O debate sobre quem é o melhor ciclista de todos os tempos volta a estar em destaque. Já dura há alguns anos. O gigante Merckx, que ao número de triunfos na Tour juntou igual número no Giro e ainda um na Vuelta, desvalorizou o tema com humor há dois anos. "Não penso que o Pogačar seja melhor do que o Eddy Merckx. Só venceu três Tours. Ainda não está ao meu nível," afirmou então o belga, sorridente.
Mas agora? A situação é completamente diferente. Pogačar não ficou pelos três triunfos. No ano passado somou o quarto e este domingo deverá conquistar o quinto, embora ele e todo o pelotão ainda tenham pela frente três etapas de montanha que podem baralhar a classificação.
Sinceramente, não se espera que isso aconteça. Assim, na Tour, ambos os gigantes ficarão com 5-5. E depois? O fenómeno belga das décadas de 1960 e 1970 do século passado, para além dos triunfos já referidos nas outras seis Grandes Voltas, venceu ainda três vezes o campeonato do mundo, conquistou todos os cinco monumentos de um dia (no total 19 vezes) e estabeleceu um recorde impressionante na hora. E como cereja no topo deste bolo magnífico, estão os seus 525 triunfos em etapas.
Aliás, este número impressionante está até inscrito no modelo de bicicleta produzido desde 1980 com o nome de Merckx, no qual o lendário belga colaborou logo após terminar a carreira. Os números de Pogačar são mais modestos. Nas Grandes Voltas, está a cinco triunfos do seu antecessor, nas grandes clássicas de um dia a seis, faltando-lhe apenas vencer a Paris-Roubaix para completar o conjunto.

E nos triunfos em etapas, tem menos 400, um número astronómico. Aliás, Merckx teria vencido a Tour por um recorde de seis vezes, se um espectador tresloucado não lhe tivesse dado um murro numa subida íngreme ao Puy de Dôme em 1975, impedindo-o de alcançar o triunfo para o qual seguia imparável.
O seu atual rival da UAE tem uma única vantagem. Tem apenas 27 anos e, perante a concorrência cada vez mais fraca, pode ambicionar mais vitórias na Tour. Para além dos triunfos gerais, já soma 25 vitórias em etapas (Merckx tem 34), sobretudo em percursos de montanha mais exigentes.
No entanto, a rivalidade entre gerações não entusiasma muito o próprio Pogačar. "Não penso muito em recordes nem em mais nada. Quero divertir-me, isso é o mais importante no ciclismo, no desporto e na vida," afirmou no início do ano numa entrevista à Cycling Weekly. E, pelo menos até agora, ninguém lhe tem estragado a diversão em França este ano...
