Minuto 29 da final da Taça das Taças, entre o PSG e o Rapid Viena. A 35 metros da baliza de Michael Konsel, Youri Djorkaeff conquista um livre após um contacto com Peter Guggi. Demasiado longe para o Snake, mas à distância ideal para Bruno N'Gotty.
Djorkaeff toca para o defesa-central, que dispara um remate forte e tenso. A bola sofre um ligeiro desvio em Peter Schöttel, uma referência do clube austríaco, e segue em direção à baliza. O ressalto é traiçoeiro: Konsel mergulha tarde demais e as redes abanam.
Três anos depois do triunfo do Marselha na Liga dos Campeões, o PSG conquistava a Taça das Taças.
Ao contrário do que afirmou Zlatan Ibrahimovic, convencido de ter colocado o PSG no mapa do futebol europeu apenas com a sua chegada, o PSG já somava grandes resultados a nível continental. O autor do livro "PSG 1996, premier sacre européen", Clément Lemaître recorda esse período dourado da era Canal+: "O PSG era um clube europeu de topo, com cinco meias-finais continentais consecutivas e duas finais da C2 em 1996 e 1997. O clube chegou mesmo a ser número 1 no ranking UEFA".
Estávamos no início dos efeitos da Lei Bosman e, sobretudo, só o campeão nacional participava na Liga dos Campeões, o que permitia à Taça das Taças e à Taça UEFA terem quadros de grande qualidade. Até uma deslocação a Molde para abrir a competição revelou-se perigosa. Um tal de Ole Gunnar Solskjaer inaugurou o marcador, mas o PSG venceu por 3-2 antes de confirmar o apuramento no Parque (3-0).
Nos oitavos de final, o adversário foi o Celtic. E, na altura, jogar no Celtic Park não era tarefa fácil. "Na primeira mão, Djorkaeff marca perto do fim. Antes de irem a Glasgow, os jogadores estavam muito cautelosos porque havia jogadores como John Collins, que depois assinou pelo Mónaco, a lenda Peter Grant, ou ainda Pierre van Hooijdonk. Prepararam-se para uma grande batalha, mas acabaram por vencer de forma clara por 3-0, com um bis de Patrice Loko e um último golo de Pascal Nouma, com a famosa ‘asa de pombo’ de Djorkaeff. Os adeptos escoceses ficaram incrédulos, pois aquele gesto não era habitual por lá", recorda Clément Lemaître.
Seguiu-se a qualificação frente ao Parma de Hristo Stoitchkov, único marcador na primeira mão, antes de o PSG dar a volta à eliminatória no Parque, com dois penáltis convertidos por Raí (3-1), e depois frente ao Deportivo da Corunha de Bebeto: "Alain Roche conta no livro que nunca vai esquecer essa meia-final, pois foi realmente muito dura".
A final não deixou grandes recordações e talvez seja isso que falta ao PSG, enquanto o Marselha chegou à final com um percurso pouco memorável, mas bateu o grande AC Milan em Munique: "A final não foi excecional, foi muito interrompida. No cômputo geral, o PSG foi superior, com destaque para uma bola ao poste de Djorkaeff e uma grande oportunidade de Vincent Guérin já perto do fim. O Rapid criou duas ocasiões perigosas no final, mas Bernard Lama fez duas defesas fabulosas que garantiram o título ao PSG".
A epopeia parisiense esteve longe de ser linear. No topo da Division 1 na pausa de inverno, o PSG perdeu a vantagem de 10 pontos para o Auxerre, que acabaria por conquistar a dobradinha. Antes de ir ao Riazor defrontar o Deportivo, Djorkaeff regressava de uma lesão que o afastou quase um mês. Entrou a dez minutos do fim e marcou um golo prodigioso que mudou o rumo da eliminatória. Chegado com o estatuto de campeão pelo Nantes, Loko viveu um luto pessoal devastador e, apesar de ter apontado quatro golos decisivos, atravessava um momento de grande sofrimento.

Antes da final, Michel Denisot teve uma ideia: convidar Yannick Noah, presença habitual na célebre Corbeille do Parque, para animar o estágio no País Basco. Luis Fernandez aprovou, mas proibiu o antigo tenista de pôr os pés no relvado ou no balneário, sob pena de se demitir.
"Era preciso pôr as ideias no sítio e logo no primeiro dia de estágio, Noah sugeriu ir a Hondarribia, do outro lado da fronteira, para fazer uma festa", explica Clément Lemaître.
"Sentiu que os sorrisos voltaram, que algo se desbloqueou. A canção Yeah Yeah tornou-se o hino da equipa. Lama explicou que essa noite foi decisiva, pois todos os jogadores recuperaram uma boa dinâmica", acrescenta.
Esta vitória é também da direção do PSG, que não teve receio de escolher Luis, então com 35 anos, para treinador.
"É muito jovem e, aliás, mantém um pouco o espírito de jogador, pois participa nos treinos, brinca, joga às cartas. Era direto no balneário e no jogo. Em 1994, Luis treinava o AS Cannes e Denisot foi buscá-lo em pleno Festival! Arthur Jorge e Denis Troch tinham conseguido excelentes resultados, mas a direção queria ver bom futebol e Luis queria precisamente dar espetáculo aos adeptos com um estilo vistoso. Por exemplo, no jogo da segunda mão contra o Parma, começou com três avançados puros: Loko, Pascal Nouma e Julio César Dely Valdés", conta.
Trinta anos depois, o PSG é campeão europeu em título, o Catar levou o clube para outra dimensão desportiva e financeira. Então, o que resta desta Taça das Taças?
"Percebe-se que o PSG quer recuperar o seu passado", afirma Clément Lemaître, que está bem colocado para o saber, já que o seu livro nasceu de uma iniciativa do clube e contou com testemunhos de quase todo o plantel (apenas Loko e Paul Le Guen não participaram), satisfeito por reavivar as memórias.
"Quando os novos jogadores chegam, veem o desenho da taça feito por Joël Bats na parede, com as assinaturas de todos os jogadores à volta. Esse mural foi preservado no Parque, mesmo ao lado do balneário atual. Recorda o que era o PSG no final do século XX, tanto para os jogadores como para os visitantes franceses e internacionais", explica.
