O ténis tem sido sempre considerado um "desporto de cavalheiros" ao mesmo nível que o golfe. Pedidos repetidos do árbitro para que se faça silêncio num court ajudaram a simbolizar que os espectadores devem permanecer calmos mesmo quando as emoções estão no seu auge.
Se os adeptos de futebol aplaudem, gritam e bebem nas bancadas enquanto os jogadores exibem as suas personalidades em campo, os fãs de ténis são o completo oposto. Espera-se tradicionalmente que os adeptos de ténis se mantenham calmos durante o jogo e só façam barulho entre pontos, embora as regras não escritas nem sempre sejam seguidas durante os encontros de torneios como o Open dos Estados Unidos e a Taça Davis, por exemplo.
Da mesma forma, espera-se que os jogadores se comportem com uma certa graça, elegância, maturidade e responsabilidade. O website da DGI (organização sem fins lucrativos que visa promover o exercício e os desportos de base na Dinamarca) afirma: "O ténis é um desporto de cavalheiros, ou seja, comportam-se bem, falam bem, demonstram consideração, ajudam-se uns aos outros e não atiram a raquete". Muitos exemplos poderiam ser dados para mostrar que esta imagem não corresponde à realidade, mas, mesmo assim, ainda há uma aura de decência a envolver a modalidade.

A decência do ténis está a ser desafiada
Essa decência está agora a ser desafiada por uma série de estrelas do ténis que acreditam que deveria haver espaço para trash-talk no ténis. No ténis? Correndo o risco de ser descrito como manifestamente antiquado, tenho de dizer que me inclino mais para os ideais da DGI do que para os novos tons do ténis.
Qualquer novo desenvolvimento no desporto não é necessariamente positivo e tenho de dizer que estamos a seguir o caminho errado. Não me interpretem mal, não tenho dificuldade em ver isto acontecer, porque o ténis está num período pioneiro em que muitas das suas regras não escritas estão a ser questionadas, mas a trash-talk não é um elemento que eu possa tolerar no ténis.
Mas talvez tenhamos de fazer uma pausa por um momento e esclarecer o que é realmente trash-talk.
A conversa do lixo é uma forma de gabarolice ou brincadeira que é muito usada em situações de competição, tais como eventos desportivos. Destina-se geralmente a intimidar o adversário ou a fazer o atleta perder a calma, mas também pode ter um elemento humorístico e leve sob a forma de imagens, trocadilhos e brincadeiras.
Esta técnica foi utilizada pela primeira vez sistematicamente pela lenda do boxe Muhammad Ali, mas desde então tornou-se comum para os atletas de topo em praticamente todas as modalidades, que a utilizam para irritar os adversários e perturbar o seu equilíbrio mental, de modo a comprometer o seu desempenho.
A nível amador, é geralmente desaprovado, especialmente nas competições juvenis, mas na NBA, por exemplo, a trash-talk tem dimensões de guerra psicológica genuína em que alguns jogadores se destacam.

Gauff: "Se eu falar mal, as pessoas enlouquecem no Twitter".
E agora, algumas das estrelas mais estabelecidas do ténis acreditam que a trash-talk deve ter um lugar no desporto. Jessica Pegula e Coco Gauff, as número 3 e 6 do mundo, respetivamente, acreditam que a estratégia tornaria o ténis mais interessante e atrairia mais pessoas para o desporto.
"Penso que tornaria o desporto interessante. Acho que isto seria algo que traria mais adeptos. Praticamente todos os outros desportos o têm. No ténis universitário, há muito falatório do género", disse Gauff ao podcast WTA Insider.
"Eu não queria levar isto a peito. Pratiquei outros desportos quando era criança, joguei basquetebol e corri em pista. Nesses desportos fala-se muito e eu era a única rapariga na equipa dos rapazes. Atiraram-me muita trash-talk e tive de ripostar", acrescentou a tenista, que também salienta que a cultura do ténis estabelece alguns limites.
"Se eu fizesse isso, as pessoas ficariam loucas no Twitter. Mas se Caitlin Clark (uma jogadora de basquetebol) o faz, as pessoas adoram-na. E não há nada de errado com isso. Torna o desporto interessante. Mas são as normas sociais do nosso desporto que o tornam diferente", sustentou Gauff.
A espanhola Paula Badosa (número mundial 33) também vê futuro para a trash-talk no ténis:
"Seria completamente diferente. Não estamos habituados a isso. Quer dizer, tradicionalmente o ténis é educado, mas porque não? Poderia ser uma mudança para a nova geração e poderia ser diferente e divertido", disse Badosa, acrescentando:
"Não sei bem como reagiriam as mulheres porque normalmente levam as coisas um pouco mais a peito, mas para os homens penso que seria óbvio".

Kasatkina: "Não somos dos Estados Unidos, por isso não estamos habituados a isso"
Frances Tiafoe, atualmente em 11.º lugar no ranking mundial, é também a favor da abertura à trash-talk no ténis. "Para além de manter algumas tradições em Wimbledon, penso que deveríamos começar a mudar as coisas para atrair mais jovens fãs para o desporto do ténis", vincou, favorecendo também a ideia de que os espectadores não devem necessariamente ficar calados durante os jogos.
"Penso que os adeptos devem poder ir e vir como quiserem e movimentar-se e falar durante os jogos. Imagine ir a um jogo de basquetebol e não dizer nada", disse Tiafoe à Forbes.
Contudo, há também atletas como a russa Daria Kastakina (8.ª colocada da hierarquia mundial) que não são a favor da aceitação da trash-talk no ténis. "Para mim, o ténis é um pouco diferente. Não creio que a trash-talk funcione, na minha opinião. Penso que o ténis é um pouco especial. Não somos dos Estados Unidos, por isso não estamos habituados a isso. Sempre fui educada na forma como o ténis é um desporto inteligente", disse Daria Kastakina ao The Tennis Channel.
Seria ingénuo pensar que a trash-talk ainda não existe no ténis. Em qualquer desporto, os atletas tentam "entrar na cabeça do adversário" e perturbar os preparativos mentais para uma partida.
No apogeu de Rod Laver há 60 anos, a trash-talk teria sido impensável, mas os tempos mudaram, e John McEnroe e Jimmy Conners em particular abalaram a perceção de como os jogadores de ténis devem comportar-se no campo.
Mesmo nessa altura, havia microfones à volta do campo que apanhavam tudo o que era dito, e é por isso que também é hoje evidente que os jogadores por vezes atiram uns aos outros mais do que palavras educadas.
Não há dúvida de que isso acrescenta algo ao desporto. O ténis não é para os rapazes da catequese. É uma luta até à morte, com dinheiro e prestígio em jogo, e com a entrada de patrocinadores nacionais e internaiconais com financiamento no desporto a rivalidade intensificou-se.
O ténis não é certamente um desporto com pouca emoção, drama e grandes momentos. E a brincadeira, amigável ou não, já é uma grande parte dos torneios, mas sistematizar a trash-talk e quase encorajar os jogadores a procurar o confronto é uma clara dupla falta.
