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Do bairro à Libertadores: uma noite na casa do Platense

Visão da posição do Flashscore no estádio Ciudad de Vicente Lopez
Visão da posição do Flashscore no estádio Ciudad de Vicente LopezDaniel Kaiser/Flashscore

Uma experiência de Libertadores à moda antiga. É talvez a melhor definição para uma noite em casa do Platense. Para quem chega pela primeira vez ao Estádio Ciudad de Vicente López, a maior surpresa pode estar precisamente em não perceber, à primeira vista, que está a entrar num recinto que recebe um jogo dos quartos de final da principal competição de clubes do continente.

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As ruas residenciais e as casas compõem o cenário inicial. Aos poucos, porém, começam a surgir as cores do Platense, os adeptos aproximam-se e torna-se evidente que aquele pedaço de Vicente López está prestes a viver uma noite que o clube nunca tinha experimentado.

É difícil encontrar uma expressão que traduza melhor a experiência do que a frase exibida no ecrã gigante do estádio para a Libertadores: "Del barrio al continente".

Adeptos do Fluminense acedem ao estádio no meio de uma area residencial
Adeptos do Fluminense acedem ao estádio no meio de uma area residencialDaniel Kaiser/Flashscore

Foi a primeira participação do clube na competição, levando para a principal prova de clubes da América do Sul uma experiência profundamente local.

O Ciudad de Vicente López, com capacidade para cerca de 30 mil pessoas e que foi alvo de adaptações para cumprir as exigências da CONMEBOL, foi o palco escolhido.

Ecrã gigante com a frase ''Del barrio al continente''
Ecrã gigante com a frase ''Del barrio al continente''Daniel Kaiser/Flashscore

Um estádio no meio do bairro

Os adeptos chegam a pé e formam-se filas junto aos acessos. Não existe aquela sensação de estar a entrar numa arena moderna, isolada do resto da cidade. O estádio está ali, no meio da vida quotidiana de Vicente López, junto à fronteira com Buenos Aires e à margem de uma autoestrada.

E talvez seja precisamente essa uma das características mais marcantes do Ciudad de Vicente López: a fronteira entre o bairro e o estádio parece muito mais ténue do que nas grandes arenas brasileiras.

Adeptos do Platense formam fila para entrar no estádio
Adeptos do Platense formam fila para entrar no estádioDaniel Kaiser/Flashscore

A entrada dos adeptos desemboca praticamente na bancada. O percurso entre a rua e o relvado é curto. Para quem está habituado a estádios de "padrão FIFA", a sensação é a de entrar diretamente no coração do jogo.

A entrada do estádio, na rua, deixa os adeptos de frente para o campo
A entrada do estádio, na rua, deixa os adeptos de frente para o campoDaniel Kaiser/Flashscore

Proximidade com o campo

Essa proximidade também se sente no interior do estádio. As bancadas ficam muito próximas do relvado e praticamente coladas aos bancos de suplentes. Durante o intervalo, é possível ver pessoas a circular ao nível do campo para irem ao bar ou à casa de banho.

As arquibancadas ficam muito próximas do campo e do banco de reservas
As arquibancadas ficam muito próximas do campo e do banco de reservasDaniel Kaiser/Flashscore

Além da proximidade ao relvado, há outros pormenores que chamam a atenção. Um deles está no centro do campo: a estrutura do VAR. A cabine da CONMEBOL fica praticamente no meio dessa zona de circulação, separada do público apenas por uma grade.

Adeptos circulam ao lado do relvado para chegar aos bares e casas de banho durante o intervalo
Adeptos circulam ao lado do relvado para chegar aos bares e casas de banho durante o intervaloDaniel Kaiser/Flashscore

Estrutura para a imprensa

A zona destinada à imprensa revela outro lado da experiência. As pequenas mesas ficam próximas das bancadas, instaladas na parte mais alta de uma das tribunas do estádio e separadas dos adeptos por uma simples barra de ferro.

O Flashscore esteve no local para acompanhar a partida in loco. O lugar reservado tinha uma particularidade: ficava exatamente por baixo de uma das colunas de som do estádio.

Setor de imprensa do estádio Ciudad de Vicente Lopez
Setor de imprensa do estádio Ciudad de Vicente LopezDaniel Kaiser/Flashscore Brasil

E, numa cobertura de um jogo na Argentina, não podia faltar o lanche entregue à imprensa. Algo raro, praticamente inexistente na rotina dos jornalistas que trabalham nos estádios brasileiros.

Lanche entregue para a imprensa antes do jogo
Lanche entregue para a imprensa antes do jogoDaniel Kaiser/Flashscore Brasil

Na Argentina, oferecer alimentação aos profissionais da imprensa é uma prática comum. No Ciudad de Vicente López, havia diferentes opções de sandes, empanadas e até um alfajor artesanal doce, entregues aos jornalistas no momento da acreditação.

Outra particularidade do estádio é a ausência de cobertura. Em caso de chuva, não haveria proteção para o equipamento da imprensa. Se a água vinda do céu não foi um problema, o vento frio, com temperaturas abaixo dos 10 graus, fez-se sentir durante toda a partida.

Posição de transmissão do Flashscore durante a partida
Posição de transmissão do Flashscore durante a partidaDaniel Kaiser/Flashscore

Nos jogos organizados pela CONMEBOL, a entidade exige uma zona mista com uma estrutura mais ampla, por onde todos os jogadores devem passar e onde tem de existir espaço para os detentores de direitos, televisões não detentoras e órgãos de comunicação social online.

Num estádio acanhado como o Ciudad de Vicente López, essa estrutura teve de ser improvisada e acabou por ser montada no pavilhão de basquetebol do Platense, situado nas traseiras do estádio.

Zona mista no pavilhão de basquetebol do Platense
Zona mista no pavilhão de basquetebol do PlatenseDaniel Kaiser/Flashscore Brasil

Confusão no fim

Durante toda a partida, o sistema de som do estádio foi pedindo aos adeptos das duas equipas que não subissem às grades.

No final, essa facilidade de acesso às grades e até ao relvado, típica de um estádio mais acanhado, acabou por se transformar num problema. Adeptos do Platense invadiram o campo, roubaram uma tarja dos adeptos do Fluminense e arremessaram vários objetos na direção dos brasileiros.

Durante a confusão, chamou a atenção a ausência inicial da polícia e a demora na chegada dos agentes. A equipa de segurança privada ficou encurralada e, mesmo após a chegada das autoridades, a intervenção não foi imediata.

Adeptos do Platense roubaram uma faixa da claque do Fluminense
Adeptos do Platense roubaram uma faixa da claque do FluminenseDaniel Kaiser/Flashscore

Devido à proximidade com os adeptos, instalou-se algum receio entre os jornalistas, sobretudo entre os brasileiros, de que pudesse acontecer algum incidente. Alguns adeptos do Platense olhavam repetidamente para as tribunas sempre que eram relatados lances de perigo ou o golo do Fluminense.

Ainda assim, no momento da confusão, os adeptos que se encontravam naquele setor mostraram indignação perante as cenas.

Defesa Juan Freytes, do Fluminense, leva soco de dirigente do Platense durante a confusão
Defesa Juan Freytes, do Fluminense, leva soco de dirigente do Platense durante a confusãoDaniel Kaiser/Flashscore

Apesar de tudo, cobrir um jogo dos quartos de final da Libertadores neste estádio é uma experiência incrível e inesquecível para qualquer jornalista. É a experiência mais pura, mais "raiz", da competição.

O Platense não conseguiu chegar às meias-finais. A histórica participação na Libertadores terminou diante do Fluminense. Ainda assim, durante algumas semanas, aquele estádio rodeado por ruas residenciais recebeu adeptos, jogadores e jornalistas de diferentes pontos da América do Sul.

O clube saiu do bairro para o continente sem deixar o bairro para trás.

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