Veja como foi Platense 2x1 Fluminense
As ruas residenciais e as casas compõem o cenário inicial. Aos poucos, porém, começam a surgir as cores do Platense, os adeptos aproximam-se e torna-se evidente que aquele pedaço de Vicente López está prestes a viver uma noite que o clube nunca tinha experimentado.
É difícil encontrar uma expressão que traduza melhor a experiência do que a frase exibida no ecrã gigante do estádio para a Libertadores: "Del barrio al continente".

Foi a primeira participação do clube na competição, levando para a principal prova de clubes da América do Sul uma experiência profundamente local.
O Ciudad de Vicente López, com capacidade para cerca de 30 mil pessoas e que foi alvo de adaptações para cumprir as exigências da CONMEBOL, foi o palco escolhido.

Um estádio no meio do bairro
Os adeptos chegam a pé e formam-se filas junto aos acessos. Não existe aquela sensação de estar a entrar numa arena moderna, isolada do resto da cidade. O estádio está ali, no meio da vida quotidiana de Vicente López, junto à fronteira com Buenos Aires e à margem de uma autoestrada.
E talvez seja precisamente essa uma das características mais marcantes do Ciudad de Vicente López: a fronteira entre o bairro e o estádio parece muito mais ténue do que nas grandes arenas brasileiras.

A entrada dos adeptos desemboca praticamente na bancada. O percurso entre a rua e o relvado é curto. Para quem está habituado a estádios de "padrão FIFA", a sensação é a de entrar diretamente no coração do jogo.

Proximidade com o campo
Essa proximidade também se sente no interior do estádio. As bancadas ficam muito próximas do relvado e praticamente coladas aos bancos de suplentes. Durante o intervalo, é possível ver pessoas a circular ao nível do campo para irem ao bar ou à casa de banho.

Além da proximidade ao relvado, há outros pormenores que chamam a atenção. Um deles está no centro do campo: a estrutura do VAR. A cabine da CONMEBOL fica praticamente no meio dessa zona de circulação, separada do público apenas por uma grade.

Estrutura para a imprensa
A zona destinada à imprensa revela outro lado da experiência. As pequenas mesas ficam próximas das bancadas, instaladas na parte mais alta de uma das tribunas do estádio e separadas dos adeptos por uma simples barra de ferro.
O Flashscore esteve no local para acompanhar a partida in loco. O lugar reservado tinha uma particularidade: ficava exatamente por baixo de uma das colunas de som do estádio.

E, numa cobertura de um jogo na Argentina, não podia faltar o lanche entregue à imprensa. Algo raro, praticamente inexistente na rotina dos jornalistas que trabalham nos estádios brasileiros.

Na Argentina, oferecer alimentação aos profissionais da imprensa é uma prática comum. No Ciudad de Vicente López, havia diferentes opções de sandes, empanadas e até um alfajor artesanal doce, entregues aos jornalistas no momento da acreditação.
Outra particularidade do estádio é a ausência de cobertura. Em caso de chuva, não haveria proteção para o equipamento da imprensa. Se a água vinda do céu não foi um problema, o vento frio, com temperaturas abaixo dos 10 graus, fez-se sentir durante toda a partida.

Nos jogos organizados pela CONMEBOL, a entidade exige uma zona mista com uma estrutura mais ampla, por onde todos os jogadores devem passar e onde tem de existir espaço para os detentores de direitos, televisões não detentoras e órgãos de comunicação social online.
Num estádio acanhado como o Ciudad de Vicente López, essa estrutura teve de ser improvisada e acabou por ser montada no pavilhão de basquetebol do Platense, situado nas traseiras do estádio.

Confusão no fim
Durante toda a partida, o sistema de som do estádio foi pedindo aos adeptos das duas equipas que não subissem às grades.
No final, essa facilidade de acesso às grades e até ao relvado, típica de um estádio mais acanhado, acabou por se transformar num problema. Adeptos do Platense invadiram o campo, roubaram uma tarja dos adeptos do Fluminense e arremessaram vários objetos na direção dos brasileiros.
Durante a confusão, chamou a atenção a ausência inicial da polícia e a demora na chegada dos agentes. A equipa de segurança privada ficou encurralada e, mesmo após a chegada das autoridades, a intervenção não foi imediata.

Devido à proximidade com os adeptos, instalou-se algum receio entre os jornalistas, sobretudo entre os brasileiros, de que pudesse acontecer algum incidente. Alguns adeptos do Platense olhavam repetidamente para as tribunas sempre que eram relatados lances de perigo ou o golo do Fluminense.
Ainda assim, no momento da confusão, os adeptos que se encontravam naquele setor mostraram indignação perante as cenas.

Apesar de tudo, cobrir um jogo dos quartos de final da Libertadores neste estádio é uma experiência incrível e inesquecível para qualquer jornalista. É a experiência mais pura, mais "raiz", da competição.
O Platense não conseguiu chegar às meias-finais. A histórica participação na Libertadores terminou diante do Fluminense. Ainda assim, durante algumas semanas, aquele estádio rodeado por ruas residenciais recebeu adeptos, jogadores e jornalistas de diferentes pontos da América do Sul.
O clube saiu do bairro para o continente sem deixar o bairro para trás.
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