Recorde as incidências do encontro
Existem histórias que o tempo não consegue apagar. Em Cusco, uma geração inteira ainda recorda aquela noite de dezembro de 2003 em que Cienciano ergueu a Taça Sul-Americana e tornou-se o primeiro – e até hoje único – clube peruano campeão de uma competição internacional oficial. 23 anos depois, o Papá voltou a fazer algo que parecia reservado à memória: goleou um gigante brasileiro e voltou a olhar de frente para o troféu que já conquistou.
O 6-1 frente ao Botafogo não é apenas uma vitória expressiva. É uma afirmação. A equipa de Cusco esmagou o campeão brasileiro na altitude, marcou quatro golos em apenas 34 minutos e acabou por assinar uma das exibições internacionais mais impressionantes de um clube peruano nos últimos anos.
Agora tem uma vantagem de cinco golos para encarar a segunda mão no Rio de Janeiro. Parece uma diferença decisiva, embora no futebol sul-americano ainda reste um jogo por disputar. O vencedor desta eliminatória defrontará nos quartos de final o vencedor do duelo entre Tigre e Montevideo City Torque.
Mas antes de pensar no que aí vem, é preciso perceber o significado do que acabou de acontecer.
Memória de 2003 volta a surgir
Há 23 anos, o Cienciano também parecia estar a protagonizar uma história demasiado grande para um clube peruano. Com Freddy Ternero no banco, eliminou o Alianza Lima, Universidad Católica, Santos e Atlético Nacional antes de chegar a uma final frente ao River Plate. Na decisão, empatou 3-3 em Buenos Aires e venceu 1-0 em Arequipa para erguer a Taça Sul-Americana.
Aquela geração liderada por Germán Carty, Santiago Acasiete, Óscar Ibáñez, Carlos Lugo e companhia fez algo que nenhum outro clube peruano conseguiu repetir. No ano seguinte, além disso, derrotou o Boca Juniors nos penáltis e conquistou a Recopa Sul-Americana. São, até hoje, os únicos dois títulos internacionais de clubes que o futebol peruano possui.
Por isso, cada campanha internacional do Cienciano carrega inevitavelmente uma comparação. Não porque esta equipa tenha de repetir exatamente aquela história. Mas porque o clube sabe melhor do que ninguém que as grandes façanhas também podem começar numa noite inesperada. E a de quinta-feira foi enorme.
A altitude voltou a ser aliada
O Botafogo chegou a Cusco depois de uma fase de grupos em que terminou invicto e com 16 pontos. No papel, era um adversário de enorme categoria. No relvado, porém, ficou completamente ultrapassado.
A altitude teve o seu peso, mas reduzir o 6-1 apenas aos 3.400 metros de Cusco seria injusto para o Cienciano.
A equipa de Carlos Desio foi intensa, agressiva e eficaz. Encontrou espaços, atacou pelas alas e aproveitou cada erro do adversário brasileiro. Matías Succar e Neri Bandiera foram protagonistas de uma noite extraordinária. Succar assinou um hat-trick e Bandiera também bisou, enquanto Marcos Martinich fechou a goleada.
Quatro golos antes do intervalo explicam melhor do que qualquer argumento o que se passou. O Botafogo não encontrou respostas. O Cienciano não teve piedade. E Cusco voltou a mostrar que pode ser um palco complicado para qualquer adversário.
Uma geração que quer escrever a sua própria história
O mais interessante é que este Cienciano não precisa de viver permanentemente de 2003. A memória de Ternero e daquela geração é uma bandeira, não um peso. Os jogadores atuais têm a oportunidade de construir a sua própria história.
Maxi Amondarain explicou-o depois da goleada. O defesa uruguaio falou do sonho de "fazer algo histórico como se fez no passado". Essa frase resume o que está a acontecer.

O Cienciano já não joga apenas para ir mais longe do que outros clubes peruanos. Joga com a possibilidade real de voltar a estar entre os protagonistas de uma competição internacional. E isso muda a dimensão desta campanha. Porque o Papá não está a ver a Taça Sul-Americana à distância. Está a 90 minutos dos quartos de final.
E se desta vez for mesmo?
A vantagem é enorme. O Botafogo precisa de vencer por cinco golos para forçar os penáltis e por seis para seguir em frente diretamente. O jogo da segunda mão será disputado no estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro.
A equipa peruana terá de jogar com inteligência. Não pode entrar para se defender durante 90 minutos nem pensar que a qualificação está garantida. Mas também não precisa de se transformar noutra equipa.
Tem uma identidade. Tem a experiência de jogar em altitude. Tem jogadores que atravessam um grande momento. E, acima de tudo, tem uma história que volta a empurrá-lo.

Há 23 anos, o Cienciano mostrou que um clube peruano podia conquistar a América do Sul. Depois daquela Taça Sul-Americana chegou a Recopa e, com ela, a confirmação de que o feito de 2003 não tinha sido um acaso.
Agora o Papá volta a estar perto. Ainda falta muito para pensar numa final. Falta ultrapassar o Botafogo, deixar para trás os quartos de final e depois as meias-finais. Falta percorrer um caminho que estará repleto de equipas brasileiras, argentinas e uruguaias habituadas a estas fases.
Mas depois de um 6-1, ninguém pode pedir a Cusco para não sonhar. Porque durante uma noite, o Cienciano voltou a ser aquela equipa que fez o Peru acreditar que tudo era possível. E 23 anos depois, o troféu que um dia ergueu voltou a surgir no horizonte.
