Aldair Neves celebrou título na Bulgária: "Sófia precisava muito deste momento"

Aldair Neves em destaque no Levski Sofia
Aldair Neves em destaque no Levski SofiaArquivo Pessoal, Flashscore

Aldair Neves trocou Portugal pela Bulgária em 2024 em busca de uma oportunidade para crescer. Hoje, regressa ao centro das atenções depois de ajudar o Levski Sófia a quebrar uma hegemonia de 14 anos do Ludogorets e a conquistar um título que escapava ao clube há 17 temporadas.

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Em entrevista ao Flashscore, o lateral-direito revisita a caminhada que o levou da 3.ª divisão distrital ao topo do futebol búlgaro, recorda os momentos em que esteve sem clube e admite que chegou a ponderar abandonar o futebol. Fala ainda da paixão dos adeptos do Levski, do orgulho em ver o Torreense conquistar a Taça de Portugal e dos sonhos que alimenta para o futuro.

O título no Levski: "Foi o momento mais importante da minha carreira"

- Dois anos depois de chegar à Bulgária, imaginava viver uma época tão histórica como aquela que acabaram por fazer na Parva Liga?

Acreditava que podíamos lutar pelo título porque estávamos no maior clube da Bulgária, mas parecia algo muito difícil. No primeiro ano já tínhamos ficado relativamente perto e percebemos a força do Ludogorets, que dominava o campeonato há muitos anos. Mas, no segundo ano, sentimos logo desde o início que tínhamos uma equipa ainda mais forte e que podíamos realmente competir pelo título.

Aldair deixa elogios aos adeptos do Levski
Aldair deixa elogios aos adeptos do LevskiOpta by Stats Perform, Levski

- O Ludogorets era campeão há 14 anos consecutivos. O que tornou esta conquista ainda mais especial?

Acho que foi precisamente isso. Ver uma equipa ganhar durante tantos anos consecutivos deu-nos uma motivação extra. Mas o principal foi perceber aquilo que esta conquista significava para o clube e para a cidade. O Levski já não era campeão há 17 anos e Sófia precisava muito deste momento. Sentíamos isso todos os jogos. Os adeptos estavam sempre connosco, em casa e fora, e isso dava-nos uma força enorme.

- Como foi viver essas celebrações com os adeptos?

Foi lindo. Já antes de sermos campeões se via muita gente nas ruas com camisolas do Levski. No shopping, na cidade, toda a gente falava do campeonato. No dia em que fomos campeões foi uma sensação incrível. Nunca tinha sido campeão enquanto sénior e foi algo muito especial. Quando o árbitro apitou para o fim do jogo foi uma emoção indescritível.

Os números de Aldair Neves
Os números de Aldair NevesFlashscore

- Em que momento sentiram que o título podia mesmo cair para o vosso lado?

Entrámos no grupo de campeão já com uma vantagem importante e percebemos que estávamos muito perto. Depois de ganharmos mais alguns jogos e de o Ludogorets perder pontos, sentimos que o título estava realmente nas nossas mãos.

- O que fez deste grupo tão especial?

Tínhamos um grupo muito forte. Havia muitas nacionalidades diferentes, mas toda a gente se dava muito bem. Isso nem sempre acontece, mas no nosso caso criou-se uma união muito forte. Depois, dentro de campo, toda a gente dava o máximo. Não havia um jogador que não trabalhasse no limite. E também tínhamos um treinador extremamente exigente, muito intenso, que vivia o futebol de uma forma muito emocional. Acho que esses fatores fizeram a diferença.

- Foi a época mais marcante da sua carreira até agora?

Sem dúvida. Foi o momento mais importante da minha carreira. Já tive outros momentos bons, claro, mas ser campeão depois de um ano inteiro de trabalho tem um significado completamente diferente.

Aldair celebrou título na Bulgária
Aldair celebrou título na BulgáriaArquivo Pessoal

"Senti um carinho enorme das pessoas"

- O que mais o surpreendeu quando chegou ao futebol búlgaro?

Eu já conhecia o Levski e o futebol búlgaro de nome, sobretudo pelas competições europeias, mas não estava à espera de encontrar estádios tão cheios e adeptos tão apaixonados. O clássico com o CSKA, por exemplo, leva mais de 35 mil pessoas ao estádio. Os adeptos vivem o clube de uma forma muito intensa e isso surpreendeu-me bastante.

- Como foi para ti viver essa realidade, tendo em conta que em Portugal os ambientes são muito diferentes?

Foi incrível. Em Portugal, infelizmente, o ambiente está muito concentrado nos três grandes. Na Bulgária senti uma ligação muito forte dos adeptos ao clube. Jogar com o estádio cheio dá uma energia diferente. Sentes mesmo que as pessoas vivem aquilo de coração.

Levski terminou campeonato no primeiro lugar
Levski terminou campeonato no primeiro lugarFlashscore

- E como foi o pós-título? Sentiu esse carinho ainda mais forte?

Muito. Recebi muitas mensagens e senti um carinho enorme das pessoas. Até adeptos de outras equipas, que não apoiavam o CSKA nem o Ludogorets, diziam que queriam ver o Levski campeão. Acho que foi um título que marcou muito o país.

- Que diferenças encontrou entre o futebol português e o búlgaro?

É um futebol diferente. Existe muita intensidade, muito contacto físico e as equipas grandes têm um ritmo bastante elevado, sobretudo porque estão habituadas às competições europeias. Mas também encontrei muitos jogadores com qualidade e um campeonato competitivo.

- Como descreve o jogador búlgaro?

São jogadores muito trabalhadores e dedicados. Muitos têm uma mentalidade muito profissional fora de campo. Vejo jogadores que fazem muito trabalho extra: ginásio, recuperação, massagens, gelo… Existe uma cultura forte de trabalho.

- O Aldair teve a oportunidade de jogar as competições europeias, inclusive uma eliminatória contra o SC Braga?

Foi incrível. Ter a minha família e amigos no estádio em Braga teve um significado muito especial para mim. Passo o ano praticamente longe deles e senti uma motivação enorme naquele jogo. Foi uma experiência inesquecível.

- E estiveram muito perto de eliminar o SC Braga…

Sim. O SC Braga teve mais bola e mais controlo do jogo, mas nunca sentimos que estivéssemos completamente inferiores. Até marcámos um golo que acabou anulado e sinceramente acreditava que, se o jogo fosse para penáltis, podíamos passar.

- Que diferenças existem entre o Aldair que saiu de Portugal há dois anos e o Aldair de hoje?

Hoje entendo muito melhor o futebol. Com a experiência fui percebendo melhor o que preciso de fazer dentro e fora de campo para evoluir. Cresci muito, sobretudo taticamente e defensivamente. Também tive um treinador que me ajudou bastante nesse processo.

- Como é viver em Sófia?

Gosto muito. No início foi complicado por causa da língua e porque praticamente não falava inglês. Agora adaptei-me bem. A cidade tem muito para oferecer e a localização também é ótima, porque estamos perto de vários países e conseguimos aproveitar os dias livres para viajar.

Aldair segura o troféu de campeão
Aldair segura o troféu de campeãoArquivo Pessoal

Da 3.ª divisão distrital à Champions: "Houve alturas em que não tinha clube"

- Quando era miúdo em Torres Vedras acreditava realmente que podia chegar ao futebol profissional?

Quando somos crianças sonhamos sempre muito alto. Queremos jogar nos maiores clubes do mundo. Mas à medida que vais crescendo percebes que o futebol é muito difícil e extremamente competitivo. Houve momentos em que duvidei bastante.

- Chegou a jogar na terceira divisão distrital. Como olha hoje para esse percurso?

Foi um período muito importante para mim. Na altura deixei de jogar no Torreense e fui para a Fonte Grada, na terceira distrital. Foi aí que voltei a gostar verdadeiramente de jogar futebol. Depois as coisas começaram lentamente a acontecer.

- Houve momentos em que pensou desistir?

Muitos. Houve alturas em que não tinha clube, sobretudo no período do Covid, e pensei que talvez tivesse de seguir outro caminho. Mesmo depois de ter estado na Académica, estive a treinar num clube da 3.ª divisão distrital... Mas continuei sempre a acreditar e felizmente as oportunidades acabaram por surgir.

- Que mensagem deixa aos jovens que estão nas distritais ou nos campeonatos inferiores e sentem que já não vão conseguir chegar?

Que nunca deixem de trabalhar e acreditar. No meu caso senti sempre que precisava de fazer mais do que os outros. Trabalho extra, melhorar pequenos detalhes, cuidar do corpo… Acho que foi isso que me trouxe até aqui.

- Hoje, depois de tudo o que já viveu, o que ainda falta cumprir?

Gostava muito de jogar na Liga portuguesa, numa equipa grande, e também numa das principais ligas europeias, mas não me posso esquecer que estou na maior equipa da Bulgária. E claro, um dos grandes sonhos continua a ser jogar a Liga dos Campeões.

Aldair deu os primeiros passos no Torreense
Aldair deu os primeiros passos no TorreenseArquivo Pessoal

A festa em Torres Vedras pela Taça de Portugal: "Orgulho enorme"

- Como viveu a conquista da Taça de Portugal pelo Torreense?

Foi um orgulho enorme. O Torreense sempre foi um clube importante na cidade, mas nos últimos anos cresceu muito. Ver o clube ganhar a Taça de Portugal e aproximar-se da Liga deixou-me mesmo muito feliz. Adoro ver o meu clube da cidade assim. 

- Sentiu a cidade diferente?

Completamente. Nunca tinha visto Torres Vedras assim. Hoje sente-se toda a cidade envolvida com o clube. Há pessoas das aldeias vizinhas a acompanhar os jogos e a viver isto intensamente. É muito bonito de ver.

- Pode haver a possibilidade de o Torreense jogar com o Levski nas competições europeias. Como seria?

Uma loucura. Já falei disso com a minha família. Se isso acontecesse, iam todos. Ia ser impressionante.

- O que leva de Torres Vedras e do Torreense para a sua vida e carreira?

Levo tudo. A minha infância foi muito feliz e foi aí que nasceu realmente a paixão pelo futebol. Passávamos os dias a jogar na rua e acho sinceramente que muitas das nossas qualidades começam aí. Depois o clube ajuda-nos a crescer e a perceber melhor o jogo.

- Se o futebol fosse uma pessoa e a encontrasses na rua, o que lhe diria?

Obrigado por me deixares viver os melhores momentos da minha vida. O futebol foi sempre a minha primeira opção.

- Quando um dia perguntarem 'quem foi o Aldair?', o que gostaria que respondessem?

Gostava que dissessem que fui um rapaz de Torres Vedras que conseguiu chegar longe no futebol e deixar a sua marca a nível internacional. Era isso que mais me orgulharia.