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Se a primeira parte entre a Inglaterra e a Argentina, a contar para as meias-finais do Campeonato do Mundo, tivesse sido o jogo inteiro, ninguém se queixaria do desfecho; o problema é que também não haveria rigorosamente nada para contar. Nos primeiros 45 minutos (mais três de descontos), as duas seleções somaram apenas três remates — nenhum deles enquadrado com a baliza — e um xG (golos esperados) combinado de uns míseros 0,08.
A Argentina registou 56% de posse de bola, mas transformou esse domínio numa mera troca de passes seguros: 90% de eficácia, mas apenas dois remates e nenhuma chama real na grande área inglesa.
A segunda parte, contudo, foi um jogo completamente diferente. Ao todo, registaram-se 17 remates combinados - mais de cinco vezes o volume da etapa inicial -, com 13 a pertencerem exclusivamente à Argentina. A seleção das pampas elevou o seu xG para 1,81 nos segundos 45 minutos, perfazendo praticamente todo o registo acumulado da equipa de Scaloni na partida (1,84 no total).

A posse de bola argentina saltou dos 56% para os 73%, e o passe no último terço do terreno tornou-se ainda mais cirúrgico, com 89% de eficácia (em contraste com os 74% da primeira parte). Esta metamorfose não foi obra do acaso e encontra explicação nas duas estratégias em campo.
Depois de inaugurar o marcador aos 54 minutos por intermédio de Anthony Gordon, a Inglaterra optou por gerir a vantagem em vez de tentar alargá-la - o que, na prática, significou recuar linhas. As substituições de Thomas Tuchel falam por si: lançou Ezri Konsa, Dan Burn e Nico O'Reilly, perfis assumidamente mais defensivos, enquanto a equipa perdia capacidade de transporte na saída de bola.

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Do lado argentino, o caminho foi o oposto. Scaloni refrescou a equipa com opções claramente ofensivas como Nico González, Gonzalo Montiel, Rodrigo De Paul, Nicolás Otamendi e, principalmente, Lautaro Martínez, que saltou do banco aos 81 minutos para fazer a reviravolta 11 minutos depois.
O resultado deste desequilíbrio de intenções foi uma asfixia que não parou de crescer. A Argentina acabou por converter o domínio sufocante em golos já na reta final da partida: Enzo Fernández empatou aos 85 minutos e Lautaro Martínez consumou a reviravolta aos 90+2'.
Mas o caminho para o triunfo já vinha a ser pavimentado há mais de meia hora, com uma Inglaterra cada vez mais encurralada no seu próprio meio-campo e sem argumentos para suster a vantagem construída por Gordon.
O encontro terminou com um 2-1 no marcador, mas o registo de remates (5 contra 15 em todo o desafio), praticamente concentrado na segunda parte avassaladora da Argentina, explica melhor do que qualquer outra estatística por que razão a reviravolta se tornou, a dada altura, inevitável.

