Ciclismo: Jasper Philipsen e Florian Vermeersch, o sacrifício dos tenentes de Paris-Roubaix

Florian Vermeersch e Jasper Philipsen, campeões ao serviço de campeões
Florian Vermeersch e Jasper Philipsen, campeões ao serviço de campeõesDAVID PINTENS / BELGA MAG / Belga via AFP // João Matos / AFP // Flashscore

Se Mathieu van der Poel e Tadej Pogačar são os grandes favoritos para Paris-Roubaix, cada um deles conta ainda com um tenente de altíssimo nível, que seria líder noutra equipa. Jasper Philipsen e Florian Vermeersch têm, sem dúvida, a chave da corrida de domingo.

O ciclismo profissional atual não se resume apenas a Tadej Pogačar e Mathieu van der Poel. É preciso uma equipa para acompanhar os grandes líderes nas provas mais importantes, mas, acima de tudo, é fundamental ter um grande tenente. Um corredor capaz de levar o seu campeão o mais longe possível, mas que, se necessário, pode assumir o comando em caso de imprevisto. O famoso n.º 1 suplente.

Será este o papel mais ingrato do ciclismo? É legítimo questionar isso numa corrida como Paris-Roubaix. Uma das provas mais exigentes da temporada. E, naturalmente, uma corrida que qualquer ciclista à vontade nos paralelos sonha em conquistar para o seu palmarés. Para Jasper Philipsen (Alpecin-Premier Tech) e Florian Vermeersch (UAE Team Emirates – XRG), dificilmente será este ano.

Vermeersch, o amigo indispensável

Foi Paris-Roubaix que deu a conhecer Florian Vermeersch ao mundo do ciclismo. Logo no seu primeiro ano como profissional a tempo inteiro, numa edição do Inferno do Norte disputada em outubro, mostrou o talento excecional ao acompanhar Mathieu van der Poel e Sonny Colbrelli num final emocionante, depois de lançar um ataque que o colocou na frente da corrida a cerca de 150 km da meta.

No final de uma edição lendária, sob chuva e lama, o belga acabaria por perder ao sprint para o italiano. Assim se tornou imediatamente rotulado como especialista nas clássicas flamengas. Mas ganhou uma nova dimensão na época passada, ao assinar pela UAE Team Emirates – XRG. O objetivo não declarado: ter um corredor que brilhe nos paralelos para ajudar Tadej Pogačar no seu grande desafio, vencer nos paralelos.

Só no domingo passado, no Tour das Flandres, fez um trabalho de preparação notável, fundamental para a vitória do campeão do mundo. E, apesar do esforço em prol do líder, conseguiu ainda terminar na sétima posição. O mesmo aconteceu no ano passado em Paris-Roubaix, onde terminou em 5.ª posição. Frustrante? Não para ele.

Prefere destacar a sua equipa e o seu líder. "Há algo de especial nesta equipa que me dá muita confiança. E depois, correr ao lado de um atleta tão incrível como o Tadej é realmente gratificante", afirmou à AFP após o Ronde van Vlaanderen. Não admira que o esloveno fale dele como um "verdadeiro amigo". Afinal, foi ele quem o ajudou a navegar da melhor forma possível nos paralelos e o transformou num candidato credível à vitória nesta prova tão singular que é Paris-Roubaix.

Philipsen não se faz rogado

O caso de Jasper Philipsen é distinto. Antes de mais, o belga é um sprinter de classe mundial, com 60 vitórias como profissional, incluindo triunfos de prestígio como a Gent-Wevelgem (há 15 dias), 16 etapas em Grandes Voltas e, claro, a Milão-San Remo 2024, o seu maior feito até ao momento.

Mas isso não basta para ser líder numa corrida como Paris-Roubaix. É natural, quando o seu colega de equipa é o tricampeão em título do Inferno do Norte. Mas não se pode esquecer que, nas duas primeiras vitórias do neerlandês, foi Philipsen quem o acompanhou no pódio, sempre no segundo lugar.

Na primeira ocasião, trabalhou para o seu líder, impondo o ritmo no grupo da frente antes de proteger a fuga do neerlandês para depois resolver ao sprint. Na segunda, viu VDP fazer um verdadeiro espetáculo a solo de 60 km, controlando os poucos que ainda sonhavam com o regresso, e, mais uma vez, usou o seu sprint para garantir a dobradinha para a equipa… menos de um mês depois do seu triunfo na Primavera.

Um currículo que lhe poderia dar ambições para este domingo. Mas perante a imprensa, manteve o discurso de perfeito gregário. "Acredito que bater o Tadej Pogačar será uma tarefa muito difícil, mas certamente não impossível. O Mathieu já venceu três vezes aqui, em Roubaix. É, sem dúvida, a nossa melhor hipótese para uma quarta vitória. E é isso que vamos tentar alcançar com a equipa."

Jogar a sua própria carta? Não descarta, mas só em determinadas circunstâncias. "Porque é que este ano poderia finalmente ser o meu? É preciso simplesmente correr a corrida, é uma nova oportunidade que surge, talvez com um novo cenário, e há tantas coisas que podem acontecer. Roubaix é uma prova que se deve disputar até ao fim. Não será diferente no domingo. Se os favoritos se marcarem, talvez consiga aproveitar. Ou então, pode ser que a vitória se decida num grupo onde eu possa sprintar." Discurso irrepreensível de n.º 1 suplente.

Frustração ou heroísmo?

Dois corredores diferentes, duas carreiras, dois estilos, dois percursos sem nada em comum. Mas há um ponto que partilham: são, à sua maneira, dois campeões que colocaram o seu talento ao serviço de outros campeões. O que levanta inevitavelmente a questão: poderiam triunfar numa prova destas noutra equipa?

Já tivemos um início de resposta com Vermeersch no GP E3 Saxo Classic, ensaio geral para o Tour das Flandres. Promovido a líder na ausência de Pogačar, mostrou estar em excelente forma. Liderou um grupo perseguidor, lançado na caça a Mathieu van der Poel, apanhando o neerlandês contra todas as expectativas… mas hipotecando as suas hipóteses num final épico, que lhe deixará alguns lamentos, mas que volta a provar o seu talento, mesmo que não o seu sentido tático.

O caso é, naturalmente, diferente para Philipsen, que já venceu mais do que muitos, mas quase sempre ao sprint. Para ele, que já conquistou um Monumento, sabe-se que é capaz de assumir o estatuto de favorito. E, de resto, é frequentemente líder em provas que se adequam ao seu perfil. Mas, inevitavelmente, nas duas vezes em que terminou em segundo em Paris-Roubaix, beneficiou do facto de van der Poel estar na frente para poupar energias e depois bater todos ao sprint: o cenário ideal… para a sua equipa.

Mas isto é o reflexo do ciclismo moderno: equipas recheadas de talento, corredores que aceitam a supremacia dos colegas em determinados perfis e que, talvez, possam beneficiar de um golpe de sorte para jogar a sua própria carta. Corredores como Philipsen e Vermeersch que terão estatuto de líderes noutras provas importantes, mas que, nos grandes momentos do ano, aceitam um papel de luxo como gregários que muitos nem sequer considerariam.

Será suficiente para chamar heróis a estes dois belgas? A resposta chega no domingo…