A corrida pelo título poderá em breve, talvez já no próximo fim de semana, entregar ao Inter o seu 21.º scudetto: aquele pequeno emblema tricolor cosido na camisola que tem uma história muito mais antiga e surpreendente do que se possa imaginar. Não é apenas um símbolo desportivo: as suas raízes mergulham num episódio histórico que remonta a mais de um século.
É preciso recuar ao primeiro pós-guerra e à chamada Empresa de Fiume, liderada por Gabriele D’Annunzio. Em 1919, o poeta-soldado ocupou a cidade de Fiume, dando origem à Regência do Carnaro. Nesse contexto, em 1920, organizou também um jogo de futebol entre uma seleção local e uma equipa formada pelos seus legionários. Foi precisamente nessa ocasião que surgiu pela primeira vez um detalhe destinado a marcar a história: nas camisolas azuis dos seus homens foi cosido um scudetto com as cores da bandeira italiana.
A escolha não foi ao acaso. O tricolor representava toda a nação, ao contrário do brasão da Casa de Saboia, que remetia apenas para a monarquia. Esse sinal, nascido quase como um gesto simbólico, marcou o imaginário coletivo e, alguns anos depois, foi oficialmente adotado pelo futebol italiano.

O scudetto binário
Em 1924, a federação decidiu introduzir o scudetto como distintivo para a equipa campeã de Itália. O primeiro a exibi-lo foi o Génova na época 1924/25, depois de ter conquistado o título no ano anterior. A partir desse momento, o símbolo tornou-se parte integrante da tradição futebolística italiana.
Com o passar do tempo, o scudetto sofreu várias transformações. Durante o período fascista, foi substituído pelo brasão da Casa de Saboia acompanhado pelo feixe lictório (o chamado scudetto binário), refletindo o contexto político da época. Só após a Segunda Guerra Mundial é que se regressou definitivamente ao tricolor, na forma que conhecemos atualmente.
O scudetto republicano
Um momento decisivo chega precisamente em 1945, numa Itália ainda dividida e em plena reconstrução. Nesse ambiente incerto, marcado por tensões entre a monarquia e as correntes republicanas, foram os jogadores do Torino que deram forma concreta ao scudetto moderno. Numa partida amigável internacional em Lausana, os granata decidiram apresentar-se com um símbolo tricolor sem o brasão da Casa de Saboia, substituindo manualmente o anterior que estava cosido nas camisolas. Uma escolha espontânea, quase “de baixo para cima”, tomada sem imposições da federação e também fruto das convicções políticas de muitos dos protagonistas da equipa.

Aquele emblema, nascido entre necessidade e convicção, foi depois exibido ao longo de toda a época sem que as instituições interviessem, até se tornar um sinal reconhecido e aceite. Após o referendo de 1946 e o nascimento da República, a federação adotou-o oficialmente como símbolo dos campeões de Itália. Também graças ao ciclo vitorioso do Grande Torino, esse scudetto enraizou-se definitivamente no imaginário coletivo, transformando-se no símbolo que ainda hoje representa a equipa campeã de Itália.
Desde então, apenas a posição ou o tamanho na camisola mudou, mas não o seu significado: o scudetto continua a ser o sinal distintivo de quem venceu, um símbolo que une desporto, história e identidade nacional.
