tenho condições para o fazer e não quero falar sobre aquilo que não sei nem dizer coisas que não correspondem à verdade.

- Como tem sido a experiência no Santos Laguna? Assumiu a equipa com uma pré-temporada completa para trabalhar bem o grupo.
Exatamente. Já levamos três semanas de trabalho muito, muito importantes. É um projeto que me cativou desde o início. O Santos Laguna é um clube histórico do México, com seis títulos, mas que atravessa atualmente um momento menos positivo. O desafio que me apresentaram passa por reerguer este projeto e fazer o clube regressar às suas origens vencedoras.
Encarei este desafio como um projeto a médio e longo prazo, que envolve uma renovação do plantel e de várias estruturas do clube. Como lhe digo, é para mim um enorme desafio e um grande orgulho poder tentar recuperar um histórico do futebol mexicano.
Assumimos o clube num momento difícil. Desportivamente, é de facto uma fase complicada, mas, tendo em conta o esforço e o investimento que o clube está a fazer, é um desafio de que estou a gostar bastante.

Tudo aquilo que me foi transmitido está a concretizar-se e, por isso, estou muito feliz: com os jogadores, com os reforços, com as condições de trabalho e com uma organização de alto nível. Estou muito satisfeito com o trabalho desenvolvido.
- Sabemos que o futebol mexicano é vivido com muita paixão. Como tem sido o contacto com os adeptos?
É um pouco isso. O México é um país muito futebolero, como se costuma dizer. Ao contrário dos Estados Unidos, onde a cultura desportiva está mais ligada ao basebol, ao basquetebol e ao futebol americano, no México o futebol é o desporto principal.
Por isso, existe muita matéria-prima. Muitas crianças desenvolvem desde cedo essa aptidão para o futebol, e os adeptos acompanham tudo com enorme paixão. É um país que vive intensamente o futebol.

O campeonato é forte do ponto de vista financeiro e, por isso, atrai muita qualidade individual. Além disso, existe uma tendência generalizada das equipas para abordarem o jogo de forma muito ofensiva. Não há muitos encontros fechados. Existe uma procura constante pelo espetáculo e pela baliza adversária, o que proporciona jogos interessantes aos adeptos.
Por vezes, o jogo parte-se e entra naquele lá e cá, com ataques sucessivos de parte a parte, quase como no futsal. Ainda assim, encaram o jogo com muita paixão. Gosto dessa forma de respeitarem a essência do futebol, que passa por procurar marcar golos, com menos preocupações defensivas. Isso atrai muito público e não me surpreende que o Mundial disputado no México tenha os estádios cheios, porque os mexicanos são, de facto, apaixonados por futebol.
- Recebeu alguma proposta do futebol brasileiro antes de assumir o Santos Laguna? Como esteve o mercado para si?
Tive duas abordagens: uma mais concreta, que esteve muito perto de se transformar numa proposta, e outra que não passou de uma sondagem. Mas decidi que ainda não era o momento de regressar ao trabalho e preferi esperar mais algum tempo.
Precisava de recuperar daquilo que me aconteceu no Botafogo e no Fortaleza. Há momentos em que temos de parar, rever o que está a acontecer e analisar os projetos. Foi isso que fiz. Fiquei algum tempo à espera.
Depois, recebi propostas do Chile e do Paraguai, além de abordagens de duas seleções nacionais. Ainda assim, o Santos Laguna foi o projeto que mais me convenceu. O momento também me pareceu ideal para voltar a trabalhar e estou muito orgulhoso por estar aqui.

- Sobre o futebol português, sei que tem acompanhado o Benfica, clube por onde passou e que vive agora uma mudança com a saída de Mourinho.
Sim, são ciclos que terminam e outros que começam. É normal. O Real Madrid foi buscar Mourinho e é natural que ele tenha querido aceitar. Como é óbvio, não se pode dizer 'não' ao Real Madrid. Mas são ciclos. O Benfica continuará o seu caminho, substituindo treinadores e jogadores, como fazem todas as equipas, e certamente terá dias melhores pela frente.
- Para terminar, qual é o seu sonho atual ao comando do Santos Laguna?
O sonho é aquilo que transmiti ao presidente e ao diretor desportivo: recuperar o clube e recolocá-lo no patamar em que esteve durante muitos anos. O Santos Laguna é um clube relativamente jovem. Se compararmos o tempo de existência com o número de títulos conquistados, é realmente impressionante. É uma instituição jovem, mas já com um percurso muito vitorioso.

Por isso, antes de prometer títulos, o nosso grande objetivo, e também o meu sonho, é fazer com que o projeto funcione, recuperar o Santos Laguna, retirá-lo das posições incómodas que ocupou nas últimas temporadas e recolocá-lo entre os grandes do futebol mexicano, à altura da sua história.
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