Contudo, o realizador procurou ir além do percurso do antigo campeão nacional, para enquadrar o retrato de uma época na cidade de Lisboa, entrando nos bairros, onde cada episódio da vida do homem que "jogava bonito" é um exemplo de superação.
"O que me interessou mais no filme e o que eu gosto é que não é uma história de boxe. É uma história de alguém que sobrevive graças ao boxe e de alguém que tem uma vida e que nos mostra uma cidade fruto daquele tempo e daquelas vivências", afirmou o realizador à Lusa.
E está lá tudo, da Ajuda à Musgueira, das barracas ao Parque Mayer, "a catedral do boxe", como refere Orlando Jesus, das memórias duma vida boémia - onde há fado e tiros à mistura - aos dias de hoje, em que continua ligado à modalidade.
"O Orlando Jesus continua como treinador, hoje tem 72 anos, continua a treinar imensos jovens e a formar campeões e é um árbitro internacional, julgo até que é o único árbitro português da Associação Internacional de Boxe (IBA, na sigla em inglês), já arbitrou combates para títulos mundiais. Dentro do mundo do boxe, toda a gente sabe quem é o Orlando Jesus, é um nome incontornável", enfatizou.
Diogo Varela Silva e Orlando Jesus são amigos de longa data: Embora os primeiros contactos revelassem "uma personagem que (lhe) punha algum respeito, para não dizer medo", contou o realizador, será o boxe a juntá-los mais tarde.
"Na altura (década de 80), quando o ‘Johnny Guitar’ fechava, a coisa mais próxima que havia, onde nós podíamos ir comer qualquer coisa, quando acabávamos a noite, era um bar de 'bas-fond' à séria, ‘O Truque’, que era do Orlando. Esse foi o primeiro contacto que eu tive com o Orlando. Depois, muitos anos mais tarde, comecei a treinar boxe com o Orlando e aí criámos uma amizade que é forte e que ajudou a que fosse possível ele deixar-me filmá-lo e contar a história dele", relatou.
Andou de escola em escola, viveu em casa o drama da violência doméstica, ficou com a mãe após a separação dos pais e o boxe surge na vida de Orlando Jesus como uma tábua de salvação.
No documentário, Orlando Jesus diz que "os miúdos que iam para o boxe eram os arruaceiros, safavam-se aqueles que eram os melhores, os fortes para a pancada".
Duma infância "desprotegida", aos ringues e aos títulos, a vida deu uma volta.
"É um homem muito enigmático, mas com uma vida muito interessante, e é giro como tanto a fé como o boxe, de alguma maneira, o salvaram de uma vida que podia ter corrido muito mal", afirmou o realizador.
Perdidas as imagens gravadas em Super16, só o álbum religiosamente guardado pela mãe permite o acesso a recortes de imprensa e a fotografias que documentam o percurso desta lenda do boxe nacional.
"Ele tem uma grande dança e tem toda a parte da esgrima do boxe. Ele tinha uma sabedoria a jogar, tinha um jogo de pernas muito bom, tinha uma esquiva boa. Portanto, tinha essa beleza, para quem gosta de ver, tinha essa beleza em cima do ringue", recordou o realizador.
"Há muito pouca coisa que venha acima do boxe. Acima do boxe, só a mãe e os filhos", conta o próprio Orlando Jesus. O que leva Diogo Varela Silva a afirmar que ele é "um dos últimos dos moicanos". Talvez "o último grande rei daquela noite lisboeta de 'bas-fond', dos anos 70, 80".
"Ainda hoje, o boxe é o seu refúgio. Vive do boxe e, acima de tudo, vive para o boxe. De alguma forma, acho até poético a forma como ele retribui", concluiu.
"Soco a Soco" venceu o prémio do público no Doclisboa do ano passado e segue agora para as salas de cinema, com um único lamento do realizador: "A maneira como o Instituto do Cinema (e Audiovisual) vê a estreia de um filme, acho que não é abonatória para os filmes portugueses. Estamos em concorrência direta com ‘blockbusters’ da América, ou seja, estamos derrotados à partida. Não sei se é mais importante estar uma semana inteira numa sala ou fazer algumas sessões especiais, e em mais sítios. Acho que seria mais vantajoso".
Diogo Varela Silva prepara entretanto dois novos projetos. Um como produtor de um título que se chamará "Esta Vida de Marinheiro", sobre a figura e o percurso do músico João Aguardela, realizado por Paulo Miguel Antunes, e com estreia prevista para o Doclisboa.
Em setembro, avança para a rodagem do seu próximo filme, na região do Douro Vinhateiro. Será sobre as vindimas, mas sempre procurando retratar a vida das pessoas que trabalham a vinha.
"É contar a vida daquelas pessoas. É isso que me fascina", concluiu o realizador e produtor.
