Poderão beneficiar deste financiamento da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) jogadoras convocadas pelo menos duas vezes para as seleções nacionais de futebol e de futsal, assim como todas as árbitras principais e assistentes da primeira divisão de Espanha.
O presidente da REEF, Rafael Louzán, considerou que este é "um avanço muito importante" e algo "inovador no âmbito federativo mundial", revelando que várias federações de outros países contactaram a federação espanhola para conhecer os detalhes.
"Orgulhamo-nos de que a RFEF seja valorizada pelo que estamos a conseguir, mas também pela conciliação (entre desporto e maternidade)", afirmou, na apresentação esta semana em Madrid do acordo com uma clínica que permitirá financiar a congelação de óvulos de futebolistas e árbitras.
Alexia Putellas, campeã do mundo com a seleção de Espanha e atual jogadora do London Cuty Lionesses, revelou ao jornal El Pais que a REEF veio concretizar uma aspiração e um pedido das próprias futebolistas.
"Para mim, é um enorme avanço, porque a federação compreende que estás a servir o teu país contra o teu relógio biológico, que não podes parar e não podes ser mãe porque precisas do teu corpo para trabalhar", afirmou Putelas, que realçou que as curtas carreiras profissionais das desportistas de elite coincidem com a sua fase de máxima fertilidade.
"É muito importante para uma jogadora viver mundiais, mas para quem tem o desejo de ser mãe não é fácil", acrescentou.
Outras futebolistas da seleção espanhola manifestaram-se no mesmo sentido, como Patri Guijarro, que classificou a decisão da REEF "um passo mais" para uma mulher desportista poder escolher "quando e como quer ser mãe".
"O mais importante é conseguir que as desportistas sintam que não têm de escolher entre a vida pessoal e a carreira desportiva", disse Patri Guijarro, que esteve na apresentação feita na REEF esta semana.
No entanto, outras mulheres desportistas de elite espanholas colocaram algumas dúvidas e deixaram críticas em relação ao anúncio da REEF.
Foi o caso de Ana Peleteiro, campeã da Europa de triplo salto depois de ter sido mãe.
"Não deixem que vos vendam esta notícia como um avanço feminista, porque a realidade está muito longe disso (...). Esta medida é apresentada como feminista quando, na verdade, é profundamente machista... Por que razão a instituição para a qual estas mulheres trabalham tem interesse em que adiem a maternidade? Pretende facilitar que as mulheres sejam mães ou pretende que não o sejam enquanto estão a competir?", escreveu Ana Peleteiro nas redes sociais.
"A questão não deveria ser como conseguimos que uma desportista adie a maternidade, mas sim como conseguimos que ser mãe não prejudique a carreira de uma desportista”, acrescentou.
Também a nadadora Ona Carbonell, que tem 23 medalhas em mundiais e coordena a Comissão de Maternidade e Desporto do Comité Olímpico Espanhol questionou, em declarações ao jornal Marca, o que está verdadeiramente em causa.
"Não posso julgar a Federação Espanhola de Futebol porque, na verdade, não sei qual foi o objetivo por trás desta decisão. O que posso afirmar é que adiar a maternidade não é conciliar. Conciliar é ajudar a tornar a maternidade viável e a melhor possível enquanto uma desportista está na ativa", defendeu.
Igualmente em declarações ao Marca, a triatleta Eva Moral, que foi mãe depois de ter conseguido um bronze nos jogos de Tóquio-2020, disse ter "sentimentos contraditórios" em relação ao anúncio da REEF.
"Ao princípio, pareceu-me uma boa medida porque pagam e é uma coisa cara (a congelação de óvulos). Mas desde que não seja um método de pressão para que enquanto estão a trabalhar para eles não sejam mães", afirmou, acrescentando sentir que "pode ser uma faca de dois gumes".
"O mais importante é que se tomem medidas de conciliação reais (...). Eu senti-me muito sozinha e pouco apoiada", disse ainda.
A presidente da Futpro, a maior associação de jogadores de futebol de Espanha, reconheceu ao El Pais que muitas jogadoras "atrasam a decisão de ser mães e quando a tomam talvez seja demasiado tarde".
"Temos a tarefa pendente de trabalharmos todos em conjunto para melhorar esse regresso após a maternidade. Voltar a competir depois de ser mãe é muito difícil; não dispomos de estudos científicos sobre jogadoras de futebol, não temos protocolos de recuperação, não sabemos o que elas têm de fazer para recuperar e atingir o máximo rendimento", sublinhou.
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