O corredor de 28 anos coroou o verdadeiro trabalho de equipa dos Estados Unidos, que volta a ter um campeão mundial mais de três décadas depois de Lance Armstrong (1993), e castigou a arrogância dos principais candidatos, que desvalorizaram o ataque do ciclista da UAE Emirates, um excecional rolador, e preferiram marcar-se, tendo, depois, de contentar-se com a luta pelas medalhas.
“Desde há várias semanas que dizíamos que tínhamos uma grande equipa e que era possível. Corremos extremamente bem, marcámos tudo. Estou sem palavras”, destacou McNulty, após ter cumprido os espetaculares 273,4 quilómetros entre Brossard e Montreal em 06:17.04 horas.
Embora tenha estado à vista dos perseguidores nos derradeiros quilómetros, o norte-americano manteve-se estoico - “estava a morrer, mas continuei a pedalar” – e beneficiou das marcações entre os favoritos, que tiveram de contentar-se com os restantes lugares do pódio.
“Sabia que algo podia acontecer, mas precisaria de um milagre. Parece que hoje um milagre aconteceu”, reconheceu McNulty, que deixou a 13 segundos o australiano Michael Matthews, vice-campeão como 2015, e Mathieu van der Poel, o neerlandês que subiu ao pódio pela terceira vez em quatro anos (foi campeão em 2023 e terceiro em 2024).
Dececionante foi a prestação da Bélgica - como também foi a de Portugal -, com Remco Evenepoel a ser apenas 12.ª numa classificação com três norte-americanos no top 8, nomeadamente Quinn Simmons em quarto, à frente do mexicano Isaac del Toro, e Matteo Jorgenson em oitavo.
A ausência do convalescente Tadej Pogacar, bicampeão em título, multiplicou os candidatos ao arco-íris e tornou mais ‘aberta’ e absolutamente emocionante a prova de fundo dos Mundiais, que começou ‘morna’, com uma fuga sem história, em que Biniam Girmay era a principal figura.
Os 16 fugitivos construíram uma diferença superior a oito minutos, entrando com essa margem no circuito de Montreal, onde o massagista Vladimir Kovacik, que representou a Eslováquia para que aquele país não comprometesse uma vaga olímpica em Los Angeles2028, após a desistência dos três ciclistas inicialmente inscritos, perdeu definitivamente o contacto com o pelotão.
Já depois de Afonso Eulálio, nono em Kigali2025, ter ficado afastado da luta pelos lugares de topo – foi o primeiro dos seis lusos a abandonar -, os favoritos ao título abriram as hostilidades a pouco mais de 90 quilómetros do final.
Van der Poel foi o ‘responsável’ pela primeira grande seleção, numa altura em que no grupo da frente, da seleção portuguesa, restavam apenas Nelson Oliveira e Ivo Oliveira, os únicos ciclistas nacionais a terminar a prova, respetivamente na 56.ª e 58.ª posição
A sete dezenas de quilómetros da meta, João Almeida encostou, quando na frente MVDP seguia na companhia do britânico Oscar Onley e de Simmons, com o trio a ser perseguido por Wout van Aert e Primoz Roglic.
O veterano Rogla conseguiu fazer a ponte para a frente, com WVA a desiludir, tal como o compatriota Evenepoel, o tetracampeão mundial de contrarrelógio e campeão de fundo em 2022, que descolou pela primeira vez a 60 quilómetros da meta.
Apesar de ter caído, Thomas Pidcock impulsionou outros, como McNulty, Matthews, Del Toro, Jorgenson, Paul Seixas, Giulio Ciccone ou Ben Healy, a tentarem alcançar os perseguidores, uma missão que foi bem-sucedida.
Van der Poel foi aquele que mais tentou, eliminando Onley, que foi substituído por Healy, num dos vários episódios de uma corrida absolutamente frenética em que o sempre altruísta Van Aert descaiu para rebocar Evenepoel.
Quando parecia que os ‘donos’ das medalhas estavam decididos, os perseguidores alcançaram MVDP e companhia, com o grupo a conhecer várias composições até McNulty atacar e abrir uma vantagem superior a um minuto.
A uma dezena de quilómetros, o norte-americano ficou à vista, mas, mais uma vez, os perseguidores não se entenderam e o ciclista da UAE Emirates aumentou novamente a diferença.
MVDP voltou a tentar, mas a iniciativa seria atrapalhada por Jorgenson, hoje dedicado a ‘recuperar’ para os Estados Unidos uma camisola que fugia há mais de três décadas.
Já com Seixas fora da luta pelas medalhas, depois de ter sido ‘eliminado’ por problemas musculares, Matthews surpreendeu ao impor-se ao neerlandês, conquistando uma prata que parecia impensável em março, quando sofreu fraturas em ambos os braços num acidente de treino.
McNulty sucede no palmarés ao colega Tadej Pogacar, sendo o menos cotado dos portadores do mais ambicionado arco-íris em mais de uma década.
