Ténis: Às portas de um feito, Arthur Fery revela-se em Wimbledon

Arthur Fery, filho do proprietário do Lorient, qualificou-se para os quartos de final em Wimbledon.
Arthur Fery, filho do proprietário do Lorient, qualificou-se para os quartos de final em Wimbledon.ČTK / imago sportfotodienst / John Patrick Fletcher

O torneio de Wimbledon vive um verdadeiro conto de fadas à inglesa. O discreto Arthur Fery transformou mais um wildcard no relvado do Grand Slam numa qualificação para os quartos de final. Mas de onde surge este jovem que só agora vai descobrir o top 100 do ranking ATP?

A festa do ténis londrino voltou a acompanhar de perto os esforços do veterano Grigor Dimitrov. O azarado búlgaro, que esteve muito perto da vitória no ano passado, no seu duelo frente a Jannik Sinner antes de se lesionar no músculo peitoral, queria vingar-se. Chegou mesmo a eliminar a revelação checa Jakub Menšík. Mas acabou por cair perante um tal de Arthur Fery

Este encontro em cinco sets, marcado por um suspense incrível, foi conquistado por este residente de Wimbledon, desconhecido e muito discreto para muitos.

"É incrivelmente difícil para mim encontrar palavras para descrever o que vivi aqui no court. Foi a primeira vez que joguei nesta arena e frente a uma lenda destas… Não tenho mesmo palavras", confessou o vencedor após uma batalha extenuante de quatro horas. A Inglaterra tem um novo herói, e pouco importa que seja de origem francesa…

Arthur Fery não pode negar o seu talento para o ténis, herdado da mãe, que chegou a disputar a Fed Cup – ainda que seja francesa de origem, representou as cores de Hong Kong. Foi lá que Olivia Gravereaux acompanhou o marido durante a crise financeira de 1997. E foi aí que o comerciante francês Loic Fery começou a construir a sua carreira.

Quando a família regressou à Europa, instalou-se em Londres, pois o ambicioso gestor Fery recebeu a missão de desenvolver a filial do Crédit Agricole na capital britânica. Apaixonado por desporto, encontrou uma casa perto do complexo de Wimbledon e começou a investir no futebol.

"O meu clube preferido é o Arsenal. Como muitos franceses, fiquei marcado pela era Henry e Vieira. Ia ver os jogos ao antigo estádio de Highbury", contava há algum tempo ao jornal Ouest-France.

Nunca escondeu também que, graças às suas relações e posição, ajudou Arsène Wenger a concretizar a transferência de Laurent Koscielny para os Gunners. Atualmente, é proprietário do Lorient, na Ligue 1 francesa, embora tenha ponderado investir no Sheffield Wednesday.

Mas gosta tanto de ténis como de futebol. Foi marcado pela era de Yannick Noah, cuja incrível capacidade de unir as pessoas sempre admirou. E foi graças ao ténis que Loic Fery conheceu a sua companheira, com quem tem três filhos.

Os wildcards como trampolim

Mas chega de falar do pai. Os adeptos de ténis interessam-se sobretudo pelo percurso do filho mais velho, Arthur. Nascido em França, vive praticamente toda a vida em Londres e já em bebé dava voltas de carrinho à volta do All England Club. Por isso mesmo tem nacionalidade britânica. Em criança, venceu o campeonato inglês de sub-10 e estudou perto dos courts de Wimbledon, na prestigiada King’s College School. Mais tarde, os pais enviaram-no para a Universidade de Stanford, na Califórnia, onde aperfeiçoou o seu ténis num ambiente americano.

Mas os grandes êxitos tardavam em chegar. Ainda assim, Arthur Fery teve a sorte de a Federação Britânica de Ténis lhe arranjar sempre forma de participar em Wimbledon como jogador. Já em 2021, quando estava para lá da 1.000.ª posição do ranking ATP, recebeu um convite para o qualifying. No ano seguinte, voltou a receber, mas já estava no top 700.

Será graças à influência do seu pai abastado? Só se pode especular.

Seja como for, os wildcards sucederam-se nas edições seguintes, desta vez diretamente para o quadro principal. No total, beneficiou de seis. Em 2023 e 2024, figurava respetivamente na quarta e depois na quinta centena do ranking. No ano seguinte, voltou a progredir.

"Esperava que, a certa altura, pudesse disputar outros torneios do Grand Slam sem precisar de wildcard. Por isso sim, estes convites foram muito importantes para a minha carreira", reconheceu sem rodeios Arthur, atualmente com 23 anos. O que importa é que o investimento do ténis britânico neste jovem, que mede apenas 1,75 metros – uma estatura modesta para o ténis – e é meio francês, deu frutos.

Sob o olhar de Roger Federer

Este ano, o wildcard de Fery estava plenamente justificado. Depois de um decisivo 2025, em que venceu dois torneios, incluindo um challenger em Barranquilha, na Colômbia, aproximou-se do top 100. Neste inverno, na Austrália, garantiu a presença num Grand Slam por mérito próprio e chegou mesmo à segunda ronda. E depois deste Wimbledon, vai finalmente entrar nesse círculo restrito da elite. Um lugar nos quartos de final de um Grand Slam vai lançá-lo para o top 70.

Vitórias em cinco sets frente a Zizou Bergs ou ao já referido Dimitrov já não se devem ao acaso. Garantiu o lugar nos quartos de final no court central, um momento muito emotivo para si. Jogou sob o olhar da lenda Roger Federer, que admirava em criança.

"Cresci a cinco minutos daqui, por isso vinha cá muitas vezes. E tudo isto aconteceu diante, provavelmente, do maior jogador da história, sentado na primeira fila", disse em direção ao vencedor de vinte títulos do Grand Slam, que conquistou o torneio do All England Club por oito vezes, um recorde.

Nos quartos de final, vai tentar ir ainda mais longe. O seu adversário será o italiano Flavio Cobolli, a quem venceu em três sets em Melbourne.