60 longos anos de sofrimento e 30 desde que Baddiel e Skinner afirmaram que o futebol estava a regressar a casa, numa canção que agora é sinónimo dos fracassos de Inglaterra.
Futebol ainda não regressou a casa desde 1966
Não regressou em 1996, nem desde então, apesar dos Três Leões terem estado mais perto de conquistar grandes torneios nos últimos anos.
Em 1966, a Inglaterra era um país diferente. Duas décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, o país ainda estava a ser reconstruído e a seleção nacional estava prestes a proporcionar ao país um dos dias mais memoráveis da sua história.
O Estádio de Wembley, o mais icónico dos palcos, recebeu uma final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental que prendeu a atenção de todo o país.
Tanto assim foi que os 32,3 milhões que ligaram os seus televisores nesse dia ainda constituem o recorde do programa mais visto da história da televisão inglesa.
Trio do West Ham foi determinante
96.924 adeptos encheram o estádio para assistir a uma final magnífica, que não ficou isenta de polémica.
Em muitos aspetos, essa final e o reencontro que se seguiu no torneio de 1970, no México, lançaram as bases para a rivalidade que se desenvolveu entre os dois países.
Com o West Ham United a ter triunfado em Wembley nas duas épocas anteriores, na final da Taça de Inglaterra de 1964 frente ao Preston North End (3-2), e depois na final da Taça das Taças de 1965 frente ao TSV Munich (2-0), a final do Mundial representava uma oportunidade única de fazer história.
Isto porque a Inglaterra era capitaneada por Bobby Moore, então jogador dos Hammers, claro, e com os colegas de clube Geoff Hurst e Martin Peters também no onze inicial de Inglaterra, o clube do leste de Londres teve a oportunidade de ver três dos seus jogadores a fazer história.
Poucos imaginariam o quão determinante seria o trio do West Ham.
Le Tournoi não conta
Até ao hat-trick de Kylian Mbappé frente à Argentina na final do Mundial-2022, o hat-trick de Hurst era o único conseguido numa final da FIFA, e com Peters a marcar o outro golo que permitiu à Inglaterra vencer por 4-2, percebe-se porque ainda hoje há quem diga que o West Ham venceu o Mundial nesse ano.
Nesse momento, estando no topo do mundo do futebol, dificilmente alguém imaginaria que, 60 anos depois, a Inglaterra ainda não teria acrescentado outro grande troféu a esse triunfo. Sugerir que a vitória no Le Tournoi em 1997 conta de alguma forma é, francamente, absurdo.
Apesar das melhorias evidentes na estrutura da seleção inglesa, tanto com a criação do St. George's Park em 2012 como com o estilo de jogo sob treinadores mais inovadores, a verdade é que os Três Leões continuam atrás dos seus rivais europeus e sul-americanos no que toca a troféus conquistados.
Salvo raras exceções em que as esperanças dos adeptos aumentaram – o Euro 96 vem logo à memória – a Inglaterra parece sempre resignar-se ao papel de eterna vice-campeã.
Aceitação coletiva
Parece haver uma aceitação coletiva de que a seleção nacional simplesmente não tem aquele fator X para conseguir ultrapassar a última barreira quando realmente importa.
A prova está à vista de todos. Basta olhar para a forma como Thomas Tuchel ordenou à sua equipa inglesa que recuasse frente à Argentina no torneio deste ano, quando a Albiceleste estava ao alcance.
Ou para a forma como a equipa de Gareth Southgate sucumbiu perante a Croácia em 2018, apesar de ter estado em vantagem e a dominar essa meia-final.
Se o bloqueio é mental, físico ou uma mistura de ambos, simplesmente não é suficiente para os inventores do futebol.
Quantos mais anos de sofrimento?
Um país que liderou não só no desporto, mas em muitos outros domínios, está novamente no fundo da montanha depois de ter conquistado o topo há tantos anos.
Um declínio lento mas constante, que está a demorar décadas a inverter.
É difícil não pensar que, se a Inglaterra conseguisse finalmente libertar-se deste peso, poderia abrir caminho para uma nova era de domínio dos Três Leões, à medida que o projeto de St. George's Park começa finalmente a dar frutos.
Até lá, resta voltar à estaca zero e esperar que sejam apenas mais alguns anos de sofrimento...
