Exclusivo com Aldair: "Brasil não jogou nada bem" na estreia e "Benfica não atinge nível na Europa"

Aldair foi campeão do Mundo pelo Brasil e uma lenda na Roma
Aldair foi campeão do Mundo pelo Brasil e uma lenda na RomaFelice De Martino / Zuma Press / Profimedia

Os jogos inaugurais do Mundial, que atualmente se disputa nos EUA, México e Canadá, já trouxeram surpresas inesperadas e algumas desilusões de grande destaque. Para analisar a estreia complicada do Brasil de Carlo Ancelotti e as dinâmicas deste novo formato de Mundial, o Flashscore conversou com uma verdadeira lenda do futebol internacional: Aldair Nascimento dos Santos.

Campeão do Mundial dos EUA-1994 e ícone indiscutível, o ex-defesa brasileiro falou ao Flashscore para oferecer uma análise lúcida e sem filtros. Desde críticas a uma seleção brasileira que não convence, até ao aguardado regresso de Neymar, passando por temas de clubes: a sua ligação profunda à Roma, as aspirações ao Scudetto dos giallorossi sob o comando de Gian Piero Gasperini e a atualidade do Benfica.

Entre as suas reflexões sobre o futebol moderno e a conversa sobre o novo documentário da sua vida, Aldair também presenteou o Flashscore com uma história maravilhosa sobre duas autênticas superestrelas com quem partilhou o relvado: Francesco Totti e Ronaldo.

- Como avalia o primeiro jogo do Brasil frente a Marrocos?

- Vi o jogo. Houve imensos passes falhados, o Brasil não jogou nada bem. Pareceu-me que estiveram mesmo, mesmo muito fracos! Espero muito mais, tal como todos aqui em casa.

- O que acha do trabalho que Carlo Ancelotti está a fazer?

- Se falarmos deste jogo, não vimos a sua mão. Nos amigáveis, jogaram um pouco melhor, mas nesta estreia do Mundial, vimos muito pouco do seu trabalho. Talvez só tenha acertado nas substituições. Mas, tirando isso, mostrou-se muito pouco.

- Quem acha que é o jogador que pode puxar pela equipa neste momento complicado?

- Há mais do que um jogador a quem se pede que dê um passo em frente e assuma esse papel. Está o Raphinha, embora já não renda há algum tempo na seleção. Vinícius esteve um pouco melhor num jogo: penso sobretudo nesses dois. E, claro, há sempre a esperança de que o Neymar assuma essa responsabilidade.

"Convocar Neymar não foi um erro"

O que pensa da decisão de voltar a convocar o Neymar para a seleção?

- Penso que é a decisão certa porque é um jogador muito diferente dos outros, está um patamar acima da média. É natural que o Ancelotti o tenha chamado e esteja à espera que recupere os 100% da sua forma física. Convocá-lo não foi um erro, de todo.

- Agora o Mundial conta com 48 seleções. O que acha deste torneio alargado com tantas equipas?

- Permite que muitos outros países possam disputar um Mundial, e isso é algo muito bonito. No entanto, é evidente que se notam grandes diferenças de nível: por um lado, tens surpresas como o empate de Espanha frente a uma equipa como Cabo Verde, que participa pela primeira vez na sua história. Por outro, há seleções que aproveitam essas diferenças, como a Alemanha, que marcou sete golos a Curaçau. No fim, a qualificação para as eliminatórias, sobretudo para os dois primeiros lugares, vai decidir-se precisamente nos duelos entre as seleções grandes e estas equipas mais modestas, também pela diferença de golos.

- Jogou três Mundiais e venceu o de 1994. Que recordações tem dessa conquista?

- Vencer um Mundial é sempre incrível, mas sinceramente, para um futebolista, só participar num Mundial já é maravilhoso. Na verdade, guardo também muito boas recordações da experiência em Itália 90, embora tenha estado sempre no banco e não tenha jogado um único minuto. E recordo com carinho os torneios que disputei na América e em França. Jogar esta competição é o maior desejo de qualquer futebolista na sua carreira. Do Mundial dos EUA 94 lembro-me de quase tudo o que aconteceu em campo. Comparando com o passado, hoje há muito mais informação sobre o que se passa fora do relvado, no país anfitrião; são aspetos importantes dos quais os jovens de hoje podem aprender muito mais.

- Em Itália estreou-se um filme sobre a sua vida. Como surgiu este projeto e o que sente ao ver-se no grande ecrã?

- Nasceu graças a três amigos de Roma que são adeptos da Roma. Falámos várias vezes sobre isso e, no fim, convenceram-me a contar a minha história também fora do campo. Gravámos durante um ano entre Roma, Dubai e Brasil, trabalhámos muito no projeto e filmámos muito material. Apesar de ser uma pessoa muito tímida, o que tornou tudo um pouco difícil, conseguimos criar algo bonito e mostrar esse outro lado meu que os adeptos e o público não conheciam.

- Como explica esse imenso carinho que os adeptos da Roma têm por si?

- Perguntam-me isso muitas vezes. Quase parece que nasci futebolisticamente na Roma, embora não seja verdade. O carinho dos adeptos por mim é enorme. Estive lá muitos anos, mas para eles é como se tivesse começado a minha carreira lá em jovem e tivesse jogado toda a minha vida nesse clube.

- Jogou com Totti e com Ronaldo 'O Fenómeno'. Quem foi o melhor dos dois?

São dois jogadores muito diferentes. O Ronaldo era mais avançado de um contra um, mais explosivo. O Francesco era brilhante dentro da área, tinha uma grande visão de passe e tanto faro de golo como o Ronaldo. É difícil dizer quem foi o melhor: o ideal teria sido tê-los aos dois na mesma equipa, assim não terias o problema de ter de escolher. Lembro-me quando voltei a Roma depois do Mundial de 94, numa altura em que todos falavam do número 9 do Brasil, e em Trigoria diziam-me: 'Olha, aqui também temos um Ronaldo, vais ver', referindo-se a um jovem Francesco Totti. Depois o Francesco mostrou a todos do que era capaz, e fiquei muito feliz por isso.

"Benfica tem jogadores interessantes mas continuam a faltar grandes resultados"

- Acompanha o seu primeiro clube europeu, o Benfica? O que acha do momento que atravessa?

- Não acompanho muito de perto. Este ano, com o Mourinho no banco, vi mais jogos deles. Nos últimos anos, o Benfica não tem estado muito bem, costuma estar em crise e não consegue atingir o seu verdadeiro nível na Europa. Se olharmos para os jogadores, parece que o plantel tem jogadores interessantes, mas continuam a faltar grandes resultados.

- O que acha da Roma de Gasperini? Quais são as suas perspetivas? Acredita que é uma equipa que pode lutar pelo título?

- A ideia de futebol do Gasperini é muito boa. O primeiro ano em Roma não é fácil para ninguém, mas conseguiu fazer um trabalho muito bom, uma época realmente espetacular. No entanto, para dar o próximo passo, o clube tem de investir mais e trazer alguns reforços. Se a Roma conseguir os jogadores que ele pede, certamente poderá manter-se no topo com os grandes a lutar pelo Scudetto.

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