O líder da Federação Internacional de Futebol (FIFA) tem sido contestado após apresentar um plano – entretanto retirado – para permitir a entrada de investidores privados na comercialização das competições mundiais, através de uma empresa, a FIFA Forward Enterprise.
“Essa iniciativa de Infantino e a criação dessa empresa não surge do nada, surge de um processo gradual e contínuo, que já tem décadas, de hipercomercialização do futebol”, disse Poiares Maduro.
O professor universitário dá como exemplo “os preços elevadíssimos dos bilhetes” durante o Mundial-2026 de futebol e “a multiplicação de competições, que produzem (...) lesões cada vez mais frequentes nos jogadores”.
De acordo com a Football Supporters Europe, uma organização de adeptos de futebol, os bilhetes para a competição realizada no Estados Unidos, México e Canadá custaram cinco vezes mais do que no Mundial-2022, no Catar.
“O mundo do futebol e as suas organizações de governo, que deviam garantir um conjunto muito alargado de preocupações, não apenas a maximização de receitas, cada vez são mais alimentadas por essa prioridade”, lamentou Poiares Maduro.
Pela mesma razão, “é possível que Infantino venha a sobreviver a esta crise política”, disse o ex-ministro, porque quantos maiores são os lucros “maior é o dinheiro que está à disposição do presidente da FIFA para distribuir pelas federações, (das quais) depende o seu poder”.
As confederações da Europa, Ásia e América do Norte, Central e Caraíbas acusaram Infantino de ter abandonado o seu dever, ao colocar-se "acima do coletivo que lhe confiou autoridade".
Apesar disso, Infantino, que lidera a FIFA desde 2016, confirmou em 06 de setembro que vai procurar a reeleição em 18 de março de 2027, mantendo-se como o único candidato declarado até ao momento.
“À medida que o tempo vai passando, como sempre aconteceu com os escândalos da FIFA, a pressão pública vai diminuindo e, portanto, a probabilidade de Infantino permanecer no poder é cada vez maior”, admitiu Poiares Maduro.
Mas, sublinhou o ex-ministro, “a crise da FIFA não se esgota nem é sobretudo sobre” o presidente. Infantino “não é a sua causa, é um sintoma dos problemas muito mais profundos que existem” na instituição, disse.
Poiares Maduro apontou o conflito entre o papel de “regulador do futebol, quem deve garantir todos os interesses e o bem comum dos adeptos, dos atletas, dos clubes e, por outro lado, ser ao mesmo tempo um operador comercial”.
“Quando os lucros exigem prestar menos atenção aos outros objetivos que (a FIFA) devia proteger, é isso que acontece”, lamentou o professor universitário.
O antigo ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional, entre 2013 e 2015, defendeu a necessidade de “uma separação clara dessas duas funções”.
Se “as regras com que devem ser organizadas as competições desportivas forem decididas por interesses que incluam os atletas, os adeptos e tudo isso, aí nós garantimos que os interesses comerciais não vão dominar”, disse Poiares Maduro.
Além disso, acrescentou o professor universitário, é também “muito importante” criar “mecanismos de separação de poderes verdadeiramente eficazes”, que façam um “escrutínio independente” e limitem o poder do Presidente da FIFA.
Poiares Maduro integrou o Comité de Governação da FIFA durante oito meses e saiu em 2017. Na altura, disse à Lusa que o seu mandato não foi renovado por não ter “cedido a pressões” e ter mantido a “independência e a isenção” do comité.
“O que acontece hoje em dia, e eu próprio experienciei isso ao vivo durante alguns meses, é que as entidades independentes, na prática, dependem daqueles que são supostos escrutinar”, disse esta segunda-feira o ex-ministro.
Se a liderança da FIFA “não gosta das decisões, substitui essas entidades independentes e envia por aí uma mensagem para o futuro, de que ou vocês fazem o que nós queremos ou são substituídos”, lamentou Poiares Maduro.
O professor universitário recordou ainda o facto do universo eleitoral do Presidente da FIFA “ser muito limitado e portanto estar capturado, ser um cartel político hoje em dia”.
“Temos de abrir a representação a outros interesses. As mulheres estão muito sub-representadas, os adeptos não têm representação nenhuma, os atletas também estão pouco representados, os clubes estão pouco representados”, sublinhou Poiares Maduro.
No entanto, o professor da Faculdade de Direito da Universidade Católica admitiu que esta pode ser uma meta irrealista: “Era fundamental, mas eu penso que será mesmo o aspeto mais difícil”.
Poiares Maduro falava à margem do 29.º Encontro de Professores de Direito Público, decorreu hoje, pela primeira vez, em Macau, região chinesa cuja justiça tem como base o sistema português.
