Acompanhe o Otelul Galati no Flashscore
Aos 31 anos, o médio ofensivo vive uma das fases mais consistentes da carreira ao serviço do Otelul Galati e sente-se hoje um jogador diferente daquele que passou por Académica, Tondela, Moreirense e B-SAD.
Em entrevista exclusiva ao Flashscore, Pedro Nuno olha para trás sem esconder os sonhos que ficaram por cumprir, recorda a passagem pelo Benfica, a grave lesão no joelho e os anos desafiantes no estrangeiro, sem esquecer um dos seus grandes amores: a Académica de Coimbra.

"Encontrei um campeonato competitivo e com jogadores de muita qualidade"
- Esta é a sua segunda época no Oțelul. Na primeira terminou com sete golos e três assistências e agora já soma cinco assistências em cinco jogos. Aos 31 anos, podemos dizer que está a viver uma das melhores fases da carreira?
Sim, é verdade. As coisas têm-me corrido bastante bem aqui. Na época passada tive uma pequena lesão que me impossibilitou de ajudar a equipa durante mais de dois meses, precisamente numa altura em que atravessava uma fase muito boa. Acho que poderia ter contribuído ainda mais, mas, mesmo assim, considero que, a nível pessoal, foi uma boa temporada.
Este ano, novamente, as coisas começaram a correr-me bem. Também estou num sítio onde me sinto bem. As pessoas acarinharam-me muito desde que cheguei e temos muitos portugueses, o que acaba por facilitar bastante a adaptação. Por isso, sim. As coisas na Roménia estão talvez a correr-me como nunca tinham corrido antes na minha carreira.

- Fala-se muito português no balneário?
Sim, praticamente só se fala português no balneário (risos). Raramente falamos inglês. Até os romenos tentam muitas vezes falar português. Também existem palavras muito parecidas. O romeno tem muitas raízes latinas, por isso eles acabam por perceber algumas coisas quando falamos e nós também conseguimos compreender algumas quando são eles a falar. Damo-nos muito bem. São pessoas que procuram integrar-nos desde o primeiro momento e fazer com que nos sintamos em casa. Isso é muito importante para quem está fora.
- Olhando para trás, a decisão de ir para a Roménia acabou por ser acertada? Que balanço faz deste ano e alguns meses, tanto em termos futebolísticos como da experiência no país?
Para ser sincero, quando saí da Polónia, o meu objetivo era regressar a Portugal. O Otelul fez-me uma proposta em maio, que recusei precisamente porque queria voltar para casa. A verdade é que esse regresso acabou por não acontecer e, mais tarde, voltaram a contactar-me. Acabei por aceitar.
Vim sem grandes expectativas, para ser sincero, mas encontrei um campeonato competitivo e com jogadores de muita qualidade. Talvez, em alguns momentos, sobretudo nas fases finais dos jogos, não seja um campeonato tão evoluído taticamente, mas é bastante competitivo.
Também tem um formato diferente daquele a que estava habituado. Depois da fase regular, existe o play-off e a fase de manutenção, com os pontos a serem divididos ao meio, o que acaba por equilibrar ainda mais a reta final da temporada. O balanço tem sido positivo. É um bom campeonato, sinto-me bem e gosto de estar aqui.
- O Otelul tem uma história importante, já foi campeão romeno e chegou a disputar a Liga dos Campeões. Quando se joga num clube assim, sente-se diariamente o peso dessa história ou é sobretudo nos adeptos que se percebe a dimensão do clube?
É um clube que consegue levar muitos adeptos ao estádio. A liga romena não tem propriamente assistências muito elevadas, mas, entre os clubes que conseguem mobilizar mais gente, o Otelul é certamente um deles. É também um clube em reestruturação. Desde que cheguei já foram feitas várias alterações. O ginásio é completamente novo e o próprio balneário foi remodelado.
Existe claramente a intenção de mudar e tornar o clube maior. Como disseste, já foi campeão e existe vontade de voltar a lutar por coisas importantes, embora ainda falte bastante para chegar a esse patamar. Não temos, nem de perto, um dos maiores orçamentos da liga. Mas, dentro das condições que temos, acredito que podemos fazer uma boa época. Não estou a falar de lutar pelo título, porque isso seria muito difícil, mas chegar ao play-off, ficando entre os seis primeiros, já representaria um marco importante para o clube.
- Este ano começaram com apenas uma derrota nas primeiras cinco jornadas, mas também muitos empates. Até onde acredita que este Otelul pode chegar?
Chegar ao play-off não será fácil. Como disse, é um campeonato muito equilibrado e este ano até as equipas que subiram têm bons plantéis e jogadores de qualidade. Existem quatro ou cinco equipas muito fortes, como o Dínamo, o FCSB ou o Universitatea Cluj, o Cluj, e depois acabam por sobrar duas ou três vagas pelas quais várias equipas vão lutar.
Nós não temos um plantel tão abrangente como outras equipas e existem algumas limitações nesse aspeto. Temos bons jogadores, sobretudo entre aqueles que jogam mais regularmente, mas depois faltam-nos algumas soluções. A longo prazo, isso pode prejudicar-nos. Basta surgir uma ou outra lesão para a dinâmica da equipa mudar. Muitos dos jogadores que temos no banco são ainda bastante jovens. Por isso, não será fácil. Temos de pensar jogo a jogo e perceber, semana após semana, até onde conseguimos chegar.
- A nível individual, o que espera que esta época lhe traga? Ainda falta o golo, mas já soma cinco assistências.
É verdade, ainda falta o golo. Já tive um penálti e falhei, mas são coisas que fazem parte. Acredito que vai surgir naturalmente. Se continuar a fazer o meu trabalho como tenho feito, acredito que sim. Sinto-me bem, confiante e com vontade de mostrar o meu valor e alcançar objetivos pessoais. Quero continuar a crescer para que, no futuro, possam também surgir outras oportunidades, melhores desafios e uma melhoria a nível financeiro.
- Que mensagem deixa aos adeptos do Otelul? O que é que ainda podem esperar de si esta época?
Podem esperar aquilo que tenho vindo a demonstrar em muitos jogos. Obviamente, haverá partidas em que as coisas não vão correr tão bem. Não sou nenhum milagreiro e também temos de olhar para o contexto. Mas podem esperar sempre o máximo de mim e a tentativa de contribuir com golos e assistências. É aquilo que procuro fazer em todos os jogos.
Não há ninguém que queira mais do que eu ajudar a equipa, fazer bons jogos e mostrar o meu valor. Por isso, sempre que entrar em campo, podem esperar que dê o máximo e tente fazer o melhor possível para ajudar o clube.

"Diziam-me que ia para aqui ou para ali, que ia mudar a minha vida, e nada..."
- Nos últimos anos tem feito uma verdadeira travessia pela Europa, sempre com a particularidade de apresentar números, entre golos e assistências. Como tem sido essa constante readaptação a países e campeonatos diferentes, mantendo sempre a capacidade de mostrar o seu futebol?
A verdade é que não é fácil. Pode parecer, mas não é. Só eu sei aquilo por que passo por estar tanto tempo sozinho, longe de casa e das pessoas que amo. É muito complicado. Ainda assim, tento manter-me sempre equilibrado emocionalmente, por mais dias difíceis que existam. Tento pensar que haverá sempre um dia de sol e que todo este esforço vai valer a pena.
Não tem sido fácil, mas procuro sempre dar o meu melhor e mostrar o meu profissionalismo. Há contextos em que consigo adaptar-me melhor e mostrar mais do meu futebol do que noutros, mas tento sempre fazer o máximo. Agora também não sei aquilo que o futuro me reserva. Já passei por alguns países, vamos ver se ainda vou passar por mais.
- Este é já o quinto país da carreira, contando com Portugal. Se encontrasse hoje o Pedro Nuno de 18 anos, acha que ele ficaria surpreendido com o caminho que acabou por fazer?
Não posso queixar-me da carreira que tive e que continuo a ter. Mas a verdade é que, aos 18 anos, provavelmente pensava que iria alcançar outras coisas. Por isto ou por aquilo, ou talvez por ter faltado um pouco de sorte em determinados momentos da carreira, algumas coisas não aconteceram. Ainda assim, tenho de estar orgulhoso daquilo que fiz e dos sítios por onde passei. Acho que mostrei sempre a pessoa e o caráter que tenho. Por isso, diria ao Pedro Nuno de 18 anos que tinha motivos para estar orgulhoso.
- Há uma carreira que imaginamos quando somos miúdos e outra que efetivamente acontece. A sua ficou muito longe daquela que tinha desenhado na cabeça?
A verdade é que idealizava e queria outras coisas para a minha carreira. Como disse, não posso queixar-me. Provavelmente, muitos colegas que não conseguiram alcançar aquilo que eu alcancei dariam tudo para ter a carreira que tive. Mas, aos 18 anos, pensamos sempre noutros clubes, noutras ligas e noutros patamares. Pensamos, por exemplo, em jogar competições europeias. É algo que continuo a ter na cabeça e que ainda quero alcançar.
Muitas vezes, por uma razão ou por outra, as coisas não acontecem e a carreira segue outro rumo. Temos de nos adaptar à realidade e àquilo que temos, mas também ser gratos. Tive, por exemplo, uma lesão muito grave e felizmente consegui recuperar muito bem, tendo em conta as circunstâncias. Hoje não tenho qualquer tipo de problema. Por isso, sim, orgulho-me da carreira que tenho.
- Apareceu muito jovem na Académica e soma mais de 150 jogos na Primeira Liga. Olhando para a evolução que teve nos últimos anos, acredita que em Portugal não chegámos a conhecer a sua melhor versão?
Sim, acredito que sim. Fiz coisas muito boas em Portugal e vivi momentos importantes, mas hoje sinto que sou um jogador muito mais maduro e experiente. Sei melhor onde tenho de me posicionar e consigo interpretar melhor determinados momentos do jogo.
Se calhar, antes corria demasiado e hoje percebo que isso nem sempre é necessário. Consigo incidir mais naquilo que realmente importa, como o último passe. Sinto-me um jogador mais completo. É natural, porque vamos adquirindo coisas ao longo dos anos. Por isso, acredito que hoje apresentaria uma versão diferente de mim. Não sei se muito melhor, mas certamente melhor.
- Falava há pouco daquela pequena dose de sorte que, por vezes, pode mudar uma carreira. Olhando para trás, consegue identificar algum momento em que sentiu estar a uma decisão, a um treinador ou simplesmente a um pouco de sorte de chegar a outro patamar?
Talvez na Académica. Mesmo no ano em que descemos, eu era muito novo e tinha marcado alguns golos, inclusive ao FC Porto e ao Benfica. Para um jogador daquela idade, eram golos que ficavam. A Académica também tinha necessidade de vender. Tínhamos descido, o orçamento seria muito mais baixo e eu era visto, na altura, como uma possível mais-valia financeira. Podiam ter acontecido outras coisas, falaram-se de algumas possibilidades, mas acabaram por não se concretizar.
Foi um período complicado. Também era muito novo e não sabia lidar tão bem com todas aquelas expectativas. Diziam-me uma coisa e, depois, chegava o momento e nada acontecia. Lembro-me perfeitamente daquele mercado de verão. Diziam-me que ia para aqui ou para ali, que ia mudar a minha vida, e chegámos ao último dia de agosto sem acontecer nada. Acabei por ficar mais alguns meses na Académica.

Inclusivamente, no início do campeonato, não me deixavam jogar porque diziam que seria vendido. Também não fiz uma pré-época como desejava por causa de todas essas circunstâncias. Talvez tenha faltado aquela pontinha de sorte. Se fosse hoje, com a forma como o mercado valoriza os jogadores jovens, talvez as coisas tivessem sido diferentes para a minha carreira. Mas foi aquilo que aconteceu e temos de saber lidar com isso.
- Nessa altura acaba por assinar pelo Benfica, apesar de seguir depois por empréstimo para o Tondela. Como viveu esse momento, sobretudo depois de toda a frustração que tinha sentido na Académica?
Antes de o Benfica surgir, o Tondela já tinha demonstrado intenção de me comprar à Académica. Depois apareceu o Benfica, pagou a transferência e eu já sabia automaticamente que seria emprestado. Por isso, nunca fiquei com os pés no céu a pensar que iria diretamente para a equipa principal do Benfica, porque sabia qual seria o meu destino.
Era uma oportunidade para regressar à Liga, apesar de o contexto ser muito difícil. Lembro-me de ter ido para Tondela ainda em dezembro, para ter um mês de trabalho com a equipa e estar preparado para entrar em janeiro. Nesse ano, a única vez em que saímos do último lugar foi precisamente na última jornada e conseguimos a manutenção por um golo. Portanto, dá para imaginar o ambiente que encontrei quando cheguei.
Mas foi importante para crescer e conhecer outra realidade. Foi também a primeira vez que saí verdadeiramente de casa para viver sozinho. Acabou por ser uma época de grande aprendizagem e muito importante para o meu crescimento.

O "sonho" que fugiu no Benfica à lesão grave: "Merecia ter sido tratado de outra maneira"
- Já disse no passado que ficou com um "amargo de boca" por não ter conseguido estrear-se pela equipa principal do Benfica. Aos 31 anos e olhando para tudo aquilo que já fez na carreira, isso ainda mexe consigo?
Obviamente que era um sonho estrear-me pelo Benfica ou, pelo menos, fazer uma pré-época com a equipa principal para poder demonstrar o meu valor. Acredito que, se tivesse tido essa oportunidade, as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas a verdade é que não aconteceu. Claro que deixa algum amargo de boca, porque acho que é um sonho para qualquer jogador. Ainda por cima, tinha feito parte da minha formação no Benfica e assistia aos treinos da equipa principal desde o quarto. Portanto, era um objetivo pessoal que tinha, mas acabou por não acontecer.
- Há depois uma ironia interessante: não conseguiu jogar no Estádio da Luz pelo Benfica, mas acabou por marcar lá com o Moreirense. Como viveu esse momento, tendo em conta toda a sua ligação anterior ao clube?
Foi incrível. É difícil explicar o sentimento, ainda mais pela forma como ganhámos. Ainda hoje me recordo perfeitamente daquele jogo e, principalmente, daquele golo. Por toda a envolvência, pelo estádio completamente cheio, por ter feito ali parte da minha formação e também por sentir que poderia ter vingado naquele clube. Queria demonstrar o meu valor e acho que, naquele jogo em particular, fiz uma exibição muito acima da média.
- Acabou também por deixar marca no Moreirense, onde viveu provavelmente o momento mais difícil da carreira: a lesão grave no joelho. Como é que um jogador lida com uma lesão daquela dimensão precisamente numa fase de afirmação na Primeira Liga?
Foi muito duro. Para ser sincero, foi mesmo muito duro. Era o meu último ano de contrato com o Moreirense, já estava lá há três temporadas e as coisas corriam cada vez melhor. Tinha começado muito bem essa época e sentia que poderia ser o meu ano. Depois surge uma lesão grave no ligamento e deita tudo por terra. Nesses momentos pensamos sempre no pior, inclusivamente que a carreira pode acabar.
Também saí do Moreirense um pouco triste com algumas pessoas do clube pela forma como fui tratado naquela altura. Pelo que tinha dado ao clube, pelo profissional que sempre fui e pela forma correta como sempre lidei com todas as pessoas, acho que merecia ter sido tratado de outra maneira por uma ou outra pessoa. Mas também serviu para aprender que, muitas vezes, só somos necessários quando estamos a 100% e podemos ser facilmente descartados quando isso deixa de acontecer.
Felizmente, consegui recuperar muito bem. Tive a ajuda de um fisioterapeuta, o Tiago, que foi muito importante durante a recuperação, e hoje não tenho qualquer repercussão dessa lesão. Na altura, porém, era difícil imaginar o futuro. Estava no último ano de contrato e tinha uma lesão grave que me iria deixar praticamente um ano sem jogar. Depois a B-SAD deu-me uma mão. Tenho de agradecer ao presidente e também ao Petit, que me quiseram lá. Felizmente, nesse aspeto, acabou por correr bem.
- Fisicamente regressou bem e tem demonstrado isso ao longo dos últimos anos. Mas mentalmente essa lesão mudou-o?
Muito. Hoje consigo dizer que me tornou mais forte, mas durante aqueles meses de recuperação, em que não podia jogar nem estar no campo, foi muito duro. Nem conseguia ver jogos de futebol. Tentava abstrair-me ao máximo, porque sentia uma enorme impotência. Depois havia as dores e aquela sensação de que o joelho poderia nunca voltar ao normal. Passam-nos mil e uma coisas pela cabeça.
Foi uma fase muito difícil e só eu e as pessoas que estavam perto de mim sabemos aquilo por que passei. Muitas vezes também não devo ter sido uma pessoa fácil de aturar durante aqueles meses. Hoje consigo olhar para trás e perceber que me tornou mais forte. Mostrou-me que sou capaz de ultrapassar situações que, se me tivessem perguntado anteriormente, talvez achasse que não conseguiria superar.

Do terramoto à solidão: os anos que testaram Pedro Nuno no estrangeiro
- Depois do Moreirense passou pela B-SAD e pouco tempo depois decidiu iniciar este percurso pelo estrangeiro. Sentia vontade de conhecer outro tipo de futebol ou percebeu que Portugal já tinha pouco mais para lhe oferecer, sobretudo a nível financeiro?
Sendo realista, a decisão também coincidiu com a descida de divisão na B-SAD. Tinha um contrato de três anos, mas, com a descida, o valor seria reduzido para bem menos de metade. Vi-me obrigado a procurar outras soluções.
Chega uma determinada fase da carreira em que temos de ser realistas e pensar também na vertente financeira. No estrangeiro existia a possibilidade de ganhar mais dinheiro e decidi tentar. Se tomei a melhor decisão? Hoje não sei, mas, naquele momento, pareceu-me a melhor. Acabei por assinar em Israel. Talvez muita gente nem saiba, mas estive lá cerca de um mês e as coisas não correram da melhor forma. Não me adaptei e quis regressar.
Como o mercado estava a decorrer e precisava de decidir rapidamente a minha vida, acabei depois por ir para a Turquia. A partir daí, surgiu quase uma bola de neve de acontecimentos. Em janeiro aconteceu o terramoto na zona onde estava e os jogos acabaram por ser cancelados. Fiquei desde janeiro até julho ou agosto sem competir e também não me permitiram assinar por outro clube. Foram praticamente dois anos muito duros. Não diria que foram necessariamente más decisões, mas houve vários acontecimentos que acabaram por condicionar bastante a trajetória que tive no estrangeiro.
- Nessa altura do terramoto estava, felizmente, em Portugal. Como foi acompanhar tudo à distância e pensar que poderia estar lá quando aconteceu?
Felizmente, não aconteceu nada de grave aos meus colegas de equipa nem aos funcionários do clube. No prédio onde vivia também moravam mais dois ou três jogadores e não sofreu danos. Por isso, acredito que, se estivesse lá, felizmente também não me teria acontecido nada. Mas teria sido muito mais preocupante para a minha família em Portugal.
Por coincidência, tínhamos jogado numa sexta-feira e o treinador deu-nos dois dias de folga. Pedi-lhe mais um, ele aceitou e consegui vir a Portugal nesse fim de semana.
Na madrugada do dia em que deveria regressar, o meu telemóvel não parava de tocar. Havia mensagens no grupo de WhatsApp a perguntar se estava tudo bem e muitas outras pessoas a tentarem contactar-me. Achei muito estranho estarem a perguntar aquilo àquela hora. Depois falei com um colega de equipa e percebi o que tinha acontecido.
Ficámos algum tempo sem saber o que fazer. Os voos foram cancelados e não conseguia regressar. O clube disse-me que, como estava em Portugal e em segurança, deveria aguardar por novas indicações. Os dias foram passando, depois as semanas, até que surgiu a decisão de cancelar os nossos jogos. A minha época acabou praticamente ali. Só voltei à Turquia para ir buscar as minhas coisas.
- Depois da Turquia seguiram-se Azerbaijão, Polónia e agora Roménia. Em qual destes países encontrou um futebol mais adequado às suas características? E onde sentiu maiores dificuldades de adaptação?
Acho que senti mais dificuldades na Polónia. Também passei praticamente um ano a jogar fora da minha posição, mas era uma liga mais física e intensa. Considero-me um jogador mais tecnicista, mais de toque, e tive de me adaptar bastante nesse aspeto. Também aconteceu que o treinador que me foi buscar acabou despedido logo na terceira ou quarta jornada. O treinador seguinte colocava-me numa posição onde não me sentia confortável. Cheguei a falar algumas vezes sobre isso, mas não consegui mudar as ideias dele e senti que não consegui mostrar verdadeiramente o meu futebol.

Ainda assim, a liga polaca é incrível. Foi provavelmente onde mais senti aquela sensação de ser realmente jogador de futebol. Jogávamos em casa para 12 mil pessoas, com o estádio sempre cheio, e quando íamos fora encontrávamos novamente bancadas cheias, claques, pirotecnia... Era uma loucura. Talvez lhe falte alguma coisa na vertente técnica, mas, em termos de ambiente e intensidade, é fantástica. Onde me senti melhor e consegui adaptar-me mais facilmente foi aqui, na Roménia. Acho que o futebol vai mais ao encontro das minhas características. Não é tão intenso e físico como na Polónia, mas existem jogadores com muita qualidade e é uma liga equilibrada e difícil.
- O que descobriu sobre si próprio nesta jornada pelo estrangeiro, sobretudo passando tanto tempo sozinho e longe de casa?
Que sou mais resiliente do que pensava. São cinco anos em que passei grande parte dos dias sozinho em casa, apenas com os meus pensamentos e muitas vezes a tentar desligar. É difícil porque estamos sozinhos, não temos ninguém com quem falar ou algo para fazer. Também nunca vivi propriamente em cidades muito grandes, o que acaba por limitar um pouco aquilo que podemos fazer.
- Também não teve propriamente muita sorte nesse aspeto em Portugal: Tondela, Moreira de Cónegos...
É verdade (risos). Não tenho tido muita sorte nesse sentido. Podia ter-me calhado um Algarve da vida... Ainda estive em Lisboa e aí, naturalmente, já é muito melhor para viver.
Aqui, como temos vários portugueses, acabamos por nos juntar mais vezes e ir jantar. Muitos deles têm a namorada, a mulher ou os filhos aqui, enquanto eu estou sozinho, mas acabamos por conviver bastante. Grande parte do meu dia continua a ser passada em casa. Tento distrair-me, vou às compras ou vou para o treino, que é onde convivemos mais.
Na Roménia tem sido mais fácil nesse aspeto. Mas, ao longo destes anos, tem sido duro. E, a cada dia que passa, tenho mais uma certeza: não há como Portugal para viver.
- E para jogar...
Para viver e jogar (risos). Exatamente.
- O que ainda existe em si daquele pequeno Pedro da Figueira da Foz que sonhava ser jogador de futebol?
Talvez a vontade de continuar a perseguir o meu sonho. Desde miúdo que sonho ser jogador profissional. Felizmente consegui concretizá-lo, mas ainda existem algumas coisas que quero alcançar dentro da minha realidade. É esse sonho que continua a manter a chama acesa e que me dá vontade de ser consistente todos os dias no trabalho, mesmo quando surgem dias maus. Continuo a ter o sonho de disputar competições europeias. Espero ainda conseguir concretizá-lo.

Propostas para regressar a Portugal? "Por acaso, não..."
- Muitos jogadores que passam vários anos no estrangeiro dizem que gostariam muito de regressar a Portugal, mas acabam por esbarrar nas diferenças financeiras. Ao longo destes anos, recebeu propostas para voltar ao futebol português?
Por acaso, não. Depois da Polónia tinha uma vontade enorme de regressar a Portugal. Pelo que tinha feito no futebol português, pelo que demonstrei ao longo dos anos e por vir de uma liga polaca muito competitiva, pensei que seria relativamente fácil encontrar um bom projeto em Portugal.
Para ser sincero, achei que teria algumas soluções, mas foram raros os clubes que surgiram, pelo menos através daquilo que me chegou. Depois, naturalmente, também existe a componente financeira.
Naquele mercado de verão voltou a surgir a possibilidade da Roménia e tive de aceitar. A alternativa poderia ser ficar seis meses ou até um ano parado. Se já era difícil lembrarem-se de mim enquanto estava a jogar, sem jogar seria ainda mais complicado. Até desabafei sobre isso com alguns colegas aqui e muitos ficaram surpreendidos por não ter recebido propostas, ou pelo menos boas propostas, em Portugal. Mas isto é futebol. Muito pouca coisa ainda me surpreende.

Tenho muita vontade de regressar. Acompanho bastante o futebol português e gostava de voltar. Ao mesmo tempo, tenho de ser realista. Tenho 31 anos, embora não me sinta velho. Aliás, sinto-me talvez melhor agora do que quando tinha 25. Por isso, é preciso colocar tudo na balança e tentar tomar uma boa decisão.
- Como é viver nessa expectativa constante de aparecer um novo projeto na carreira?
Não é fácil. Não nos ensinaram a lidar com essas expectativas que criamos, nem com o impasse de estar sem clube e passar um dia, uma semana, um mês sem clube... Não é fácil. É sempre um período de incerteza. Já passei por isso algumas vezes. Não tinha cabelos brancos antes de sair de Portugal, agora estou carregado deles (risos).
- Falando agora do futebol português, acompanha naturalmente a Primeira Liga. Como tem visto à distância?
O Benfica, o Sporting e o FC Porto têm plantéis muito fortes e acredito que será um campeonato bastante competitivo. Ainda estamos numa fase muito inicial e é difícil perceber exatamente aquilo que cada equipa vai conseguir fazer ao longo da época. Há jogadores novos, treinadores com ideias diferentes e ainda muita coisa para acontecer. Vai ser interessante.

"Tenho a Académica no coração"
- De quem tem mais gostado de ver?
Vou dizer a Académica. Tenho o clube no coração, pela formação e por me ter estreado como profissional. É o meu clube. Não nasci academista, mas vou morrer academista. Fico muito feliz por ter começado muito bem a Liga 2 e por estar a levar muita gente ao estádio. É um clube que merece estar na Primeira Liga e torço para que isso aconteça rapidamente. Pela massa associativa que tem e pelo clube que é, merece esse palco.
- Como foi acompanhar ao longe a queda do clube?
Houve uma fase em que a cidade se desligou um pouco da equipa. Os maus resultados também trazem isso. No ano passado, na Liga 3, já se sentia novamente essa união e essa energia à volta do clube. Fico muito feliz por isso. Quando subiram, então, foi uma alegria enorme. Acompanhei todos os jogos da subida, muitas vezes a gritar que nem um maluco quando marcavam. Estou sempre a torcer pela Académica e espero que consigam voltar à Primeira Liga.
Infelizmente, estive lá precisamente na época em que descemos. Não foi fácil. Era apenas a minha segunda temporada como profissional e ficar logo marcado por uma descida, ainda por cima num clube como a Académica, foi complicado. Felizmente, as coisas estão agora a tomar outro rumo e nota-se que existe uma energia diferente à volta do clube.
- E no futuro, quem sabe, regressar à Académica já na Primeira Liga?
Sim, porque não? Espero que, nessa altura, a Académica já esteja na Primeira Liga. Não sei em que fase da minha carreira poderia acontecer, mas voltar a vestir aquela camisola seria, sem dúvida, um orgulho. Também temos de ser realistas, porque depende de muitas coisas e não quero estar aqui a fazer promessas. Mas seria, sem dúvida, um orgulho voltar a vestir a mágica.

- Ainda tem alguns anos de carreira pela frente, mas, quando chegar o momento de pendurar as chuteiras, o que gostaria de ter deixado? Quando alguém perguntar quem foi Pedro Nuno, o que gostaria que respondessem?
Principalmente que fui sempre uma pessoa de bom caráter e um bom profissional. Acho que essa é a melhor coisa que podemos deixar. Obviamente, se também ficar recordado pelos golos e pelas assistências, ainda melhor (risos). Mas, acima de tudo, gostava que dissessem que fui sempre profissional em todos os clubes por onde passei. Uma ou outra vez, se calhar, não com tão bom feitio (risos), mas isso também faz parte.
- E se o futebol fosse uma pessoa e tivesse a oportunidade de se cruzar com ele na rua, o que lhe diria depois de tudo aquilo que lhe proporcionou?
Agradecia-lhe. Acho que tudo aquilo por que passei faz parte do processo. A pessoa que sou hoje deve-se muito ao futebol. Muitas das coisas que tenho também se devem ao futebol, naturalmente acompanhadas por todo o trabalho que fiz para as alcançar. Mas o futebol proporcionou-me muita coisa.
Desde miúdo que sonhava ser jogador profissional e, felizmente, consegui concretizar esse sonho. Não existem muitas pessoas que possam dizer o mesmo. Por isso, acho que a palavra seria sempre essa: obrigado.
