A história extraordinária foi um longo e constante hino à vida, porque Alex Zanardi nunca se resignou a escrever o ponto final: fê-lo sábado à noite – como anunciou esta manhã a família – falecendo após seis anos de luta extrema contra mais uma injustiça que a vida lhe impôs.
O antigo piloto de Fórmula 1 de Bolonha e campeão-símbolo do paralimpismo partiu a 1 de maio, precisamente no mesmo dia em que, há 32 anos, outro gigante das corridas, Ayrton Senna, perdeu a vida, deixando um legado de desafios, coragem e uma grandeza humana e moral inigualáveis.
A sua existência, sempre vivida no limite, cruzou-se várias vezes com a morte, mas ele nunca se deixou intimidar, escapou-lhe para recomeçar com a habitual determinação, sustentado por uma força de vontade fora do comum e aquele sorriso contagiante que nunca lhe faltava.
Entre a Fórmula 1 e os EUA
Bolonhês, nascido em 1966 – pai canalizador, mãe costureira – foi o homem que viveu duas vezes, ou até mais: apaixonado pelo desporto, pela velocidade, pelas corridas, os automóveis eram a grande paixão do jovem da Emília.
Nem sequer a morte da irmã mais velha num acidente de viação, em 1979, o fez desistir. E de facto tornou-se piloto automóvel. Aos 14 anos, o pai ofereceu-lhe o primeiro kart. Assim começou Zanardi, seguindo depois o percurso nas fórmulas inferiores até chegar à Fórmula 1, em 1991, com a Jordan.
Permaneceria no paddock até 1994, pilotando também para a Lotus. No entanto, os resultados não corresponderam às expectativas e Zanardi muda-se para os Estados Unidos, onde se dedica à Fórmula Cart. Entre 1996 e 1998 viveu as suas melhores épocas.
Em 1999, Frank Williams quis tê-lo no seu carro. Mas o regresso não foi feliz e o piloto de Bolonha encerra a carreira com 44 grandes prémios e apenas um ponto conquistado.
O acidente de 2001
É precisamente ao volante que a vida lhe coloca de imediato uma prova duríssima: a 15 de setembro de 2001, durante uma corrida do campeonato Champ Car no Lausitzring, na Alemanha, um embate terrível, Zanardi perde subitamente o controlo do carro, que é atingido em cheio pelo piloto Alex Tagliani.
No acidente perde ambos os membros inferiores, que lhe são amputados. Esteve em risco de morrer devido à perda de sangue, mas nunca perdeu a consciência. De alguma forma conseguiram levá-lo com vida ao hospital, em Berlim.
Seguiram-se meses de sofrimento marcados por operações, uma lenta recuperação, redenção e regresso. Foi submetido a 16 intervenções cirúrgicas e sofreu sete paragens cardíacas, mas conseguiu sobreviver. Alex não se contentou em seguir em frente, queria voltar a competir, a sentir novamente a adrenalina da competição.
A segunda vida
Descobre a paixão pelo paraciclismo: modalidade que o leva a conquistar quatro ouros nos Jogos Paralímpicos, entre Londres-2012 e Rio-2016, além de oito títulos mundiais em estrada. Pelo meio, vários livros autobiográficos e de divulgação, e a bem-sucedida apresentação televisiva de Sfide.
Mas o destino ainda lhe reservava mais uma provação: a 19 de junho de 2020, durante uma estafeta solidária em handbike, a morte volta a bater-lhe à porta. Zanardi envolve-se num acidente na Estrada Nacional 146 em Pienza, na Toscana, perde o controlo da handbike e embate num camião que vinha em sentido contrário.

O impacto é devastador; mas Alex sobrevive, apesar de o seu estado ser desesperante. Submetido a várias operações, permanece em coma mais de um mês, sofre novas intervenções e é transferido primeiro para um centro especializado em Lecco e, após algumas complicações, para os cuidados intensivos do Hospital San Raffaele, em Milão.
Mais um renascimento, é transferido para Pádua, em janeiro de 2021 recupera a consciência. A família, a inseparável esposa Daniela e o filho Niccolò, protegem-no do mundo exterior: passará o Natal em casa Alex, o homem das mil batalhas e de outras tantas vidas. Para todos, sempre pareceu imortal, por esses regressos milagrosos, sempre, à vida.
