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Entrevista a Tomás Paçó: "Quem joga no Sporting sabe que a Liga dos Campeões não chega"

Tomás Paçó fez toda a formação e jogou toda a carreira no Sporting
Tomás Paçó fez toda a formação e jogou toda a carreira no SportingSporting

Após uma época contrastante marcada pela conquista da Liga dos Campeões de futsal, mas com a perda do campeonato nacional para o Benfica, Tomás Paçó faz o balanço da temporada do Sporting. Em entrevista, o fixo internacional português aborda as exigências de Nuno Dias, a pressão e as críticas sobre o seu irmão Bernardo Paçó na baliza leonina, a aposta amigável feita com Zicky Té e o regresso de Erick Mendonça ao balneário verde e branco.

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"Fizemos história ao ganhar a Champions, mas quem joga no Sporting sabe que não chega"

- Fazendo um balanço da época, houve um sabor agridoce. Foram campeões da Europa, que era um objetivo com algum tempo, mas depois, em termos de sequência, perderam o campeonato, a Taça da Liga e a Taça de Portugal.

Foi uma temporada difícil. O Sporting começou bem, ganhou a Supertaça e tinha como objetivo, como sempre, ganhar as outras competições. Com algumas dificuldades pelo caminho, lesões, algumas pedras no caminho, tentámos ultrapassar essas dificuldades, mas nem sempre foi possível. Caímos na Taça (da Liga) logo (nos quartos de final), contra os Leões de Porto Salvo, e, depois, caímos na final da Taça de Portugal contra o Benfica. A equipa estava a passar por um momento difícil.

Quando fomos para a Liga dos Campeões, sabíamos que aquele momento era muito importante para a equipa, para dar uma resposta, para nós jogadores ganharmos confiança para o que vinha. Falávamos no balneário que poderíamos ainda dar uma resposta e fazer uma das melhores épocas, que era ganhar a Champions e o campeonato, ou poderíamos fazer a pior época de sempre do Sporting e ficarmos marcados pelo mal também. Conseguimos sair vencedores da Champions, ganhámos com todo o mérito. Das cinco equipas do ranking UEFA, ganhámos a quatro, porque a quinta somos nós: ganhámos ao Kairat, ao Cartagena, ao Benfica e ao Palma. Sem muita dúvida de quem merecia ser o vencedor.

Depois chegámos à fase final do campeonato, também com algumas limitações, fizemos cinco jogos muito bem disputados, mas infelizmente não caiu para o nosso lado. Faltou-nos muitas vezes sorte, mas como dizemos dentro de campo, a sorte procura-se. Houve momentos que poderíamos ter lidado de outra forma, até porque na Luz perdemos o jogo nos penáltis, no terceiro jogo, e podia ter mudado a história. Estávamos a ganhar, falhámos o último, e acredito que esse jogo foi a decisão, porque se ganhássemos esse jogo na Luz, seria muito difícil não sermos campeões no João Rocha.

Sabíamos que tínhamos que ganhar o último jogo à Luz e nesta época não conseguimos sair uma vez com uma vitória na Luz, sabíamos que era muito difícil. Mesmo assim lutámos, fizemos um bom jogo, não conseguimos, faz parte. Acabamos a época com esse sabor amargo, porque conseguimos a Champions e a Supertaça, mas quem joga no Sporting sabe que isso não chega. Foi muito bom, fizemos história ao ganhar a Champions, mas temos que dar mais e na próxima época vamos com o objetivo de recuperar tudo o que temos que recuperar.

"O Benfica deu um salto e nós temos que dar um salto ainda maior"

- Olhando para a próxima época e para esses pequenos detalhes, o que achas que faltou? Querendo ou não, o Zicky - que só teve operacional na última fase da época - também condiciona, não só o adversário, como a vossa própria equipa pela forma como defende e como ataca.

Sim, contar com o Zicky é sempre bom para qualquer equipa, é um dos melhores pivôs do mundo, faz a diferença em qualquer equipa. Isso foi um dos fatores, mas o Tainán e o Henrique também fizeram falta. Todos os jogadores que estão no Sporting fazem falta. Não foi pelo Zicky não jogar no último jogo que não conseguimos vencer. Temos de trazer alguma maturidade ao jogo na próxima época, saber sofrer, que aprendemos nos cinco jogos das finais, porque começámos todos os jogos a perder. Tentar entrar de uma forma diferente no jogo, mais confiantes, mais intensos, a impor o nosso jogo.

Aquilo que fizemos na Champions é o exemplo para a próxima época. A confiança com que jogávamos, a confiança com que começávamos o jogo era como se já estivéssemos a ganhar um ou dois a zero. Isso nos outros anos acontecia e este ano não tínhamos essa postura. Isso muda muito a forma como entras no jogo, como a outra equipa sente como estás no jogo, dá confiança e tira a confiança à outra equipa.

Tomás Paçó enfrenta Kutchy na final do campeonato nacional
Tomás Paçó enfrenta Kutchy na final do campeonato nacionalANTÓNIO COTRIM/LUSA

- Sentes também que o Benfica deu um salto qualitativo nestas últimas duas épocas desde que o Cassiano Klein entrou? Houve muito investimento do Benfica nas últimas épocas para igualar o Sporting.

Temos que dizer que houve uma mudança, porque nos últimos dois anos o Benfica foi bicampeão nacional. O Cassiano trouxe qualidade à equipa, trouxe uma mentalidade que o Benfica está a agarrar bem e que os jogadores ouvem o treinador. Isso faz diferença. Mas eles deram um salto e nós temos que dar um salto maior. Temos que respeitar se eles estão melhores, se estão num momento melhor, e talvez dar um passo atrás para poder dar dois à frente e ver o que temos que fazer melhor. Ver em que é que eles são bons e o que nós somos melhores e tentar levar o jogo sempre para o nosso lado.

"Fiz uma aposta com o Zicky e ele nunca me passava a bola"

- Olhando para a próxima época e considerando os teus números da última época - em que fizeste golos ao nível de um pivô -, consideras-te o melhor fixo do mundo neste momento?

Não gosto de dizer que me considero o melhor fixo do mundo. Considero-me um jogador à altura do Sporting. Trabalho todos os dias para ser o melhor. Quero jogar os 40 minutos, sei que não é possível, jogo muitos minutos e já os sinto, mas quero jogar os 40 minutos, quero estar sempre bem fisicamente, quero fazer parte de todo o jogo, do jogo defensivo, ofensivo, das bolas paradas. Quero ser esse jogador. Odiava quando diziam que 'o Tomás é o melhor defensor'. Não, o Tomás é um bom jogador, não é o melhor defensor, nem o melhor atacante, é um bom jogador. Quero marcar golos, tirar bolas aos pivôs, marcar de livre, de canto, de fora (da área).  Quero ser um jogador que está nas decisões, que assume a responsabilidade quando tiver que assumir, porque é isso que me faz trabalhar todos os dias. Preciso sempre de uma motivação extra e a motivação que encontrei a época passada era essa.

No início da época fiz uma aposta com o Zicky, posso dizer isto abertamente. Disse: 'Zicky, vamos fazer uma aposta. Esta época vou acabar com mais golos e assistências que tu'. E ele: 'Ah, é? Então vamos apostar'. E apostámos. Acabei com mais golos e mais assistências também. Ele teve azar, passou uma época toda de fora, mas mesmo assim com os números acho que ia ser equilibrado. Nos jogos em que ele jogou, sempre que tinha a bola nunca me passava. Nos jogos que jogávamos, ele dizia: 'Já marquei um. Já fiz uma assistência'. E eu: 'Ah, é? Então espera'.

Ter essa competição dentro da equipa também é boa, porque motiva-nos todos os dias nos treinos, nos jogos, principalmente naqueles jogos em que o rival não é tão forte. Porque no futsal não tem equipas com esta diferença grande, os jogos às vezes ficam por números muito grandes e a motivação não é a mesma de jogar contra um Benfica, um SC Braga ou um Cartagena. Então essa competição dentro da equipa traz motivação para esses jogos, para melhorar a estatística.

- E o que apostaram?

Tínhamos apostado 100 euros. Quando acabou a época, disse-lhe: 'Zicky, fica com os 100 euros, faz o seguinte: dá 50 ao teu irmão e 50 à tua irmã, eu não quero o teu dinheiro'. E assim foi.

- Estávamos já a olhar para a próxima época e o Erick está de volta. O que ele vai acrescentar à equipa? Já tinhas saudades dele e o que ele traz?

Todos os sportinguistas já tinham saudades dele. Notou-se nas redes sociais quando anunciaram que o Erick voltava. Vem trazer muita coisa. Vem trazer uma mentalidade que estávamos a precisar, a tal mentalidade de entrar no jogo já a ganhar. Vem fazer um bom balneário, como sempre, vem acrescentar qualidade à equipa, tanto para quando faltar um pivô, ele pode fazer de pivô. Joga fixo, pode jogar às vezes a ala, se estivermos a jogar, por exemplo, em 4-0. É um jogador que se adapta ao que a equipa precisa e acho que é um grande regresso para o Sporting.

"O meu irmão foi o melhor da Champions e parece que não chega"

- E como é jogar com o teu irmão?

Jogar com o meu irmão é muito bom, mas também é difícil, porque ele agora assume a baliza do Sporting, é o responsável pela nossa baliza. Entro em campo já com algum friozinho na barriga pelo meu jogo. E estando lá ele, fico mais nervoso por ele do que por mim. Então penso: 'Por favor, mano, concentra-te, faz um bom jogo'. Até por causa da forma como os nossos guarda-redes são criticados, muitas vezes injustamente. A posição de guarda-redes é a mais ingrata que existe no futebol e no futsal, porque podes fazer 30 defesas no jogo, sofres dois golos e se a tua equipa perde 2-1, tu és o culpado e toda a gente vai cair em cima de ti e começam a dizer: 'Faz falta aquele'. Os três guarda-redes que o Sporting tem lutavam para ser titulares em qualquer equipa do mundo. 

Muitas vezes os nossos adeptos não têm noção da qualidade dos nossos guarda-redes. Mas é como sempre, muitas vezes o português gosta mais do que está lá fora do que quando tem boas coisas em casa. Só dás valor quando elas vão embora. Quando vão embora é que dizem: 'Temos que trazer de volta ou isto ou aquilo'. Depois as coisas correm bem, ganhamos a Champions, melhor do mundo. O meu irmão foi o melhor guarda-redes do Europeu, melhor guarda-redes da Champions, considerado o melhor guarda-redes da fase regular do campeonato, mas mesmo assim não serve para a baliza do Sporting. Se perdemos, a culpa é do guarda-redes, mas faz parte de ser profissional.

- E não achas que ficou à sombra, até olhando para quem ele foi substituir (Guitta), não é? Ele teve quase que um estágio, não é?

Sim, claro. O Guitta era o iluminado. O Guitta fazia coisas que não lembrava a ninguém. Às vezes virava-se de costas e defendia a bola. Mas ser profissional tens que saber lidar com essas críticas, porque são normais, são de adeptos. Eu próprio sou adepto e quando vejo os jogadores de futebol, também faço críticas e depois penso: 'Estou a criticar um gajo que talvez já fez 20 mil jogos bons e agora estou a criticá-lo por um jogo mau'. Somos seres humanos, vamos errar? Vamos. Vamos acertar? Vamos.

Temos que lidar com essas críticas, temos que ter uma carcaça rija. Muitas vezes custa-me ouvir essas coisas acerca do meu irmão, porque as críticas sobre mim já estou habituado. Já estou num patamar em que já tenho as costas mais rijas que o meu irmão. E ele agora está a começar a lidar melhor com essas críticas. A dificuldade é mais essa. Mas o resto é tudo bom. Adoro jogar com o meu irmão, ele conhece-me como ninguém e espero continuar muito mais tempo a jogar com ele.

- Vocês têm da parte do Sporting ou até em termos pessoais, algum apoio para lidarem com este tipo de críticas? São acompanhados por um psicólogo?

Sim. O Sporting tem um departamento de psicologia em que os jogadores estão livres para falar com o psicólogo. Depois cada um tem o acompanhamento do mental coach. Eu não tenho nada. De vez em quando gosto de falar com alguém, principalmente com o psicólogo da seleção, o professor Silvério. Recorro muito ao professor, faço algumas chamadas, quando lá vou também gosto de falar com ele, mas é muito para desabafar e muitas vezes até gosto de falar coisas que não são sobre o jogo. 

Esta época adotei uma coisa: em casa com a minha família, que é toda do Sporting, adoram ver os nossos jogos. Depois chegamos a casa e, numa derrota ou numa vitória, vou jantar com os meus tios e vamos falar sobre o jogo, futebol ou futsal. Eu assumi que quando estiver fora do Sporting, fora do meu local de trabalho, vou chegar a casa e não vou falar do meu trabalho. Porque tu chegas a casa, não queres falar do teu trabalho. Queres estar com os teus filhos, desanuviar do trabalho. Dei por mim, chegava a casa e estava a falar sobre o meu trabalho, a pensar 'devia ter feito aquilo'. Não, há um espaço e um momento. Dividir esse momento é muito importante para nós, porque há muita gente que não considera o que fazemos um trabalho. Somos privilegiados, fazemos o que gostamos, mas o que gostamos já não é só prazer, é o meu trabalho.

O que faço bem ou mal tem consequências. Tenho uma pressão em cima que tu não tens no teu trabalho: tenho a pressão de mais não sei quantos mil adeptos e mais treinadores e jogadores, e tu tens do teu patrão, mas se tu errares, só tu e o teu patrão sabem. Eu não, toda a gente sabe e tem uma consequência maior. Essa pressão e esses nervos, se não conseguires separar bem do teu trabalho com a tua família, começa a afetar a tua vida pessoal. E eu disse: 'Chego a casa, não quero falar mais nada sobre futsal'. Falo de futsal quando estiver sozinho a pensar nas minhas coisas ou dentro do pavilhão. De resto, quero estar com a minha família, quero aproveitar, falar sobre outras coisas, ténis, golfe, menos futsal, por favor. Foi isso que adotei e até falei com a minha mulher, que também adora, é como se fosse treinadora.  Chego a casa e tenho a treinadora a falar. Tinha de acabar isso, acho que é importante.

"Nuno Dias é o melhor treinador do mundo"

- E como é lidar com o Nuno Dias?

Estou nos seniores há seis anos. Comecei a lidar com o Nuno há oito anos, era júnior ou juvenil e ia treinar aos seniores. É uma pessoa muito exigente, está sempre em cima de ti, mas é porque gosta de ti. Se vê potencial em ti, se vê que podes acrescentar valor, vai estar sempre em cima de ti para tirar o melhor. Tens que aguentar essa pressão, porque no início, quando subi aos seniores, ele não me largava. Eu fazia 20 passes bons, fazia um mau, ele já estava em cima de mim a gritar. Mesmo até no ano passado, ele falava comigo: 'Tu chutas bem, mas podias acertar mais vezes na baliza para ver se fazias mais golos'. Comecei a ter essa preocupação, porque ele todos os treinos apertava comigo sobre a finalização: Comecei a fazer o que ele dizia, acertei mais vezes na baliza e fiz os números que fiz.

Para mim é o melhor treinador do mundo. Como pessoa também é impecável, mas é uma pessoa direta, vai dizer-te sempre tudo na cara. Às vezes é difícil de lidar, porque é muito exigente, quer tanto tirar o melhor proveito de ti, vai exigir muito. Se não tiveres capacidade de ouvir e perceber que ele só faz isto porque acha que consegues fazer melhor, podes lidar mal. Mas de resto, uma pessoa impecável e toda a gente no plantel diz que ele é o meu segundo pai. Não tenho razões de queixa e adoro trabalhar com o Nuno e com toda a equipa técnica. Sou um privilegiado por trabalhar com eles.

- Como vai ser esta época sem o João Matos no balneário?

O João Matos vai fazer falta. Era a referência, o capitão. Podia não ser uma pessoa de muitas palavras no balneário, mas falava no momento correto. No momento em que a equipa precisava, era o momento em que o Matos dava a sua palavra. Essas palavras vão faltar naquele momento-chave, em que alguém precisa dizer alguma coisa, ele dizia a coisa certa. A forma como ele olhava para o jogo também vai fazer falta, porque muitas vezes estávamos no vídeo e ele dava muitas soluções, porque adorava esse lado estratégico do jogo. Agora, cabe a outros jogadores assumirem a responsabilidade. Temos muita gente que consegue assumir essa responsabilidade.

Vai ser duro? Vai. Vai ser difícil assumir, mas faz parte e faz parte de passar de geração em geração esse lugar.

"Falta maturidade nesta nova geração da seleção, mas o futuro é nosso"

- Quanto à seleção nacional, tivemos ali uma fase de títulos, dois Europeus, o Mundial. O que falta para voltar às conquistas?

O que está a acontecer em Portugal é que nos dois títulos que ganhámos, foi com uma base antiga na seleção, jogadores experientes. Nestas novas competições já começámos a renovar essa base, começámos a trazer outros jogadores, a assumir outras responsabilidades na seleção. Isso exige tempo, exige que os jogadores novos comecem a ambientar-se àquele modelo de estágio, de estar longe das famílias, de jogar contra os melhores do mundo. Na realidade, a maior parte dos jogadores da seleção jogam em Portugal e está num campeonato em que, sejamos sinceros, a partir do quinto lugar, vais para os jogos e já sabes que vais ganhar. Essa competitividade na liga é diferente de noutros países e talvez falte alguma maturidade nesta nova geração, saber passar por momentos maus, saber estar a perder um ou dois a zero e conseguir estar ainda no jogo e pensar em ganhar.

É natural, faz parte, é uma renovação que a seleção está a ter. Está a trazer jogadores que já lá estavam, como eu, o Erick, o Zicky, e estamos a começar a ter uma responsabilidade que não tínhamos antes. Estes jogadores novos também estão a entrar, a começar a ter responsabilidade, como o Kutchy, o Lúcio Rocha, a ter muitos minutos na seleção logo assim de repente. Isso exige tempo, exige trabalho e acho que é por aí. As outras seleções cresceram em qualidade, mas nós temos muita qualidade, temos jogadores espetaculares, para mim é a melhor seleção do mundo. Temos jogadores para fazer tudo. Há jogadores a assumir uma nova responsabilidade. É a renovação da seleção.

- E o Mister Jorge Braz é a pessoa certa? Como é trabalhar com ele?

Se o Nuno Dias é o melhor treinador do mundo, o mister Jorge Braz está logo ao lado. Também só tive esses dois treinadores. Mas o mister Braz é mais um gestor emocional, não vai tanto ao atleta, vai à pessoa. Entras na seleção e parece que estás a falar com o teu pai, que está orgulhoso de te ver a jogar e só quer que faças aquilo que tens a fazer: 'Estamos aqui para te orientar o caminho e só tens que fazer aquilo que sabes fazer, que é jogar à bola'. O Braz tem esse à-vontade com os atletas, para mim também é um dos melhores treinadores do mundo. Traz as jogadas todas, pode dizer tudo a nível tático, técnico, mas no fim vai virar-se para ti e diz: 'Joga a bola, sê feliz, vai para cima, remata, faz o que quiseres. Se errares, estou aqui eu para assumir o erro'.

Põe o jogador numa posição muito confortável e talvez, às vezes, confortável demais e acabas por cometer alguns erros por esse excesso de confiança que o Braz às vezes transmite. Para mim, tanto ele como a equipa técnica da seleção, estão a fazer um ótimo trabalho e é muito bom para Portugal continuar a contar com essa equipa técnica por muitos anos.

"A entrada do FC Porto vem ajudar na competitividade"

- Voltando ao nível do nosso campeonato. O que falta para dar um salto? Temos duas equipas muito fortes, um SC Braga que já começa a surgir, o Elétrico, o Porto Salvo... O que falta para haver um upgrade? 

Não sei o que falta propriamente. Sei que a liga está a evoluir, os jogos estão cada vez mais competitivos, mas continua a haver muita discrepância ali a meio da tabela. Talvez falte a federação estar mais em cima dos clubes para serem mais profissionais, para darem todas as condições devidas aos atletas que vêm para cá, que vêm em busca de um lugar melhor para treinar, para jogar, e às vezes não lhes são dadas essas condições, tanto ao nível de salário. Por exemplo, podia haver um (salário) mínimo. Sei que é difícil em Portugal, mas se queremos melhorar, tem que ser assim. Os primeiros anos vai custar, é trazer algum retorno para os clubes. Em Espanha, antes dos jogos, há sempre uma fan zone, os clubes a fazerem atividades para chamar mais pessoas, para tentar ganhar mais algum dinheiro com os jogos.

Acredito que faz parte também ex-jogadores comentarem sobre o futsal, porque temos muitos pseudo-podcasts sobre o futsal e muitas vezes a informação que passam não é a correta. Passam informação incorreta a nível de jogo. Quem está a ver um podcast destes e não sabe o que é o futsal, vai ficar com a ideia completamente errada do que se passa dentro de campo. É começar a trazer iniciativas com ex-jogadores, chamar mais pessoas a ver o futsal, porque há muitos miúdos que jogam futsal quando são crianças. Agora, transportar isso para um nível profissional... Talvez a Federação e as escolas possam fazer um trabalho diferente, haver mais alguma ajuda da Federação. Sei que o futsal tem estado a evoluir mais, tem cada vez mais pessoas a ver. Também acho que os horários dos jogos não têm ajudado. Os jogos das finais foram muito tarde, às 21:00. Têm de começar a pensar nos jogadores, nos adeptos mais jovens e tudo ajuda. Acredito que Portugal tem um potencial enorme para melhorar.

Acredito que a entrada do FC Porto e de mais algumas equipas possa vir a ajudar.

- O que achas sobre a entrada do FC Porto no futsal?

Acho muito bom. Ao nível de futsal vai trazer mais competitividade, mais jovens a ver o jogo quando o FC Porto chegar à primeira divisão. Quando o Sporting for lá jogar, é mais um pavilhão que vai estar lotado, mais um bom ambiente, em que as pessoas vão olhar e vão dizer: 'Isto é um jogo fantástico'. Estes clubes principais do futebol, se começarem a ter essa iniciativa de entrarem com o futsal, pode-se criar aqui uma dinâmica muito engraçada. Agora é dar todas as condições para que isso aconteça.

- Numa última nota, se pudesses fazer o melhor cinco de jogadores que mais te marcaram ou com quem jogaste, qual seria?

De guarda-redes vou pôr o meu irmão, como é óbvio. Não me vou pôr a mim a jogar. Meto o meu irmão, a fixo meto o Erick, a pivô meto o Zicky. Nas alas, meto o Merlim de um lado, e, do outro, meto o Wesley.

- Queres deixar alguma mensagem aos adeptos do Sporting para a próxima época? O que falta para haver pavilhão cheio em todos os jogos?

- No Sporting, podia-se criar uma dinâmica de fan zone, um evento que faça as pessoas virem ver esses jogos, trazer as crianças, os mais novos, tentar meter esses jogos em horários adequados. Há muita coisa que funciona à volta do jogo, muitas coisas que não controlamos, mas é isso que falta para preencher, porque sei que não é tão atrativo ver um Sporting-Benfica e ver um Sporting contra o Ferreira do Zêzere, por exemplo, que é um excelente jogo.

O Ferreira do Zêzere tem estado cada vez melhor, mas as pessoas como não conhecem, não há esse conhecimento no futsal, acham que não vai ser um jogo atrativo, enquanto é, porque o Ferreira do Zêzere é uma equipa que gosta de jogar, é dinâmica e traz muitas dificuldades ao nosso jogo. Torna-se um jogo com bastantes transições, coisas que as pessoas gostam de ver, remates, golos, um jogo instável, bom para assistir. Falta também trazer esse contacto com as equipas mais pequenas, trazer o conhecimento às pessoas sobre quem é o Ferreira do Zêzere, quem é o Eléctrico, quem é o Candoso, que já esteve na primeira divisão, mostrar que o Portimonense é uma boa equipa, que está a investir outra vez. Trazer o contacto com as equipas que não são tão conhecidas.

Para os adeptos do Sporting, a mensagem é sempre a mesma: continuem a apoiar a nossa equipa. Há sempre uma grande conexão entre o futsal e os adeptos. Vamos estar cá este ano para lutar para trazer todos os títulos para o Sporting, para o nosso museu. Contamos com o vosso apoio e espero continuar a ter o João Rocha cheio em todos os jogos. Obrigado pelo vosso apoio.