Giro: Ambicioso mas afável Vingegaard soube escolher as suas lutas para fazer história

Vingegaard venceu o Giro
Vingegaard venceu o GiroREUTERS/Jennifer Lorenzini

Jonas Vingegaard demonstrou este domingo que sabe escolher as suas lutas, ao tornar-se no oitavo ciclista da história a conquistar as três grandes Voltas, mostrando-se novamente viciado em vencer num Giro em que nunca foi verdadeiramente testado.

Resignado à superioridade de Tadej Pogacar no Tour, embora não tenha deixado de acreditar que pode bater o esloveno este verão, o afável e genuíno dinamarquês da Visma-Lease a Bike decidiu abraçar outros objetivos, nomeadamente o de completar a trilogia antes do seu arquirrival, uma missão que foi concluída com sucesso e sem demasiado esforço no domingo.

Aos 29 anos, Vingegaard é agora o campeão em título da Vuelta e do Giro, cuja 109.ª edição ganhou sem oposição e com um pecúlio de cinco etapas.

“Gosto de ganhar, quero vencer tantas corridas quanto possível”, admitiu no sábado, sem que as suas afirmações revelem qualquer arrogância, mas sim a ânsia de inscrever todas as principais corridas por etapas num currículo já com 54 triunfos – este ano também já acrescentou o Paris-Nice e a Volta à Catalunha, outras das imprescindíveis que lhe faltavam.

Dois anos depois de ter equacionado deixar o ciclismo, após uma queda grave na Volta ao País Basco o ter deixado 12 dias no hospital, Vingegaard tornou-se hoje no oitavo ciclista da história a conquistar as três grandes, juntando-se a Jacques Anquetil, Felice Gimondi, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Alberto Contador, Vincenzo Nibali e Chris Froome.

Embora possa ser entusiasmante e espetacular na bicicleta – foi-o q.b. nesta edição da prova italiana, onde pareceu estar a apenas 70/80% das suas capacidades, provavelmente a pensar no Tour -, o dinamarquês pode ser monótono fora dela, apesar de, às vezes, arriscar uns laivos de humor, como quando justificou ter cortado o bigode que estava a deixar crescer neste Giro por parecer um teenager.

“Temos de aceitar as nossas derrotas e esta é uma delas”, brincou.

No entanto, nada há a apontar ao líder da Visma-Lease a Bike, que, apesar de não gostar da exposição a que, sobretudo, os dois triunfos do Tour (2022 e 2023) o obrigaram, é, no contacto direto, uma pessoa extremamente educada, humilde e até sensível, como voltou a demonstrar neste Giro, ao pintar uma unha de vermelho para apoiar uma campanha contra violência infantil no seu país.

É nas montanhas, e não nos compromissos mediáticos ou nas redes sociais, onde só promove a nova plataforma criada pela mulher Trine, que o delgado dinamarquês se sente bem, embora só as tenha descoberto tarde, numas férias familiares nos Alpes franceses.

“Descobri a minha primeira subida aos 16 anos. Depois disso, percebi que não era nada mau”, contou.

Nascido em 10 de dezembro de 1996 em Hillerslev, uma pequena aldeia piscatória de apenas 370 habitantes, inserida numa zona rural na costa do Mar do Norte, experimentou várias modalidades (andebol, natação, badminton e até futebol) antes de eleger a bicicleta.

Fervoroso adepto do Liverpool, descobriu a paixão pelo ciclismo aos 10 anos, quando a Volta à Dinamarca passou à sua porta.

Embora tenha sobressaído imediatamente num teste organizado pelo clube local para um grupo de crianças, e semanas depois tenha conquistado o primeiro pódio numa corrida, Vingegaard teve dificuldades em afirmar-se no panorama velocipédico nacional, porque o seu ‘peso pluma’ (tem 1,75 metros e 60 quilos) era incompatível com as ventosas planícies dinamarquesas.

A ColoQuick CULT, uma equipa continental, reparou no seu potencial e contratou-o como estagiário em 2016, mas a sua progressão foi interrompida em maio de 2017, quando partiu o fémur numa queda grave na Volta aos Fiordes.

Sem poder andar de bicicleta, decidiu começar a trabalhar numa fábrica de processamento de peixe de Hanstholm, o porto dinamarquês que espreita o Báltico, um emprego que descreveu como “relaxante”.

Vingegaard absorveu dessa experiência e das origens humildes os seus principais traços de personalidade, aos quais se junta uma bondade reconhecida por colegas e adversários, como Pogacar, que o define como “um grande tipo”.

A sua carreira ‘descolou’ quando foi descoberto pela Visma, depois de uma temporada de 2018 na qual venceu o contrarrelógio da Volta a França do Futuro e estabeleceu um novo recorde da ascensão ao Col de Rates durante um estágio.

Depois de ceder à pressão na Volta à Polónia de 2019, a equipa neerlandesa trabalhou o seu psicológico e deu-lhe tempo para crescer, levando-o à Vuelta 2020 para trabalhar para Primoz Roglic, antes de vê-lo explodir com um espantoso segundo lugar no Tour.

Esse ‘fantasma’ pareceu regressar quando Vingegaard simplesmente desapareceu após a primeira vitória na Volta a França, com as notícias sobre uma possível depressão, desmentida pelo próprio, a multiplicarem-se durante meses. No entanto, a segunda vitória no Tour, conquistada com uma supremacia arrasadora, ajudou à sua autoconfiança e aumentou-lhe a ambição.

Cerebral como poucos – na estrada, nunca se desvia do ‘plano’ traçado pela Visma-Lease a Bike -, é devoto à família, nomeadamente aos dois filhos e à mulher Trine Hansen, que conheceu na ColoQuick (era a responsável pelo marketing) e que dita as diretrizes da sua carreira e também da sua vida.

“Nunca quero saber da opinião das pessoas, exceto de uma”, disse na passada Vuelta, com essa vitória a ser decisiva para decidir tentar este ano o assalto ao Giro e a um lugar na história, este domingo celebrado em Roma.