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Análise: As três chaves para a vitória de Espanha frente à França, segundo Hoarau

As três chaves para a vitória de Espanha frente à equipa de França
As três chaves para a vitória de Espanha frente à equipa de FrançaReuters/Jerome Miron

Derrotada por 2-0 por uma Espanha implacável, a equipa de França despede-se do Mundial pela porta pequena. Para lá do resultado, é a forma como tudo aconteceu que levanta questões: a Roja dominou os Bleus em todos os aspetos do jogo, com e sem bola. Guillaume Hoarau analisa as três chaves desta demonstração espanhola.

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Como é que a Espanha conseguiu dominar de forma tão clara esta meia-final frente a uma equipa de França que era apontada como uma das favoritas ao Mundial?

Para perceber os mecanismos desta vitória da Roja, Guillaume Hoarau explica-nos as três chaves que fizeram a diferença: a superioridade coletiva espanhola com e sem bola, um trabalho defensivo de mestre para anular as estrelas francesas e, por fim, o famoso caráter da Roja, que nunca abdicou dos seus princípios apesar da pressão. Uma verdadeira lição de futebol, analisada ao detalhe.

A superioridade coletiva de Espanha 

Desde o início da competição, a Roja tem sido sinónimo de coletivo extremamente bem trabalhado. É certo que Luis de la Fuente foi moldando o seu onze, fazendo os ajustes necessários nos jogos decisivos — como se viu nas titularidades de Fabián Ruiz e Pedro Porro em detrimento de Pedri e Marcos Llorente. Mas se há algo que se destaca hoje, é que esta Espanha é uma equipa que joga com 11 e para os 11 que estão em campo.

A opinião de Guillaume Hoarau: "Com bola, pode dizer-se que foi uma autêntica masterclass. Os espanhóis criaram constantemente soluções à volta do portador da bola. O que mais me impressionou, logo desde o início do jogo, foi o papel do Fabián Ruiz e do Rodri. O Rodri acabou o jogo com a camisola dentro dos calções — ou seja, em nenhum momento esteve sob pressão em duelos que obrigassem a ir ao chão. Normalmente, quando acabas um jogo assim, sais sujo. Aqui, não: terminou impecável, o que mostra que, intelectualmente, este jogador foi simplesmente incrível. Havia sempre um colega disponível".

"Formaram autênticos triângulos no meio-campo, com o Dani Olmo na ponta. Foi impressionante: havia sempre um jogador entre linhas, um terceiro a aparecer em profundidade, uma mobilidade constante. A França nunca conseguiu pressionar o portador da bola, simplesmente porque nunca optou por jogar homem a homem no relvado. Escolheu um pressing zonal — e nesse contexto, Rodri e Fabián Ruiz impuseram-se".

Rodri foi o centro do jogo espanhol
Rodri foi o centro do jogo espanholREUTERS/Agustin Marcarian/Opta by Stats Perform

"O que torna isto ainda mais impressionante é que não estamos a falar nem de força nem de velocidade. Durante muito tempo criticou-se o Fabián Ruiz por ser um jogador algo lento. Ontem (terça-feira), mostraram que existem zonas no relvado a que chamamos espaços livres, e que souberam encontrá-los sempre. Portanto, com bola, foi uma masterclass: dou, desmarco-me, crio triângulos, procuro espaço. São os fundamentos do futebol. E quando se consegue fazer isto numa meia-final contra a França, prova-se um verdadeiro domínio. A Espanha controlou o jogo".

"Sem bola: a lógica foi a mesma. Quando perdiam a bola, agrupavam-se sistematicamente à volta da zona. Podia esperar-se que a Espanha recuasse quando perdesse a bola — não foi o caso. Mantiveram-se sempre juntos à volta da zona, sem recuar passivamente. O que me chamou a atenção foi que não fizeram um pressing desenfreado, mas orientaram o jogo francês de forma a deixar a bola nos centrais e nos laterais. Ao colocar muita densidade no meio-campo, obrigavam os centrais franceses a manter a bola — e, obviamente, não é o Upamecano que vai fazer um passe decisivo. Conhecemos também as limitações ofensivas e técnicas do Koundé e do Digne".

"O objetivo era claro: impedir que os quatro jogadores ofensivos franceses se encontrassem em situações ideais — recuperar a bola, virar-se, ganhar velocidade. Muitas vezes é assim que funciona: deixa-se a bola nos jogadores menos fortes tecnicamente. Foi exatamente isso que a Espanha fez".

"Portanto, sem bola, mantiveram-se juntos à volta dos seus melhores jogadores e deixaram deliberadamente a bola aos outros".

Estatísticas da partida
Estatísticas da partidaOpta by Stats Perform

Um trabalho defensivo milimétrico 

A segunda chave do jogo foi o trabalho defensivo excecional realizado pelo coletivo espanhol, sobretudo a capacidade de anular a principal arma dos Bleus: o seu quarteto ofensivo. Mbappé, Olise, Dembélé e Barcola estiveram simplesmente ausentes durante todo o jogo, neutralizados por um plano tático preparado ao pormenor antes desta meia-final.

A opinião de Guillaume Hoarau: "O trabalho defensivo espanhol foi incrível. O objetivo era, naturalmente, privar Olise, Dembélé, Barcola e Mbappé da bola. Então, como é que os espanhóis fizeram?".

"Simples: deixam os laterais e os centrais com a bola e concentram o máximo de jogadores no meio-campo. Resultado: quando o Olise recebe a bola, há sempre um jogador nas costas a orientá-lo para o pé esquerdo, e o único passe possível é para trás. O Olise nunca conseguiu virar-se com conforto, porque o Rodri pressionava-o, o Dani Olmo também vinha pressionar — enfim, havia uma verdadeira densidade de jogadores no meio-campo".

"O mesmo para Barcola e Dembélé: assim que recebiam a bola, um lateral e um médio apareciam logo em apoio. E o Cucurella fez um grande jogo, sempre em cima do Dembélé ou do Barcola assim que recebiam a bola. Portanto, a Espanha defendeu por zonas e em superioridade numérica".

"Para o Mbappé, a lógica foi a mesma, mas desta vez com o Unai Simón a fazer de guarda-redes-líbero: 'Malta, podem sair ao portador da bola para lhe meter pressão e impedir que ajuste o passe, que eu fico a controlar atrás'. Por isso é que o Mbappé esteve quase sempre no limite do fora de jogo — ou mesmo em fora de jogo — na maior parte do tempo. O bloco espanhol estava tão subido que ele tinha de arriscar essa linha, pronto para atacar a profundidade a qualquer momento. E se vinha buscar a bola aos pés, isso trazia mais um jogador para o meio-campo. Um verdadeiro dilema para ele. E, a certa altura, isso frustra: precisas de tocar na bola".

Toques de Mbappé frente à Espanha
Toques de Mbappé frente à EspanhaOpta by Stats Perform

"A Espanha, sinceramente, fechou as estrelas francesas com dois ou três jogadores à volta delas, retirando-lhes todos os pontos fortes: o jogo entre linhas para o Olise: cortado; os um-contra-um para Dembélé e Barcola: anulados; a profundidade para o Mbappé, com o guarda-redes a fazer de líbero: praticamente impossível. Os franceses só recebiam a bola parados ou em fora de jogo, e estavam sempre rodeados. Parabéns aos espanhóis por conseguirem isto, porque exige coragem. Se estacionas o autocarro, sofres um golo e a França castiga-te. Os espanhóis, esses, foram corajosos. Mantiveram o seu ADN".

O caráter espanhol 

Por fim, onde os homens de Didier Deschamps vacilaram foi no plano emocional. Desde o apito inicial, esta equipa de França pareceu bloqueada, incapaz de entrar verdadeiramente no jogo. O peso do momento pode ter tido influência, mas foi sobretudo o caráter forte dos espanhóis, demonstrado ao longo de toda a partida, que fez a diferença.

A opinião de Guillaume Hoarau: "E chegamos naturalmente ao caráter espanhol. Para mim, quando se fala de caráter, não é uma questão de aparência. Não se mostra apenas nos duelos ou na agressividade".

"Claro que foram agressivos e ganharam muito mais duelos — creio que na primeira parte, os centrais venceram 9 em 10 duelos. E não tiveram medo. O que mais me impressionou foi o Rodri e o Fabián Ruiz. Jogaram como se estivessem sentados num sofá, sem nunca acusar nervosismo. E é isso o caráter: conseguir jogar uma meia-final do Mundial contra a equipa de França mantendo os seus princípios".

"Os espanhóis podem ser duros nos duelos — e foram — mas não é o seu estilo bater com o punho na mesa. É mais: 'Jogamos sob pressão, não traímos os nossos princípios e, aconteça o que acontecer, mantemos a cabeça fria'. Por isso é que dizia aos meus amigos que os espanhóis ganharam três jogos num só: o da bola, o tático e o dos nervos. Porque dominaram a França coletivamente, anularam as individualidades e, mesmo assim, a Espanha nunca abdicou do seu futebol".

"Na verdade, é aí que está o caráter: pensar 'Ok, temos a melhor equipa do torneio, mas nós não mudamos os nossos hábitos'. O Rodri podia ter dito: 'Malta, se querem que eu pressione o jogo todo, não sei fazer isso — eu preciso da bola'. Então, como se faz para manter a bola e o nosso ADN? Fazemos as estrelas adversárias correr. A certa altura, fazem-no uma, duas, três vezes — mas não durante todo o jogo"-

"Portanto, parabéns. Era fácil dizer, mas eles fizeram-no, e a jogar o futebol espanhol. A vitória é, por isso, mais do que merecida. É uma lição de futebol. E penso que é preciso ser tão digno na derrota como na vitória. Não há nada a apontar: é a vitória da Roja".

Guillaume Hoarau
Guillaume HoarauConsultor Flashscore